quinta-feira, 18 de agosto de 2022

UTOPIAS: do líquido para o gasoso

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

* O termo Utopia foi criado pelo inglês Thomas More para intitular um romance filosófico em 1516.

*A matéria pode ser encontrada em três diferentes estados em nosso planeta: líquida, sólida e gasosa. Fora da Terra existe um quarto estado, conhecido como plasma, abundante em lugares como o Sol e as estrelas.

*Gasosos são os corpos que possuem características de gás (estado físico qualificado por apresentar expansão espontânea e ocupar, assim, todo o espaço do lugar em que se encontra).

A Utopia de um sonhador moderno precisa necessariamente ser diferenciada em um aspecto fundamental. As utopias anteriores eram sonhadas por sociedades estáticas, quando nem a informática era imaginada. Havia um equilíbrio entre felicidade conquistada pela imaginação humana e a felicidade natural. Se houvesse desvios, invocavam-se as divindades para os controlar.

As Utopias criadas, declamadas em versos ou textos, reverenciavam os frutos da terra e a atmosfera de virtude e felicidade a ser seguida pelas gerações futuras. Eram virtuosas, felizes e inteiramente semelhantes, até que os “deuses” cansados dessa estática social resolveram catalogá-las segundo os três estados da matéria existente no planeta Terra: sólidas, líquidas e gasosas.

A tal utopia líquida, que dizem ser a que vivemos agora, embora possa parecer estática, é predominantemente dinâmica, porquanto sendo liquida, assume a morfologia do recipiente que lhe empresta a forma. Nessa forma destacam-se: tradições, costumes, veículos, casas, cidades, meios de produção e somente posso terminar com um grande etecetera.

Hoje, na polarização em que vive o Brasil, passa-se de uma solidez social crônica para uma fluidez total. É complicado. Imaginem para tempos gasosos, pois somos todos partes da mesma Gaia (MÃE -TERRA); Gases expandem-se, têm características amorfas, tendo penetrado no nosso passado, avistados no presente e caminhando para o futuro que acontecerá.

Rememoro que a definição do estado de uma utopia em um dos três estados físicos dos corpos em que quase todas as matérias podem ser classificadas não permite que criemos devaneios utópicos, como desejam as tais de ideologias, que não passam de sistemas de conceitos impossíveis de serem concretizadas, pois não consideram a individualidade de cada ser humano que funciona como óbice irremovível à liquefação de uma utopia.  No líquido já é impossível predizer qual futuro acontecerá, imaginem num mundo que passou para o estado gasoso.

O mundo onde vivemos está em mutação constante e a presente polarização desmensurada traz à nossa população um aumento de ansiedade, sejam as utopias sólidas, líquidas ou gasosas.

Os polarizadores esquecem-se de que a insegurança é a gênese/útero/parto das ansiedades que, de tão frequentes, tornaram-se no quadro patológico que é a principal pandemia do aqui e agora.

As principais e últimas notícias do Brasil e do Mundo são uma pletora de informações sobre política, economia, esportes, cultura, tecnologia, estilo de vida e muito mais, tornando as utopias cada vez mais líquidas, enquanto algumas tendem ao estado gasoso. Já são elas virtuais, ignorando o que é suscetível de se realizar, em potencial ou como possibilidade viável.

O estado de um corpo é determinado de acordo com sua capacidade de resistir a forças que possam mudar sua forma e volume. Um sólido tem forma e volume praticamente inalteráveis, já os gases, não.  Portanto, imaginar utopias com base em ideologias diversas é uma forma de despautério ideológico para não dizer em corriqueiro português: — grande besteirol.

BESTEIROL é um gênero de humor definido por seu conteúdo absurdo, escrachado, crítico, usado para criticar situações cotidianas ou a sociedade. Mas a utopia está na gênese de um dos maiores fenômenos recentes do consumo: os notebooks, sem falar nos Iphones e outros tantos, para terminar também no clássico Etecetera. A única coisa que sei ou arriscaria dizer: “Teremos seres humanos geneticamente modificados e corrigiremos os erros da natureza. Será um futuro muito diferente. E não existem futuros previsíveis. Somente um deles irá acontecer.

A ansiedade humana continua enquanto vivo permanecemos, e ela será eterna enquanto vivo formos.  Como psicoterapeuta concluo que a nossa Era da Ansiedade não aconteceu por acaso. O acaso inexiste. Nada de novo abaixo do Sol ou acima desta estrela de pequena grandeza ocorre por acaso e muito menos como novidade no Universo, nem as tais das utopias.

Em vez de trazer o Eldorado comunista para a América Latina, desencadeou-se um populismo anárquico. Concluo parafraseando o mestre Freud: “Oitenta e sete anos de vida e meus profetas ensinaram-me a aceitar a vida com serena humildade”

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

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