Um cará tilápia nos olhos
Diligente,
expedita, sensível, operosa e amiga, Neném de Mocinha disse que faltaria ao
trabalho na próxima semana por motivo, evidentemente, mais que justo. Que deveria
passar por cirurgia oftalmológica de relativa urgência. Que traria atestado
médico; que, se precisássemos, pagaria alguém para lhe substituir nos trabalhos
aqui - dicumê de primeira e arrumação de gabarito da casa.
-
De maneira alguma, Neném! Fique tranquila! Se opere. Só volte quando estive
100%!
-
10 dias afastada, tá?
-
Vá lá! Primeiro a sua saúde!
Eu,
que não sou de bisbilhotar a vida de quem quer que seja, pois confio, inventei
de perguntar que cirurgia era essa à qual Neném seria submetida. E tive uma
surpresa, entre alegre (ela ficaria boa da vista) e cismado (com o procedimento
por mim desconhecido) com a resposta inusitada.
-
Vão botar um cará tilápia nos meus ói!
-
Botar o quê nos olhos, Neném de Mocinha?
-
Um cará tilápia!
-
Com espinha e tudo? - fresquei, achando que ela mesma estivesse brincando.
-
Seu menino, eu não sei dizer direito o que é; só sei que tem um cará tilápia no
meio...
Cheio
de curiosidade, pedi-lhe que contatasse seu médico de olhos, e ele mandasse
áudio, no zap, falando do procedimento. Enfim entendi, ao ouvir a explicação.
-
Dona Francisca Neuza, a senhora fará uma cirurgia de córnea. Para tanto,
utilizarei a pele de tilápia para tratar a ferida, cicatrizando e regenerando o
tecido mais rapidamente. O tiro de baladeira que a senhora levou ano passado do
seu sobrinho foi muito sério...
Mudinho eloquente
Neném
de Mocinha no ônibus lotado. E lá aparece um sujeito com papel na mão pedindo
ajuda. Um mudinho. Pelo menos era o que todo mundo entendia. Ele ia passando
pelo corredor, mostrando o papel, abaixando a cabeça e agradecendo com gestos.
Coletivo inteiro comovido. Neném também. Daí abriu a bolsa, pegou dois reais e
os entregou ao póbi, que sorriu, meneou a cabeça e seguiu recolhendo a
solidariedade dos passageiros.
Pouco
depois, finalzinho da Zé Bastos, chegou o ponto de Neném. Descendo no aperreio
natural do ônibus lotado, ao colocar o pé na calçada, quase caiu - tirou um
fino. Foi quando ouviu, vindo lá de dentro:
-
Dona Maria, muito obrigado pelos dois pau!
Francisca
virou-se imediatamente e respondeu:
-
De nada, colega!
Dando
alguns passos, a diligente amiga pensou, olhou para trás... O ônibus já estava
longe. E o mudinho também. Neném seguiu pra casa com dois reais a menos e uma
dúvida a mais. Até hoje não ela sabe o que foi maior naquele ônibus: a
solidariedade dos passageiros ou o milagre da fala.
Mais da Fala Cearense
Encontro
Jair Morais nas cercanias da Rodoviária e ele me dita essas pérolas do
cearensês que tenho pesquisado para enfeixar na segunda edição de meu livro:
Botar
catinga (numa coisa) - Azarar, agourar, fazer prenúncio ruim.
(Tá)
só o endereço! - Bem maguim, só o vem-vem.
Se
deitar um pouquinho - Deitar-se por alguns breves instantes. E aí, do outro
lado, o gaiato responde: "Homem, se deite logo todo!"
De
jeito maneira - De modo algum! Negativo!
Fonte: O POVO, de 9/10/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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