terça-feira, 25 de agosto de 2026

Ler os cearás com água na boca

Por Izabel Gurgel (*)

Picolé de Jardim, embalado em papel Riacho. Desmancha-se no céu da boca a poesia geladinha. Jardim é um dos municípios do Cariri cearense. O picolé, uma das joias do Ceará. Cajá, castanha, tapioca, tamarindo. E mais sabores.

Wolga é refrigerante feito em Ipu. A memória registrou como Volga, o nome do rio. A etimologia, "do proto-eslavo", dá em "umidade, estado de molhado". Vi no site Origem da Palavra.

Ao ver Wolga, com "w" e não "v", pensei no café Wal-Can, de Waldemar Cavalcante, salvo um deslize outro da memória.

Em Juazeiro do Norte, a padaria Santa Liduina faz a bolacha Melindrosa, sequinha, quebra fácil à primeira mordida, com percussão. Tem uma Santa Liduina pertinho da Matriz de N. Sra. das Dores e outra na rua Santa Luzia, pertinho do mercado no Centro.

No Dicio, dicionário on line, escolhi três referências a melindre: "melindre em espanhol é o nome dado a vários tipos de doces, significando por extensão sutileza, delicadeza"; na culinária, é um "tipo de bolo de mel"; e "tendência da pessoa que se magoa com facilidade, especialmente por coisa sem muita importância". Curioso que a gente quase não usa para dizer homem melindroso. Deu nas melindrosas dos anos de 1920, virou fantasia de Carnaval. O desenho do vestir, vi em vestido, agora em 2026, na coleção Chanel. Dona Chanel dizia que buscava para as mulheres um figurino simples, digamos assim, como o dos homens.

Juazeiro do Norte consagrou a bolacha Lídia nas celebrações de entronização (e, a cada ano, renovação) do Sagrado Coração nas residências. O pesquisador Renato Dantas me contou da presença da bolacha, que levava o nome da filha do dono da panificação, nas mesas das famílias mais modestas em dias festivos em torno do sagrado coração do Filho.

Canjirão pra mim é sinônimo de tijolinho/tijolão de castanha da região do Aracati. No mercado de Aracati, soube há anos do "melhor canjirão" feito em forno a lenha. Vinha no Fortim. O cheiro do fogo na madeira preservado no sabor. Vi na semana coroada pelo jogo e torcida da Argentina um canjirão com rótulo dizendo da origem em Morada Nova.

Por falar em Argentina, Ceará é também uma delícia em doce de leite. De tantos modos quanto são as mãos que tocam o serviço. A mensal Feira da Reforma Agrária em Fortaleza, no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, tem doce de leite de várias procedências. O último que levei pra casa não veio de lá, mas da banca de caldo de cana na estrada de Canindé, à esquerda de quem acaba de sair da estrada que vem de Maranguape. Sem rótulo, o bem cozido leite com açúcar é de Paramoti.

Volto à região do Aracati levada pelo cheiro da cozinha de Toinho Correia, do Cumbe, Toinho da Tenda do Cumbe que honrou as dunas e a paisagem de Canoa Quebrada com maravilhas como o bife da vovó (empanado) e o atolado de caranguejo, um risoto que viajava para festas sob encomenda e reinava onde quer que fosse servido. Patinhas empanadas estampam a travessa como jogadores de futebol, cheios de apetite por jogo, bordam o campo. Toinho é um craque nos doces. O de leite criou devoção. E me faz lembrar o de Dona Clarice, no Canindé do Peixe do Tião. Pra pirar, tem pirão. À beira do açude.

Sangrando corações das papilas gustativas. Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/07/26. Vida & Arte, p.2.


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