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quinta-feira, 9 de abril de 2026

DAS CARNAÚBAS....

Por Mário Mamede (*)

Em primeiro de julho de 2025 foi publicado no jornal O POVO matéria com bastante destaque acerca da morte de 50 Palmeiras na Beira Mar de Fortaleza, numa extensão de aproximadamente 1,6 km. Várias opiniões foram manifestadas por curiosos leigos, turistas, moradores próximos e de administradores da Autarquia de Urbanismo e Paisagismo de Fortaleza - Urbfor.

Dentre os vários palpites e pitacos alguns apontaram que isso ocorreu porque não foram cuidadas adequadamente; faltou adubação e aguação; o sol é muito intenso; a estiagem foi prolongada...

Um botânico da Semace comentou que as mortes pudessem estar relacionadas a Doença do Bronzeamento Letal, causada por um inseto que se alimenta de sua seiva e ocasiona uma contaminação letal para a planta. Outros ainda comentaram dificuldades de transplantar uma planta já de médio porte ou mesmo mudas cultivadas fora do seu habitat em terrenos de baixios no semiárido nordestino.

Devo dizer que já viajei muito pelo Ceará e vi muitas carnaubeiras em convívio coletivo e mesmo, aqui e acolá, isoladamente, mas sempre na região do nosso sertão. Por outro lado, nunca vi uma carnaúba nascida ou plantada por praianos nas franjas do litoral cearense. E não fazem isso simplesmente porque sabem que essas plantas não são praieiras.

Outra reportagem nesse mesmo jornal, em 13 de janeiro recente, com manchete de chamada em primeira página dizia que as finadas carnaubeiras (aquelas da reportagem de Julho do ano passado, lembram?), ainda não tiveram os seus restos mortais retirados e estão à espera do órgão de paisagismo da PMF ou da empresa contratada para que tal faça a limpeza e providencie o plantio de outras carnaúbas logo que as chuvas começarem.

A questão não é chuva de mais ou de menos nem a culpa é do calor do sol. Se assim fosse não teríamos a riqueza de exuberantes coqueirais em nossas praias e nem das colônias de carnaubeiras enfeitando nossos baixios na paisagem do semiárido cearense. A questão é que devemos respeitar a natureza das plantas e as características dos seus lugares de moradia, seus habitats. Repetir o mesmo procedimento errado para chegar a um resultado desejável não é uma boa prática.

Seguramente é mais coerente fazer acertadas escolhas de plantas com copas frondosas, exuberantes, para nos beneficiarem com suas sombras acolhedoras, dos belos ipês e mesmo de árvores frutíferas para enfeitar nossa cidade e deixar que num futuro próximo a moçada se delicie com seus saborosos frutos.

(*) Médico ortopedista.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/03/2026. Opinião. p.18.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2026

Quando a emenda é pior que o soneto

Por Romeu Duarte Junior (*)

Depois de inúmeras horas de debate, de diversas audiências públicas e de várias proposições discutidas entre os vereadores e a comunidade, o Plano Diretor Participativo (PDP), em processo de revisão e atualização, se vê agora ferido de morte como diploma legal em razão do seu atropelamento por um "emendão". Cacifado pelas assinaturas de 34 edis, 33 deles pertencendo ao grupo de apoio do chefe do executivo municipal, fica difícil, para não dizer impossível, que a manobra não tenha sido preparada no círculo que protege o prefeito e com o conhecimento e a anuência deste. Apiedo-me das pessoas e instituições que perderam o seu precioso tempo tentando contribuir para melhorar a Cidade e defendê-la de más práticas. Valendo: o murro na mesa e a alteração de regras.

Em plena COP-30, justo quando são discutidas alternativas ambientais para o planeta, esta nossa sofrida casa, vê-se que o tal "emendão" é composto de propostas que têm como objetivo, da forma mais descarada, retirar o status de preservação de áreas verdes, desmatar setores urbanos frágeis e acrescidos no período de discussão da minuta do plano e construir onde não se deve. A face emblemática dessa articulação é o centro logístico do aeroporto de Fortaleza, cuja construção custará a supressão da Floresta do Cocorote. É claro que um processo de produção de possibilidades de uso e ocupação da terra urbana, com a definição de indicadores urbanísticos e zoneamentos, envolve tensão e disputa. Contudo, como fica o interesse da coletividade? Vai para a lata de lixo?

