sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Formação médica no Brasil preocupa ministérios e entidades

Por Ana Ruth Ramires, jornalista de O Povo.

Com resultado do Enamed, entidades reiteram riscos de cursos com desempenho insuficiente. Entidades particulares contestam exame.

O desempenho insatisfatório de parcela significativa dos cursos de medicina no Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, especialmente em instituições privadas, preocupa Governo Federal e entidades médicas. Cerca de 30% das 351 instituições que participaram obtiveram conceitos 1 e 2, considerado insatisfatório, e passarão por medidas de supervisão do Ministério da Educação (MEC).

Os resultados foram divulgados na segunda-feira passada, 19. "Há uma grande preocupação nos ministérios da Educação e da Saúde em assegurar que os cursos oferecidos aos alunos brasileiros possam garantir a qualidade da formação médica nesse País, até porque são profissionais que cuidam da vida das pessoas", disse Camilo Santana, ministro da Educação.

Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), argumenta que o aumento de escolas médicas no País, que supera numericamente nações muito mais populosas, compromete a formação acadêmica e exige mecanismos de avaliação mais rigorosos.

Para ele, os resultados do Enamed são reflexo de uma expansão desordenada e de um modelo de "formação em massa". Para solucionar essas deficiências, ele propõe a adoção de um modelo de avaliação por etapas, que permitiria identificar falhas específicas em diferentes ciclos da graduação.

"A formação básica de disciplina básica, de anatomia, de fisiologia tá muito boa, mas o ciclo clínico tá ruim. Aí serve para orientar o que a instituição precisa melhorar", exemplifica.

Ele acredita que, a despeito de sanções imediatas, o mercado servirá de balizador, pois as pessoas evitarão se matricular em cursos com notas mais baixas, o que pode levar ao esgotamento e fechamento natural de cursos deficientes.

Diante do resultado divulgado na segunda, o Conselho Federal de Medicina (CFM) quer impedir que os estudantes do último semestre de Medicina que não atingirem a nota mínima no exame recebam o registro profissional.

Segundo Estevam Rivello Alves, diretor de Comunicação do CFM, "o Enamed é um extrato daquilo que as entidades médicas já vêm falando há cerca de duas décadas". O médico elogia a realização do Enamed, mas considera que o exame precisa ser melhor implementado.

"Essa é uma avaliação que foi feita só de forma objetiva, uma prova de múltipla escolha, com 100 questões, é necessário que se tenha uma avaliação em estações práticas, que é o que é feito também no mundo, né, pra que a gente tenha a noção exata se esse estudante tá bem avaliado", pormenoriza.

O CFM também defende a criação de um exame de proficiência médica para regular a atuação na área (PL 2.294/2024). "No Senado Federal, nós já fomos aprovados, esse projeto já foi aprovado na Comissão de Educação, está na Comissão de Assuntos Sociais em última votação e em terminando ela pode ser remetida já diretamente para a Câmara", diz sobre o PL.

Nessa quinta-feira, 22, o ministro da Saúde Alexandre Padilha, contudo, afirmou que o Governo Federal vai propor ao Congresso Nacional que o Enamed se torne também um exame de proficiência.

"Primeiro porque ele [o exame] vai ser feito no segundo, no quarto e no sexto ano (de faculdade), ou seja, ele avalia o progresso. E ele é feito pelo Ministério da Educação, que tem como interesse principal a formação médica, e não por outra entidade que possa ter qualquer outro interesse com relação a isso", declarou o ministro em coletiva de imprensa no Rio de Janeiro.

Padilha esclareceu que a proposta só pode entrar em vigor após uma mudança na legislação brasileira, portanto, valeria para edições futuras do Enamed e não para a edição de 2025. (com Agência Brasil)

Entidades criticam metodologia e "falta de transparência"

De outro lado, associações de ensino como a Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (Abmes) e a Associação Nacional das Universidades Particulares (Anup) criticam a metodologia do exame, alegando falta de transparência e critérios definidos tardiamente.

Questionada sobre os resultados das universidades privadas no Enamed, a Anup responde ao O POVO que a avaliação da formação médica "não pode se apoiar em um único dado ou em um único instrumento, sobretudo quando esse instrumento ainda está em processo de consolidação". A entidade se preocupa com "a forma como esses dados foram produzidos, tratados e comunicados".

A Anup cita "inconsistências nos dados utilizados, critérios divulgados apenas após a aplicação da prova, problemas de representatividade da amostra - incluindo a participação de estudantes do 11º período - e a utilização de um exame inaugural para sanções regulatórias".

