Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Como seguirei sem ouvir a sua voz, sem
ouvir a sua risada maravilhosa, sem ouvir o senhor dizer que a casa estava mais
bonita quando eu dormia com vocês? Como será não ouvir o senhor perguntar:
"Cadê os meninos, minha filha?"? Como será escrever sem ter o meu
maior admirador para fazer os comentários amorosos, hiperbólicos e
suspeitíssimos - afinal, eram seus, papai? Como seguirei sem o meu melhor
amigo, que segurou a minha mão quando eu não tive condições de me sustentar?
Como será viver sem o seu olhar e o seu sorriso apaixonados por mim, pai? Como
será não ouvir o senhor dizer: "O vovô é axaponado pela Maína"?
Pai, me falta um pedaço. Já não sou mais a
mesma. Ao mesmo tempo, algo se expande. Suas raízes se aprofundam em mim. É
algo inominável, mas talvez as palavras de Drummond se aproximem do que eu
sinto: "A ausência é um estar em mim, e essa ausência assimilada ninguém a
rouba mais de mim".
Pai, agradeço a Deus por ter dormido na sua
casa na sua última noite. Quando cheguei, conversamos sobre o meu
aniversário, que se aproxima, e eu lhe disse: "Vou fazer 45 anos,
pai". E o senhor me respondeu: "É muito tempo, minha filha. Mais que
o dobro da idade que eu tinha quando perdi o papai".
Ao acordar, dei-lhe um beijo de bom-dia, e
o senhor me disse, pela última vez: "A casa está mais bonita!"
Depois, voltou-se para a mamãe e perguntou: "Guidinha, quer casar
comigo?" Sorri e perguntei: "Quer renovar os votos, pai?" E o
senhor respondeu, brincando: "Não. Quero casar de novo com ela".
Lembra do passarinho que vi de longe e
mostrei ao senhor, pai? Outro dia, enviei-lhe um vídeo de um bem-te-vi cantando
na minha casa, e o senhor me escreveu: "Ele deve estar falando uma coisa
muito boa, minha filha". Agora, pai, sempre que um passarinho cantar, vou
sentir que é o senhor me falando coisas boas.
Lembra que eu lhe contei que o meu dia
anterior tinha sido muito bonito? Que eu tinha ido à Praia de Iracema ver o pôr
do sol e senti tanta vontade de tomar banho de mar - porque foi o senhor, pai,
quem me ensinou a amar o mar - que entrei de roupa e tudo, e o senhor sorriu?
Mostrei também ao senhor a foto de uma criança brincando, e o senhor repetiu
uma frase que dizia tantas vezes: "Criança é uma maravilha!"
No seu último dia, pai, o vento soprava
forte. Lembra que o senhor dizia: "Dizem que, quando a gente sente o vento
no rosto, é Deus nos acariciando." Ele o acariciou, papai.
Lembra que ouvimos juntos "Todo
Sentimento", do Chico?
O senhor descansou nos meus braços, papai,
que tenham sido o colo do amor mais profundo que uma filha pode oferecer a um
pai.
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei,
como encantada ao lado teu
Da sua sempre, Ticinha
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 15/07/2026.
Opinião. p.17.

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