Fala-se que quem mexe os cordéis nesse teatro de marionetes é o mercado imobiliário e a construção civil, segmentos que desejam que a Cidade seja somente uma folha de papel em branco, a-histórica, sem predicados ambientais e à mercê dos seus desígnios. Mecanismos criados na base da sorrelfa e à socapa, tais como a tal "transição flexível", viabilizam a construção de obras que seriam simplesmente proibidas se fosse mantida a redação original do PDP. Ao ver de muitos, o "emendão" elimina as Zonas de Preservação Ambiental (ZPAs), as Zonas de Patrimônio Cultural (ZPCs), as Áreas de Relevante Interesse Cultural (ARICs) e as Zonas Especiais de Interesse Social (Zeis), dando banana para a garantia da justiça socioambiental e a reverência à memória e à natureza.

Parece que mais uma vez, por motivo da ação dos podres poderes, perderemos uma excelente oportunidade de elaborar a lei maior da Cidade de forma equilibrada e justa, na qual prevaleça a vontade da maioria, principalmente a das faixas mais humildes da população, e não somente os projetos de quem quer investir e ganhar dinheiro no espaço urbano. Como dizia a minha saudosa mãezinha, caixão de defunto não tem gaveta. Até quando ficaremos reféns da ganância e do arbítrio? Fortaleza, que no ano vindouro, completa 300 anos de vida, caminha celeremente para os 3 milhões de habitantes sem contar com uma infraestrutura urbana que atenda às suas demandas. Nossa Capital não é apenas o Meireles e a Aldeota. Enquanto isso, ela sussurra: "Decifra-me ou devoro-te...".

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/11/25. Vida & Arte. p.2.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Ecos da COP 30

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A COP 30 representou um marco no diálogo mundial sobre o clima. Nela estiveram presentes líderes mundiais, jovens estudantes e toda sorte de movimentos e participantes em favor de causas associadas à biodiversidade, sustentabilidade, preservação de florestas, dentre outras.

O megaevento foi vitrine de destaque para o Brasil e a Amazônia, onde até o final da conferência o governo federal havia custeado $787 milhões. Houve insatisfações diversas com a falta de avanços em relação às metas globais do Acordo de Paris, à redução de emissão de gases de efeito estufa, sem esquecer problemas de infraestrutura. Até fogo no pavilhão da ONU e um final pleno de controvérsias foram destaque.

Algumas ausências chamaram atenção em meio ao festivo cenário. Uma delas foi um debate amplo sobre o papel da educação em cenários de mudança climática. O MEC e o UNICEF marcaram presença tímida no evento e a mídia não focalizou o assunto. Uma pesquisa em jornal de circulação nacional revelou que de 2.662 resultados sobre o tema "COP30", nenhum abordou a educação. O que explicaria tal silêncio?

Ora, sabe-se que uma forma de mudar a atitude perante toda e qualquer situação requer conscientização acerca de problemas e desafios. A escola é um palco privilegiado para, através da educação ambiental crítica, formar cidadãos cientes e dispostos a agir e intervir de forma positiva no enfrentamento dos desafios climáticos e da preservação da natureza. A participação das famílias e da comunidade escolar tem importante papel neste cenário. Exemplos no mundo e no país mostram a importância de escolas verdes para uma vida melhor no planeta.

Se jovens e autoridades foram ouvidos na COP 30, protagonistas importantes foram esquecidos. Os professores, sob cuja responsabilidade estão as ações em defesa do ambiente no âmbito escolar, têm importante papel na mitigação dos efeitos do clima. Os ecos da COP 30 fazem pensar. É preciso rever e fazer avançar este debate.

O documento "O impacto das mudanças climáticas na educação: iniciando um debate" (Todos pela Educação. D3E. 2024) aponta um caminho.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/12/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 2 de dezembro de 2025

COP 30: problemas globais e soluções locais

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Aproxima-se a COP30, conferência da ONU sobre mudanças climáticas, a se realizar em Belém (PA). Milhares de pessoas das mais diversas origens institucionais deverão participar deste megaevento. Metas globais não cumpridas, acordos sem perspectivas de futuro são alguns dos problemas que podem surgir nesse festivo cenário. Soluções globais são importantes. Para além das agendas internacionais, contudo, é oportuno enxergar outros movimentos.

A margem do burburinho, é animador reconhecer o crescimento de ações individuais e coletivas de mitigação dos efeitos da degradação ambiental. Há iniciativas emblemáticas do poder de inovações simples em curso.

