quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O RACIOCÍNIO CLÍNICO E A MÁQUINA

Por José Lima de Carvalho Rocha (*)

A Inteligência Artificial (IA) pode analisar sintomas, sugerir diagnósticos, propor exames e organizar informações em poucos segundos. Para o estudante de medicina, essa rapidez é atraente, mas oculta um perigo: uma resposta bem elaborada pode parecer correta mesmo quando não está.

Na formação médica, o uso inadequado da IA pode acarretar três efeitos: o estudante pode deixar de desenvolver competências, ao delegar cedo demais o raciocínio; perder competências já adquiridas por falta de exercício; ou aprender de modo inadequado ao aceitar respostas incorretas sem questioná-las.

Em todos os casos, surge um perigo: parecer competente com a ajuda da IA, mas não conseguir decidir sozinho. Assim, há um paradoxo: quanto mais eficiente a tecnologia, maior a tendência de confiar nela e delegar decisões; quanto maior essa dependência, maior o risco de enfraquecer justamente as habilidades necessárias para perceber quando a máquina erra.

A solução não é proibir a tecnologia, mas aprender a usá-la com método: primeiro pensar, depois consultar a IA. Diante de um caso clínico, o estudante deve inicialmente identificar os dados relevantes, formular hipóteses, considerar diagnósticos alternativos e justificar seu raciocínio, para depois comparar suas conclusões com as sugestões da ferramenta.

Se bem utilizada, a IA também enriquece o ensino, pois simula pacientes, apresenta situações clínicas pouco frequentes, oferece feedback e ajuda a identificar lacunas de aprendizagem. O professor pode apresentar respostas plausíveis, porém equivocadas, de IA e pedir ao estudante que identifique o problema, avalie suas consequências e reconstrua a decisão correta.

A avaliação também precisa mudar. Trabalhos escritos, isoladamente, dizem cada vez menos sobre o que o aluno, de fato, sabe fazer. Provas presenciais, discussões de casos e justificativas orais ajudam a verificar se o raciocínio é realmente do estudante. O desafio da educação médica será formar profissionais capazes de pensar sem IA, pensar melhor com ela e, sobretudo, reconhecer quando não devem confiar nela.

(*) Médico e pedagogo. Reitor do Centro Universitário Christus (UniChristus) e diretor do Colégio Christus. Membro da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/08/2026. Opinião. p.18.


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