terça-feira, 6 de outubro de 2026

A ESPERANÇA EQUILIBRISTA

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Alguém me perguntou, outro dia, o que espero do futuro. Ué! Eu e meu alter ego — essa outra identidade que teima em me acompanhar — esperamos muita poesia, alguma lucidez, uma dose necessária de loucura e, sobretudo, fantasia. Meus caros amigos, sobre esses desejos arrisco aqui alguns rabiscos. Aí vão.

Da lucidez, espero que finalmente compreendamos que nenhuma transformação verdadeira começa nos palácios, gabinetes ou tribunas. Ela começa no comportamento. Na maneira como enxergamos o outro, convivemos com as diferenças e decidimos participar da construção de uma sociedade menos egoísta e mais fraterna.

Por incrível que pareça, talvez este seja justamente o tempo de romper paradigmas. Há momentos em que o desencanto pode ser fértil. Quando velhas certezas desmoronam, abre-se espaço para desconfiar das verdades prontas e inverter a lógica de um passado que tantas vezes fabricou conveniências travestidas de certezas. Quem sabe estejamos assistindo ao início do fim dos falsos profetas?

Da fantasia, espero que o mundo ouse interromper o eterno déjà-vu. A história brasileira parece, às vezes, uma peça em permanente reprise: mudam os figurinos, as falas e os cenários, mas os personagens continuam por ali. Ora irreverentes, ora indignados, noutras ocasiões bonzinhos e convenientes. E há os autoproclamados "intelectuais", sempre preparados para explicar aos outros aquilo que eles próprios pouco compreendem.

Da loucura — porque alguma loucura é indispensável à sanidade — espero que consigamos manter a uma distância razoável os convenientes, os chatos de plantão, os protagonistas da tolice e, principalmente, os hipócritas. Estes atravessam governos, ideologias e gerações com impressionante capacidade de sobrevivência. Trocam de discurso com a mesma desenvoltura com que preservam seus interesses.

E deixo para a poesia aquilo que talvez seja o mais importante.

Que ela nos devolva um samba com bossa, emoção e paixão. Que nos permita acreditar novamente na delicadeza em tempos de brutalidade, na beleza em tempos de vulgaridade e na esperança em tempos de desencanto. Que possamos olhar para este país sem ingenuidade, mas também sem desistência.

Afinal, a esperança brasileira sempre teve algo de equilibrista. Caminha sobre o fio, tropeça, quase cai, recupera-se e continua. Talvez porque tenhamos aprendido, entre quedas e recomeços, que desistir também é uma forma de perder o equilíbrio.

E quem sabe ainda possamos sonhar, como naquela canção, com o Brasil que esperava a volta do irmão do Henfil.

Porque, enquanto houver poesia, ainda haverá um país possível.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/08/2026. Opinião. p.15.


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