A ação cidadã de Hélio da Silva conquistou atenção nacional por ter plantado mais de 40 mil árvores em praças e parques de São Paulo. Mais longe, na caatinga pernambucana, o povo indígena Xukuru do Orubá tem feito algo similar, mediante o plantio de milhares de mudas nativas em áreas degradadas. Em meio a um ambiente cercado de cimento armado, também em São Paulo, pequenas florestas são cultivadas em escolas da rede pública, abrigando crianças em sua sombra.

Esses e outros exemplos revelam o potencial de soluções locais para o enfrentamento de desafios globais. Sobre o tema vale conferir o documento "O impacto das mudanças climáticas na educação: iniciando um debate" (VIEIRA, D3E. Todos pela Educação, 2024).

Nas mais diferentes esferas da vida, mudanças que partem de iniciativas dos próprios cidadãos reservam a esperança de dias melhores para o planeta. Nesse contexto, a educação ambiental crítica é alternativa fecunda ao enfrentamento dos desafios do clima. A escola pode ser lugar de cultivar uma lógica de respeito e preservação da natureza.

Em lugar de querer ensinar, é preciso aprender com lições concretas existentes que passam praticamente despercebidas em eventos de massa como a COP30. Em Belém, do outro lado do rio, na Ilha de Combu, vale conhecer o exemplo da Escola Municipal do Campo Milton Monte. Nesta escola ribeirinha, como em tantas outras espalhadas pela Amazônia, se ensinam coisas que o mundo precisa aprender.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/11/25. Opinião. p.22.


terça-feira, 25 de novembro de 2025

PLANO DIRETOR PARTICIPATIVO E SUSTENTÁVEL

Por Artur Bruno (*)

Nesta semana, de 24 a 26 de outubro, Fortaleza está se reunindo na Conferência da Cidade do Plano Diretor para discutir, sugerir e votar os artigos da minuta de lei que guiará os próximos capítulos de sua história. O documento que será apreciado pelos delegados eleitos ou indicados é resultado de um amplo processo de escuta da sociedade, aliado a um rigoroso trabalho técnico.

A redação do Plano Diretor incorporou contribuições de diferentes atividades participativas realizadas ao longo deste ano, como oito audiências públicas e quatro oficinas sobre o Plano. Também foram consideradas discussões construídas junto à sociedade civil realizadas em 2023 e 2024.

Vislumbramos uma Fortaleza mais resiliente, sustentável, inclusiva, justa, segura e preparada para o futuro. Analisamos as áreas de riscos para induzir o crescimento urbano para regiões com infraestrutura adequada, e adotamos o conceito de Cidade Policêntrica, possibilitando que as pessoas gastem menos tempo no deslocamento e tenham mais tempo para viver.

Chegamos até aqui com várias conquistas importantes. Destaco o aumento de 38% da Macrozona do Ambiente Natural em relação ao Plano de 2009, sendo 18% desse total a área mais protegida da cidade, onde não é permitido nenhum tipo de ocupação. Este é o primeiro Plano Diretor de Fortaleza a reconhecer a permanência das Comunidades e Povos Tradicionais, com zoneamento específico.

Avançamos também no zoneamento de Preservação do Patrimônio Cultural, que saltou de quatro para oito zonas, um aumento de 218% em relação ao Plano anterior.

Criamos a Zona Especial de Interesse Social (ZEIS) de Reparação, voltada para a melhoria da infraestrutura em regiões de grandes conjuntos habitacionais já entregues. Aumentamos o número de Zeis de assentamentos do tipo favela, de 45 para 87.

Fortaleza sofreu nos últimos anos pela falta de um Plano Diretor, que deveria ter sido revisto em 2019. Nosso prefeito, Evandro Leitão, foi muito claro ao estabelecer a conclusão desta revisão como prioridade.

Reafirmo: a minuta que será debatida e votada é a materialização de um pacto coletivo em construção. Convidamos todos os delegados a enriquecerem este documento com suas reflexões, rumo a uma Capital de todos.

