Por Carlos Roberto Martins
Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)
Alguém me perguntou, outro dia, o que
espero do futuro. Ué! Eu e meu alter ego — essa outra identidade que teima em
me acompanhar — esperamos muita poesia, alguma lucidez, uma dose necessária de
loucura e, sobretudo, fantasia. Meus caros amigos, sobre esses desejos arrisco
aqui alguns rabiscos. Aí vão.
Da lucidez, espero que finalmente
compreendamos que nenhuma transformação verdadeira começa nos palácios,
gabinetes ou tribunas. Ela começa no comportamento. Na maneira como enxergamos
o outro, convivemos com as diferenças e decidimos participar da construção de
uma sociedade menos egoísta e mais fraterna.
Por incrível que pareça, talvez este seja
justamente o tempo de romper paradigmas. Há momentos em que o desencanto pode
ser fértil. Quando velhas certezas desmoronam, abre-se espaço para desconfiar
das verdades prontas e inverter a lógica de um passado que tantas vezes
fabricou conveniências travestidas de certezas. Quem sabe estejamos assistindo
ao início do fim dos falsos profetas?
Da fantasia, espero que o mundo ouse
interromper o eterno déjà-vu. A história brasileira parece, às vezes, uma peça
em permanente reprise: mudam os figurinos, as falas e os cenários, mas os
personagens continuam por ali. Ora irreverentes, ora indignados, noutras
ocasiões bonzinhos e convenientes. E há os autoproclamados "intelectuais",
sempre preparados para explicar aos outros aquilo que eles próprios pouco
compreendem.
Da loucura — porque alguma loucura é
indispensável à sanidade — espero que consigamos manter a uma distância
razoável os convenientes, os chatos de plantão, os protagonistas da tolice e,
principalmente, os hipócritas. Estes atravessam governos, ideologias e gerações
com impressionante capacidade de sobrevivência. Trocam de discurso com a mesma
desenvoltura com que preservam seus interesses.
E deixo para a poesia aquilo que talvez
seja o mais importante.
Que ela nos devolva um samba com bossa,
emoção e paixão. Que nos permita acreditar novamente na delicadeza em tempos de
brutalidade, na beleza em tempos de vulgaridade e na esperança em tempos de
desencanto. Que possamos olhar para este país sem ingenuidade, mas também sem
desistência.
Afinal, a esperança brasileira sempre teve
algo de equilibrista. Caminha sobre o fio, tropeça, quase cai, recupera-se e
continua. Talvez porque tenhamos aprendido, entre quedas e recomeços, que
desistir também é uma forma de perder o equilíbrio.
E quem sabe ainda possamos sonhar, como
naquela canção, com o Brasil que esperava a volta do irmão do Henfil.
Porque, enquanto houver poesia, ainda
haverá um país possível.
(*) Médico. Professor da UFC.
Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 8/08/2026.
Opinião. p.15.

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