quarta-feira, 27 de maio de 2026

Autocuidado e liberdade radical são carne e unha para uma ótima velhice

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Minha amiga Rita me ligou de São Paulo cobrando o artigo que prometi escrever sobre a população velha — aquela não bem-dotada de saberes e recursos para o bem-viver. Disse, mais uma vez, que eu romantizo a velhice, como se os velhos não sofressem e bastasse querer para serem felizes. "E não é bem assim", resmungou.

Hoje, sem ela por perto, mas tentando acalmá-la e entrando na "real" que ela cobra, digo: os velhos no Brasil vivem, sim, o desamparo. Como lembra Alexandre Kalache: "Envelhecer não é tão fácil não". E não é mesmo. Os dissabores da velhice exigem políticas públicas claras e eficazes.

Se volto à história, vejo que, desde o Brasil Colônia, os cuidados com os velhos ficaram muito mais nas mãos da caridade — Santas Casas de Misericórdia e famílias — do que sob o dever social do Estado.

Como mostra Mary del Priore em História da Velhice no Brasil, o envelhecer, por muito tempo, foi vivido à margem de direitos, sustentado mais pela compaixão do que por políticas bem estruturadas. Esse modelo desembocou nos asilos do início do século passado, ainda sob a lógica assistencial.

Foi com a Constituição de 1988 que a proteção à velhice ganhou status de direito. Vieram, depois, a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, a Política Nacional da Pessoa Idosa e o Estatuto da Pessoa Idosa. Em tese, deixamos de ser objetos de cuidado para nos tornarmos sujeitos de direitos.

Mas que direitos são esses, Rita, se as calçadas daqui seguem como pistas de trekking impossíveis a velhos? Se espaços públicos — como a nossa Beira-Mar, construída com pistas exclusivas para pedestres — são tomados inescrupulosamente por bicicletas, skates e patins, com seus proprietários deslizando a altas velocidades e colocando em risco quem apenas quer caminhar? Esse descaso tem nome: idadismo institucional disfarçado.

Diante desse cenário, para amenizá-lo, trago o que considero o ponto mais "top" do envelhecer hoje: a política pessoal.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/04/2026. Ciência & Saúde. p.16.

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