Por Pe.
Reginaldo
Manzotti (*)
Fevereiro, embora seja o mês mais curto
do calendário, possui um significado profundo para a espiritualidade cristã. É
neste período que a Igreja Católica celebra o Dia Mundial do Enfermo, em 11 de
fevereiro, data da memória litúrgica de Nossa Senhora de Lourdes.
Ao vivermos este mês como tempo dedicado
aos enfermos, a Igreja nos convida a entrar num dos mistérios mais profundos da
vida cristã: o encontro entre a fragilidade humana e a misericórdia de Deus.
Não é um convite teórico, mas profundamente concreto, feito de rostos,
histórias, dores e esperanças.
O Evangelho nos oferece uma parábola que
se torna guia para este tempo: o Bom Samaritano Jesus narra a história de um homem
ferido à beira do caminho, ignorado por um sacerdote e um levita, mas socorrido
por um samaritano que, movido pela compaixão, cuidou de suas feridas e
garantiu-lhe abrigo (Lc 10, 25-37).
Neste contexto, ecoa com força a
mensagem do Papa Leão XIV, que, ao refletir sobre essa parábola, recorda à
Igreja que o verdadeiro amor cristão nasce quando somos capazes de interromper
o nosso caminho para cuidar do outro, especialmente daquele que sofre. Segundo
ele, o mundo atual corre o risco de se acostumar com a dor alheia, passando por
ela sem se deter, exatamente como fizeram o sacerdote e o levita da parábola.
O homem caído à beira do caminho
continua presente em nosso tempo. Ele tem o rosto do enfermo que espera uma
visita, do doente que enfrenta longas noites de solidão, da família que carrega
o peso da enfermidade sem apoio, do corpo fragilizado e da alma cansada. Isso
nos ensina que não basta ver: é preciso aproximar-se.
O Papa Leão XIV nos adverte que a
compaixão não é um sentimento passageiro, mas uma decisão. O Bom Samaritano
decide ver no ferido não um problema, mas um irmão. Decide gastar tempo,
recursos e até arriscar-se por alguém que não conhece. Essa decisão transforma
o caminho da indiferença em caminho de salvação.
É exatamente isso que contemplamos em
Nossa Senhora de Lourdes. Maria não permanece distante do sofrimento humano.
Ela aparece numa gruta simples, e se faz próxima dos doentes. Lourdes se tornou
um grande lugar de peregrinação, onde milhares de pessoas acorrem não para
fugir da dor, mas para atravessá-la com fé.
Assim como o Bom Samaritano se inclina
para cuidar das feridas, Maria se inclina com ternura maternal sobre os
enfermos. Ela não pergunta de onde vêm, nem quais méritos possuem; ela acolhe.
O Papa Leão XIV afirma que a Igreja deve aprender com essa lógica do amor
gratuito, pois o Evangelho só é crível quando se traduz em cuidado concreto.
Em Lourdes, muitos buscam a cura do
corpo, mas todos são convidados à cura do coração. Nem sempre o milagre
acontece como esperamos, mas sempre acontece algo maior: a certeza de que Deus não
abandona seus filhos na dor. Maria, como Mãe atenta, permanece junto à cruz de
cada enfermo, sustentando a esperança quando as forças parecem faltar.
O Papa recorda ainda que o Bom
Samaritano não delega o cuidado: ele mesmo se envolve. Isso nos interpela
profundamente. Quantas vezes terceirizamos o amor? Quantas vezes achamos que o
cuidado é tarefa apenas de familiares, profissionais e instituições? Fevereiro
nos lembra que todos somos responsáveis uns pelos outros.
Cada cristão é chamado a ser samaritano:
na família, na comunidade, no hospital, na paróquia. Um telefonema, uma visita,
uma oração oferecida, um gesto de paciência - tudo isso se torna sinal visível
do Reino de Deus. Como ensina o Papa Leão XIV, a santidade passa, muitas vezes,
por caminhos silenciosos, onde ninguém aplaude, mas onde Deus age.
Queridos filhos e filhas, neste mês dos
enfermos, peçamos a graça de aprender com o Bom Samaritano e com Nossa Senhora
de Lourdes. Que não sejamos uma Igreja que passa apressada, mas uma Igreja que
se detém. Que não sejamos uma comunidade distante, mas uma família que cuida.
Confiemos todos os doentes à intercessão
de Nossa Senhora de Lourdes. Que ela nos ensine a transformar a dor em oração,
o sofrimento em oferta e o cuidado em missão. E que, iluminados pelo
ensinamento do Papa Leão XIV, possamos ouvir de Jesus, não como reprovação, mas
como envio amoroso: "Vai, e faze tu o mesmo."
(*) Fundador e presidente da
Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de
Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 21/02/2026.
Opinião. p.16.

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