Para se consolidar como ferramenta essencial de avaliação, conforme a entidade, é necessária "definição prévia de critérios, um regime de transição adequado, integração com os demais instrumentos do sistema regulatório e engajamento efetivo dos estudantes".

A Abmes publicou nota afirmando que o Enamed "não demonstrou que a saúde da população brasileira esteja em risco, tampouco que a criação de uma prova de proficiência para egressos seja a solução para o aprimoramento da formação médica no País".

Associação cita que "os estudantes realizaram a prova sem o devido comprometimento, uma vez que não foram previamente informados de que o exame serviria como parâmetro de proficiência, nem de que haveria um corte mínimo de 60 pontos".

Ainda em nota pública, a entidade critica o que chama de "interesses corporativistas" das entidades médicas e reforça que "as instituições privadas mantêm firme compromisso com a qualidade da formação médica e apoiaram a criação do Enamed como instrumento de avaliação educacional".

"No entanto, a primeira edição do exame foi marcada por inconsistências (erros), ausência de critérios previamente definidos, falta de diálogo com a comunidade acadêmica e descumprimento do cronograma, o que comprometeu a previsibilidade, a transparência e a segurança jurídica do processo", acrescenta.

81% dos resultados insatisfatórios são de instituições privadas

Conforme o Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed) 2025, dos 107 cursos com resultados insatisfatórios, 81% (87) são de instituições privadas. Quase metade (49,4%) dos cursos privados registraram notas 1 e 2, resultado considerado insuficiente e passível de sanções.

César Eduardo Fernandes, presidente da Associação Médica Brasileira (AMB), por meio de comunicado, defende que os dados do Exame "evidenciam uma forte assimetria na formação médica no Brasil". "Universidades públicas federais e estaduais concentram mais de 84% de seus cursos nas faixas de excelência, enquanto os piores resultados ocorrem principalmente em instituições municipais e privadas com fins lucrativos", analisa.

Ele cita os riscos da expansão desordenada de escolas médicas. Segundo o presidente da AMB, muitas vezes, as instituições são abertas "sem infraestrutura adequada, corpo docente qualificado ou condições mínimas para a formação segura de novos médicos, nem residência médica".

"Não se trata de formar mais médicos, mas de formar bons médicos, preparados para atuar no SUS e para responder às necessidades da população brasileira", acrescenta César Eduardo Fernandes.

Conforme Marcelo Gurgel, professor titular e decano do curso de Medicina da Universidade Estadual do Ceará (Uece), muitas faculdades privadas não possuem hospitais próprios e utilizam a rede pública para o internato. Ele cita também a oferta de vagas para residência.

"A melhor formação de um médico é na residência. Nós tínhamos vaga para residência médica que alcançava 70% dentro dos egressos. De cada 10 formados, sete deles iam para a residência médica. E, atualmente, com a grande oferta de vagas em Medicina, nós vamos ter menos de 30% de vagas em residência para os que estão se formando", relaciona.

Ele cita também que muitas instituições aumentam a oferta de vagas sem ampliar a estrutura proporcionalmente. "Quando o curso é reconhecido e consegue um upgrade para Centro Universitário ou para Universidade, ela tem autonomia para expandir as vagas sem dar satisfação ao MEC. Então, ela tem uma autorização inicial para receber 50 alunos e quando menos espera tá com 200 alunos", afirma o médico Marcelo Gurgel.

Conforme o Ministério da Educação, os cursos que obtiveram conceito Enade nas faixas 1 e 2 — menos de 60% dos seus estudantes apresentaram desempenho considerado adequado no Enamed — e passarão por ações de supervisão da Secretaria de Regulação e Supervisão da Educação Superior (Seres) do MEC.

Medidas incluem a suspensão total de ingresso de novos alunos; redução do número de vagas autorizadas; restrição de acesso a programas federais, como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies).

Sobre as medidas aplicadas aos cursos que não atingiram o nível mínimo de aprendizagem, o ministro Camilo Santana destacou que o objetivo "não é aplicar sanções ou penalidades intencionais a qualquer instituição, mas assegurar a formação de médicos de qualidade no Brasil".

Os 99 cursos que não obtiveram resultado satisfatório, terão 30 dias para apresentar a defesa ao MEC após a publicação dos resultados no Diário Oficial da União, antes que as sanções entrem em vigor. Após o prazo, as medidas valerão até a próxima aplicação do Enamed, prevista para outubro de 2026.

Fonte: O Povo, 23/01/2026. Reportagem. p.4-5.


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