Por Magda Almeida (*)
A queda das coberturas vacinais no Brasil é
um problema grave e merece preocupação. No entanto, reduzir esse fenômeno à
hesitação vacinal ou à suposta resistência da população às vacinas simplifica
excessivamente uma realidade muito mais complexa e pode nos afastar das
soluções necessárias.
É verdade que a circulação de desinformação
e os movimentos antivacina ganharam espaço nos últimos anos e devem ser
enfrentados com firmeza. Mas explicar o fracasso sucessivo das metas vacinais
quase exclusivamente por esse fator produz uma narrativa incompleta, que
transfere o peso do problema apenas para o indivíduo e reduz a responsabilidade
dos gestores e da organização dos serviços de saúde.
O Brasil já foi referência mundial em
vacinação. Não alcançamos coberturas superiores a 90% apenas porque a população
confiava nas vacinas, mas porque existia uma rede capilarizada de Atenção
Primária à Saúde, com agentes comunitários realizando busca ativa, vacinação
nas escolas, campanhas territoriais e equipes capazes de identificar quem
estava ficando para trás.
Hoje, esse cenário é diferente. Em muitos
municípios, há fragilização das equipes, redução da capacidade territorial e
dificuldades operacionais. As salas de vacina nem sempre funcionam em horários
compatíveis com a vida das pessoas, o acesso pode ser burocratizado e ainda se
observa a exigência de carteira física mesmo diante de registros digitais
disponíveis. Pequenas barreiras, somadas, tornam-se obstáculos reais.
Há ainda uma mudança demográfica
importante: o Brasil envelheceu. Parte significativa do público-alvo das
campanhas é formada por idosos com dificuldades de mobilidade, dependência
familiar ou limitações para chegar até as unidades de saúde. Para muitos, não
basta a vacina estar disponível no posto, é preciso que o sistema consiga
chegar até eles, por meio de vacinação domiciliar, apoio das equipes e atuação
dos agentes comunitários de saúde.
Também é preciso olhar para as diferenças
regionais. No Nordeste, por exemplo, a sazonalidade da influenza ocorre mais
cedo. Quando a vacina chega tardiamente, parte da população já adoeceu ou está
em plena circulação do vírus.
A pergunta central, portanto, não deveria
ser apenas "por que as pessoas não se vacinam?", mas também "por
que o sistema não conseguiu alcançá-las?". Recuperar coberturas vacinais
exige enfrentar a desinformação, sim, mas, sobretudo, fortalecer a Atenção
Primária, ampliar acesso e reconstruir capacidades que levaram décadas para
serem consolidadas e pouco tempo para serem desconfiguradas.
(*) Médica de
Família e Comunidade. Professora da Famed/UFC. Gestora pública.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/06/2025.
Opinião. p.19.

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