Por
Izabel Gurgel (*)
Picolé de Jardim, embalado em papel Riacho.
Desmancha-se no céu da boca a poesia geladinha. Jardim é um dos municípios do
Cariri cearense. O picolé, uma das joias do Ceará. Cajá, castanha, tapioca,
tamarindo. E mais sabores.
Wolga é refrigerante feito em Ipu. A
memória registrou como Volga, o nome do rio. A etimologia, "do
proto-eslavo", dá em "umidade, estado de molhado". Vi no site
Origem da Palavra.
Ao ver Wolga, com "w" e não
"v", pensei no café Wal-Can, de Waldemar Cavalcante, salvo um deslize
outro da memória.
Em Juazeiro do Norte, a padaria Santa
Liduina faz a bolacha Melindrosa, sequinha, quebra fácil à primeira mordida,
com percussão. Tem uma Santa Liduina pertinho da Matriz de N. Sra. das Dores e
outra na rua Santa Luzia, pertinho do mercado no Centro.
No Dicio, dicionário on line, escolhi três
referências a melindre: "melindre em espanhol é o nome dado a vários tipos
de doces, significando por extensão sutileza, delicadeza"; na culinária, é
um "tipo de bolo de mel"; e "tendência da pessoa que se magoa
com facilidade, especialmente por coisa sem muita importância". Curioso
que a gente quase não usa para dizer homem melindroso. Deu nas melindrosas dos
anos de 1920, virou fantasia de Carnaval. O desenho do vestir, vi em vestido,
agora em 2026, na coleção Chanel. Dona Chanel dizia que buscava para as
mulheres um figurino simples, digamos assim, como o dos homens.
Juazeiro do Norte consagrou a bolacha Lídia
nas celebrações de entronização (e, a cada ano, renovação) do Sagrado Coração
nas residências. O pesquisador Renato Dantas me contou da presença da bolacha,
que levava o nome da filha do dono da panificação, nas mesas das famílias mais
modestas em dias festivos em torno do sagrado coração do Filho.
Canjirão pra mim é sinônimo de
tijolinho/tijolão de castanha da região do Aracati. No mercado de Aracati,
soube há anos do "melhor canjirão" feito em forno a lenha. Vinha no
Fortim. O cheiro do fogo na madeira preservado no sabor. Vi na semana coroada
pelo jogo e torcida da Argentina um canjirão com rótulo dizendo da origem em
Morada Nova.
Por falar em Argentina, Ceará é também uma
delícia em doce de leite. De tantos modos quanto são as mãos que tocam o
serviço. A mensal Feira da Reforma Agrária em Fortaleza, no Centro Frei
Humberto, no bairro São João do Tauape, tem doce de leite de várias
procedências. O último que levei pra casa não veio de lá, mas da banca de caldo
de cana na estrada de Canindé, à esquerda de quem acaba de sair da estrada que
vem de Maranguape. Sem rótulo, o bem cozido leite com açúcar é de Paramoti.
Volto à região do Aracati levada pelo
cheiro da cozinha de Toinho Correia, do Cumbe, Toinho da Tenda do Cumbe que
honrou as dunas e a paisagem de Canoa Quebrada com maravilhas como o bife da
vovó (empanado) e o atolado de caranguejo, um risoto que viajava para festas
sob encomenda e reinava onde quer que fosse servido. Patinhas empanadas
estampam a travessa como jogadores de futebol, cheios de apetite por jogo,
bordam o campo. Toinho é um craque nos doces. O de leite criou devoção. E me
faz lembrar o de Dona Clarice, no Canindé do Peixe do Tião. Pra pirar, tem
pirão. À beira do açude.
Sangrando corações das papilas gustativas.
Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 19/07/26. Vida & Arte, p.2.

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