sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Crônica: Quando um guaxinim era o perigo! ... e outros causos

Quando um guaxinim era o perigo!

O motorista se chamava João, rapaz simpático, boa conversa. Eu, no banco de trás do táxi, lia no celular coisas da modernidade intrigante.

A certo instante, espantado com recente episódio de violência no Rio de Janeiro, quebrei o silêncio, dizendo que nesses tempos difíceis "só a proteção divina para nos guardar".

E João, morador da Vila União do amigo Jair Moraes, conta, em contraponto, quão tranquilo era o ir e vir há mais de 40 anos.

- Morávamos na beirada da Lagoa do Opaia e, jovem ainda, íamos ao Vuac - Vila União Atlético Clube, festa animada pelo conjunto Os Morcegos. De casa pra lá, uns 300 metros.

- "Sem os ladrões atrás", perigo nenhum no caminho, nera?

- Nenhum! Ainda assim, mamãe pedia cautela: "Cuidado com cobra e guaxinim!"

A relação glúten/glúteo

Além da dificuldade de ler que prestasse, a vista não ajudava essas coisas todas; os ouvidos, contudo, alcançavam o que os ói não abarcavam.

Prestes a se aposentar, caladão, Dandão é sujeito atento, determinado a aprender. Entre outras, sabe o que é "glúteo", ouvira por vezes a palavra da boca do patrão, Dr. Osvaldo - "bem saidinho".

"Fazedor de mandado" de Dr. Osvaldo, tinha já 20 anos, era por ele "parido".

- Pense numa pessoa pra eu gostar! Um pai pra mim! Dou a vida por ele!

Em casa, certa feita, Dandão ouve da filha Diana, por primeira vez, uma palavrinha parecida com glúteo - aquela "proteína natural encontrada em cereais como trigo, cevada e centeio".

Que consumida por pessoas com condições específicas, é um perigo - provoca reações adversas, a exemplo da autoimune doença celíaca.

A filha, com considerada alergia ao trigo, toda se coçando, é indagada pelo pai sobre a mazela manifestada.

- É intolerância ao glúten!

- Ao quê, Diana?!?

- Glúten, pai! Não sei como ainda tem gente que gosta...

A filha nem bem pronunciou a frase completa ("Não sei como ainda tem gente que gosta de pão") e Dandão, pensando tratar-se do "grupo de três músculos na parte de trás do quadril", corre e arremata:

- Pois eu sei quem gosta! Dr. Osvaldo dá o maior valor!

Esquecendo o que não lembrava

Mal cheiro medonho - de cocô ultrapassado - no consultório. E o senhor, lá dentro, com pressa pra relatar ao médico uma "incapacidade de criar novas memórias, decorrido algum momento", conhecida por amnésia anterógrada.

Põe-se a contar ao geriatra, que se esforça para manter-se calmo, o que sentia. Profissional incomodado enquanto investiga do que sofria "seu Bené", e poder traçar o melhor plano de cuidados.

O octogenário paciente se faz acompanhar da filha Isaura, cuidadora monossilábica, acostumada já com os senões do pai. Começa Bené a discorrer.

- Doutor, eu como uma pratada de feijão, mas é como eu não tivesse comido nada...

- Isaura, ele comeu ou não essa pratada de feijão? - pergunta o doutor.

- Comeu... - responde seca a protetora.

- E aí, dotozim - prossegue Bené -, bebo uma garapa, mas é como se não tivesse bebido.

- E ele, Isaura, bebeu?

- Bebeu...

Agora, explodindo a catinga do "resto de tudo o que o corpo (de seu Bené) não aproveitara dos alimentos digeridos", é o próprio paciente que revela o que tem:

- Como eu ia dizendo, tá com três dias que eu defeco direto nas calças, mas é como se eu não tivesse obrado...

- Tá explicado! Agora tá explicado!

Fonte: O POVO, de 14/08/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


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