Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Um mês sem meu pai. Um mês alargado.
Detalhes da nossa convivência voltam a mim sem aviso. Qualquer minúcia da
realidade é capaz de me levar até ele. Um mês alargado pela dor e pela sensação
de viver em vários tempos.
Fecho os olhos e lembro-me dele apertando
as minhas bochechas, que insistiram em permanecer, ou inflando as dele para
imitar as minhas.
Conversando com o meu irmão, soube que o
papai havia escolhido Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, para os líderes da
escola lerem este ano. Lembrei-me de que ele já havia me dado esse livro, assim
como muitos outros, mas sabia que, neste, escrevera uma dedicatória.
"Minha querida filha Ticinha, este livro é um dos meus preferidos.
Espero que este clássico da literatura universal contribua, ainda mais, para o
seu entendimento da vida humana e, sobretudo, para a sua felicidade. Um beijo
carinhoso do seu pai, Oto. 01/07/2015."
Dizem que, em um passeio pelo campo com
Freud, Rilke admirava a beleza da paisagem, mas não conseguia extrair dela
nenhuma alegria. Perturbava-o saber que toda aquela beleza, um dia,
desapareceria. Freud acreditava que a dor antecipada da perda lhe roubava o
prazer da contemplação. Quantos de nós evitamos viver o amor em sua inteireza
com receio de perdê-lo?
Ele me conhecia pelo tom da minha voz. Ao
telefone, percebia minha alegria antes que eu dissesse qualquer
coisa: a voz está ótima!
Quando ele implicava comigo, eu dizia:
"Gaiato!" Ele dava uma gaitada
e respondia: "Folgada chamando o pai de gaiato!" Gargalhávamos juntos.
Ainda não tive coragem de ouvir a sua voz.
Depois que ele partiu, nada do que eu vivia
ficou do mesmo tamanho. As experiências parecem absolutamente modificadas de
tal forma que sinto que estou vivendo muitas primeiras vezes. Meu primeiro
aniversário. O primeiro dia no trabalho. O primeiro dia dos pais.
Tomei banho de mar. Foi uma primeira vez.
Volto ao Pacheco. Meus pés pequeninos estão
grudentos de maresia. Sinto o silêncio. Ouço o barulho do mar. Vejo o papai
deitado no sofá, sem luz artificial. Ele foi muito feliz naquela casa. Estou na
escadaria, com um aperto na garganta. Os olhinhos em direção ao horizonte,
esperando o sol secar meu corpo.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 11/08/2026. Opinião.
p.18.

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