quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O CEARÁ E A DINÂMICA DA TRANSFORMAÇÃO

Por José Nelson Bessa Maia (*)

O desenvolvimento consiste em mudança estrutural contínua em sistemas econômicos e sociais. Ele ocorre por meio da superação de desequilíbrios e integração entre inovação tecnológica, adaptação institucional e melhoria na qualidade de vida, exigindo ajustes coordenados entre Estado, mercado e sociedade. Uma combinação difícil de ocorrer conforme destaca a literatura econômica.

Dentre os fatores que geram esse processo virtuoso estão: i) a migração de atividades de baixa produtividade (como agricultura de subsistência e terciário informal) para setores de maior valor agregado (indústria e serviços avançados); ii) a acumulação de capital, com investimentos em infraestrutura física, máquinas e novas tecnologias produtivas e iii) a inovação, que reflete a capacidade local de gerar e absorver conhecimento para elevar a eficiência geral da economia.

Crucial para o desenvolvimento é a capacitação pela elevação dos níveis de educação, saúde e qualificação profissional da força de trabalho, além da melhoria na governança, dada pelo aprimoramento de leis, regulações e instituições que garantam segurança jurídica e transparência. De resto, mas não menos importante, a redistribuição de renda que reduz disparidades, reforça a coesão social, amplia o mercado interno e gera estabilidade política.

Em que pesem as notórias restrições ainda existentes após 40 anos de reformas modernizantes, no Ceará atual respira-se transição acelerada e protagonismo regional. O estado registra crescimento econômico acima da média nacional, impulsionado pela consolidação de uma matriz energética limpa, atração de investimentos globais de alta tecnologia e por descentralização econômica voltada para o interior, inclusive no Sertão Central.

Apesar do ciclo virtuoso atual no Ceará, a dinâmica da transformação enfrenta barreiras críticas, como o clima semiárido, que exige gestão hídrica de precisão para evitar que estiagens travem o avanço da agropecuária, da industrialização e do abastecimento urbano, e a persistente desigualdade, que impede que a riqueza gerada no Complexo do Pecém, na Região Metropolitana de Fortaleza e nos hubs tecnológicos em formação, resulte em rápida redução da pobreza e em melhorias diretas na segurança pública e na renda de toda a população.

O desafio atual que o Ceará enfrenta em sua dinâmica de transformação, além das limitações de unidade subnacional num país de baixo crescimento, é superar a armadilha do crescimento sem mudança de patamar, o que exige converter bons indicadores fiscais, educacionais e de energia renovável em alteração profunda na renda média e no bem-estar da população, com aumento de sua participação para muito além dos parcos 2,1% na economia brasileira. Um desafio que precisa ser de vez enfrentado e superado!

(*) Ex-secretário de Assuntos Internacionais do Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.

Fonte: O Povo, de 22/08/26. Opinião. p.15.


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