Por Sofia Lerche Vieira (*)
A origem da universidade remonta à Idade
Média. Concebida sob o princípio da "busca da verdade sem
constrangimentos", sua autonomia é condição para a liberdade de ensinar,
pesquisar e produzir conhecimento. Tal princípio, assegurado pela Constituição
Federal de 1988 (Art. 207), é um componente essencial das democracias modernas.
Esse elemento fundamental da universidade,
porém, enfrenta pressões crescentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, intensificaram-se
críticas às universidades, utilizadas para justificar restrições orçamentárias,
vigilância sobre conteúdos e limitações à presença de estudantes e
pesquisadores estrangeiros, afetando diretamente a diversidade e a produção
acadêmica.
O cenário atinge tanto universidades de
reputação internacional, como Harvard, Columbia e Princeton, quanto outras
instituições do sistema de ensino superior norte-americano, antes livres de
ameaças à autonomia. O movimento "No Kings" ("Sem Reis"),
que tem levado milhares de cidadãos a protestos de rua naquele país, expressa,
em alguma medida, a resistência da sociedade às perseguições em curso,
incluindo aquelas dirigidas às universidades.
Esse contexto dialoga com riscos já
conhecidos no Brasil. Em cenários de avanço de agendas autoritárias,
universidades frequentemente se tornam alvo por sua natureza crítica e
questionadora. A história brasileira demonstra que perseguição a professores e
estudantes, controle de conteúdos e restrições à liberdade acadêmica já
comprometeram o papel das instituições de ensino superior.
A situação nos Estados Unidos permite
vislumbrar possíveis desdobramentos sob governos de extrema direita: maior
controle político na escolha de dirigentes, enfraquecimento da liberdade
intelectual e cortes de financiamento. Trata-se de um padrão em que o
pensamento crítico passa a ser visto como ameaça.
A fragilização da autonomia universitária impacta
não apenas a educação, mas também a capacidade da sociedade de refletir, inovar
e sustentar suas instituições democráticas. Trata-se, portanto, de um alerta
global: defender a universidade livre é defender a democracia.
(*) Professora do
Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.

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