Por
Romeu Duarte Junior (*)
A Robson Menezes
Mais de duas semanas já se passaram do
acontecido e eu ainda estou triste. Ainda não digeri o rebaixamento do Ceará
para a Série B do Campeonato Brasileiro. Aliás, digestão difícil, pois o
Fortaleza também caiu para o mesmo grupo naquele fatídico 7 de dezembro de
2025. "Quer dizer então que o fofinho lamenta também a sorte do Láion
(argh, tudo menos isso!)?!", perguntarão os nelsonrodrigueanos idiotas da
objetividade. Respondo na lata: claro, o futebol não se restringe apenas à
disputa do campeonato local. O ano começa logo com o tal
"manjadinho", que não motiva mais ninguém a não ser quando da
realização do Clássico-Rei e, logo após, começa a pedreira de um certame
traiçoeiro com times sem muita expressão. Aliás, como os nossos, que nisto se
transformaram.
O futebol cearense é hoje um muro de
lamentações. O Vozão, com seu time de operários bonzinhos e esforçados,
fracassou nos últimos jogos, quando teve 15 pontos ao seu dispor e só ganhou
um, degringolando na única vez que entrou no Z4. O Fortaleza, depois de uma
campanha horrorosa, construída com três técnicos, na qual passou quase toda na
rabeira, teve uma melhora grande na reta final sob Palermo, mas os vacilos
foram fatais. Faltou às duas equipes o que é fundamental no futebol: fazer o
dever de casa bem feito, ou seja, vencer as partidas aqui. Uma outra grande
lição que ficou é que não existe mais lugar para treinador medroso, covarde e
retranqueiro. Quem não tem a ousadia de ganhar merece perder. Agora, é refazer
cálculos, diminuir orçamentos, apequenar-se...
Numa frase: ludopédio alencarino, teu nome
é incompetência. É o tempo de reconstruir equipes, mandar jogadores caros
embora, contratar outros baratos (que podem custar caro), misturar maracujina
com calmantes e aguentar as finas e as grossas das torcidas, ambas
decepcionadas. Vale dizer que as hinchadas cumpriram à risca o seu papel. As
galeras alvinegra e tricolor ficaram no Top-4 em média de público no campeonato
passado, só perdendo mesmo para a do Flamengo e a do Corinthians, as duas
maiores do Brasil. Ou seja, não faltou apoio, faltou foi aplicação e vontade.
No bar, um amigo, entre um gole de uísque e outro, vaticina: "o campeonato
será longo, muito longo". Muito mais longo, penso eu, será o caminho de
volta à elite do pebol nacional. Alguém tem dúvida?
No final da tarde do dia da dupla queda, no
botequim, os semblantes dos fregueses se pareciam com aqueles dos personagens
do filme "O sétimo selo" de Ingmar Bergman. Em transe depressivo, não
acreditavam no que estavam vendo. Tanto tempo perdido defronte à televisão para
assistir dolorosamente ao aviltamento, que se deu de forma abraçada e na triste
e infausta companhia de Juventude e Sport. É hora também de mudar de hábitos,
reinventar-se. De engolir o choro e aceitar que a vida segue o seu rumo
inexorável. Às vezes, uma boa chapuletada obra milagres. Já estou me
organizando para comprar pacotes televisivos da Série B. Consultei um amigo
torcedor do Leão, que não perdeu a piada: "É boa, um kanal atrás de um
canal!", caindo na risada. Vamos em frente.
(*) Arquiteto e
professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/12/25. Vida & Arte. p.2.

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