Por Sofia Lerche Vieira (*)
Era uma vez um violino que viajou por
muitos lugares devido às constantes mudanças da família de um oficial do
Exército. Quando menino, o Pai havia estudado o instrumento que, então, fazia
parte da educação musical de crianças. Aos nove anos, as aulas cessaram. O
aspirante a violinista foi matriculado no Colégio Militar de Fortaleza, onde a
instrução militar prevalecia. Adulto, vez por outra, ele evocava com certa
melancolia suas lembranças de tocar: "Taí, eu fiz tudo pra você gostar de
mim" ... O violino silencioso permaneceu na família.
Nenhum dos filhos expressou qualquer
vocação musical. A mãe até que tentou, introduzindo as crianças a sessões de
piano e acordeom. Apesar do esforço, não funcionou.
Para encurtar uma história longa, o violino
bolou por aí uma vida. Quando o Pai faleceu aos 101 anos e sua casa foi
desfeita, o violino foi achado quebrado, sem cordas e com o arco em pedaços. Os
filhos decidiram que quem herdaria o instrumento seria a filha caçula por ter
uma neta que começou a aprender violino muito pequena. Entre optar por fazer do
violino um enfeite ou devolver-lhe vida, a decisão dela foi por tentar
restaurar.
Depois de muito perguntar por Fortaleza e
muita gente se envolver na procura, foi localizado um luthier, em Aquiraz,
segundo as indicações, o único capaz de restaurar o violino sem vida. Depois de
idas e vindas, a opinião predominante era de que o esforço financeiro e de
tempo de restauro (4-5 meses) talvez não compensasse. Mas, convencida do
contrário, a filha mais nova optou por um ato de preservação da memória do Pai
e de aposta no futuro.
O processo de restauro é lento e
meticuloso. O luthier se revelou a pessoa certa na hora certa. Passados meses
de trabalho incansável, eis que o violino foi transmutado em presente de Natal
para a neta aprendiz de violino, hoje com oito anos. Se ela vai, ou não,
praticar no instrumento do bisavô, ainda é cedo para afirmar. Certo é que
recuperar o velho violino comoveu a família. Se nossos amores se vão, de algum
modo, o legado das coisas que ficam é um talismã para os dias que virão. Feliz
Ano Novo!
(*) Professora do
Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/12/25. Opinião. p.16.

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