terça-feira, 13 de outubro de 2026

Precisamos reposicionar o debate nacional para além do fiscal

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

A gestão da dívida pública e da política fiscal é essencial para compreender as necessidades de financiamento de um país e avaliar os impactos das decisões governamentais. Impulsionada pela rivalidade geopolítica, a dívida global continua alcançando níveis recordes.

Nesse contexto, formuladores de políticas públicas lutam para gerenciar altos níveis de endividamento em meio a pressões fiscais, custo de empréstimo mais alto, envelhecimento da população e necessidades de refinanciamento.

Sobre o tema, o Instituto de Finanças Internacionais (IIF) publicou o estudo "Reflexões sobre duas décadas de dívida global: Evidências do Monitor de Dívida Global (GDM) do IIF", disponível em: https://www.iif.com/Products/Global-Debt-Monitor. De acordo com o IIF, a dívida global total — incluindo títulos de dívida, empréstimos, moeda e depósitos — ultrapassou US$ 350 trilhões no início de 2026, o equivalente a cerca de 305% do PIB mundial.

No Brasil, o endividamento é relativamente elevado para os padrões de uma economia emergente. Há, contudo, uma característica que reduz sua vulnerabilidade externa: grande parte do problema fiscal é de natureza doméstica.

A dívida interna representa aproximadamente 96,25% do estoque total da Dívida Pública Federal, enquanto a parcela vinculada à moeda estrangeira é relativamente pequena.

Relatório do Fundo Monetário Internacional (FMI), por exemplo, estima em cerca de 4% do PIB a parcela da dívida bruta vinculada a moedas estrangeiras. Os dados do IIF e do FMI indicam que o Brasil não se encontra diante de uma crise externa clássica.

Temos, sim, um grande problema: a rigidez orçamentária, decorrente do elevado peso das despesas obrigatórias e das vinculações. As despesas obrigatórias representam 92% das despesas primárias, restando apenas 8% para despesas discricionárias.

É justamente esse elevado grau de vinculação que o país precisa rever, sobretudo porque entramos em um ciclo de investimentos no chamado HEAD (da sigla em inglês: saúde, segurança nacional, resiliência climática e autonomia estratégica).

Como essas prioridades deverão permanecer no horizonte por muitos anos, as necessidades de financiamento tendem a assumir caráter cada vez mais estrutural.

Isso significa que a dinâmica da dívida pública vai além do ajuste fiscal de curto prazo. Ela deve integrar também estratégias fiscais, industriais e de segurança de longo prazo.

Esse "financiamento estratégico" já se reflete nos balanços governamentais, com maior participação da dívida pública no universo da dívida global.

Por isso, o debate nacional não pode se limitar à ótica do ajuste fiscal. Temos que pautar a discussão sobre o orçamento e o elevado volume de vinculações, que têm amarrado os gastos e investimentos do país, muitas vezes sem receitas correspondentes e sem uma avaliação adequada das políticas públicas.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 20/08/26. Opinião. p.19.


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