(*) Historiador e professor. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 25/10/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 4 de novembro de 2025

ENTRE ALTOS E BAIXOS

Por Romeu Duarte Junior (*)

Semaninha trepidante esta que passou. Parafraseando o Paulo Limaverde, um dos meus heróis, a sucessão de acontecimentos se sucede sucessivamente sem cessar e às vezes nos atropela nesta nossa vida desatenta. A velocidade com que os fatos se dão, intensificada pelo bulício das redes sociais, é de deixar qualquer um doido. Os jornais, de escassa alegria, deixam as nossas mãos tintas de sangue. Dia desses, um amigo meu disse que só assistia a seriados e a desenhos animados antigos na sua TV. Disse-lhe que entendia perfeitamente o seu caso, eu que só ouço canções do tempo do ronca. Mas se é isso o que tem para hoje, façamos desses ácidos limões não uma ingênua limonada, mas uma gostosa caipirinha que nos embriague de lucidez. Seria isso pedir muito, Senhor?

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado incinerou por unanimidade a tal PEC da Bandidagem, ops, da Blindagem, que nem precisou ir a plenário. Não fez isso por altruísmo ou espírito democrático e sim por medo da opinião pública, manifestada nas grandes concentrações do último dia 21/09 nas capitais do País. Resta agora o infame projeto da anistia, renomeada de dosimetria, mas que, na verdade, é apenas patifaria, que tem como relator paulinho da força (ou seria da fossa?) e no rol de apoiadores os defuntos políticos temer e aécio never. É algo incrível como a extrema direita insiste em defender inconstitucionalidades para tentar salvar da cadeia criminosos contumazes. Suas investidas são repelidas por boa parte da população, que parece ver quem prejudica e atrapalha o Brasil.

32 hectares da Floresta do Aeroporto desmatados. Prefeitura calada, governo do Estado idem. Ibama surpreso. Depois do fato consumado, Sema e Semace decidem suspender a licença da empresa responsável pelo absurdo. Em 1963, quando vim residir aqui, moramos numa casa no então Adjacento Field, o velho Campo de Aviação situado no interior da Base Aérea. Naquele tempo, as árvores já eram frondosas. Talvez os cearenses não gostem de pés de pau por conta do atávico receio das emboscadas dos indígenas nos tempos coloniais. Contudo, o que causa espécie é a rapidez com que os alemães, donos do aeródromo, estão se transformando em alencarinos, o que é deixado a nu agora com tal espetáculo de dendroclastia. E pensar que entre Frankfurt e o seu aeroporto há um bosque...

Num tiroteio assassino, dois garotos mortos numa escola de Sobral, com mais três feridos. Comoção geral na cidade, no Estado e no País. Assim como queria fazer no congresso, tornando-o seu refém, o crime agora está pretendendo tomar o sacrossanto, risonho e franco espaço escolar, capilarizando-se nas instituições e dominando territórios. Como no vetusto adágio da falta de pão, todos reclamam e ninguém tem razão. Resta-nos comemorar o soberbo discurso do presidente Lula na ONU, uma verdadeira aula de dignidade e soberania, em contraste com os arrotos verbais do chefe do império decadente (que parece que fez o L) e do genocida sionista, que acabou discursando para uma platéia cheia de ninguém. Enquanto isso, em Gaza, há calor, poeira, fome e o brilho de alguma esperança.

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/09/25. Vida & Arte. p.2.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

COP 30 e a Insustentabilidade Turística

Por Dárdano Nunes de Melo (*)

A COP 30 representa um momento único para o Brasil mostrar ao mundo a sua pujança na sustentabilidade, o que além de dar visibilidade, poderá atrair investimentos tendo em vista as metas alcançadas na área climática, na preservação da Amazônia, no multilateralismo e enfim, no desenvolvimento sustentável.

Um encontro desta magnitude, à nível turístico poderia dar ao país um reforço em sua imagem, como perfeita estratégia de marketing, divulgando o Pará, a Amazônia e o Brasil. Como observador do desenvolvimento turístico nacional e analista de suas políticas públicas, afirmo com toda segurança que existe uma elevada discrepância nos avanços alcançados nos segmentos correlatos ao evento em relação ao atraso no setor turístico, tanto no aspecto do planejamento, da promoção, da infraestrutura, da tecnologia, da segurança e principalmente da estratégia operacional.

Por exemplo, enquanto no Agro, cientistas do mais alto gabarito da Embrapa recebem, anos seguidos, premiação tipo Nobel no setor, na Embratur e no Ministério do Turismo o que se vê é uma gestão feita por leigos e despreparados, além de serem órgãos verdadeiros cabides de emprego e de há muito denunciado por corrupção e destituídos de total controle de produtividade por resultados pífios.

Como admitir que um país que tem a maior biodiversidade do planeta, incomparável patrimônio cultural e artificial aparece na humilhante escala da OMT com os piores índices de receptivo? Esta lanterna na estatística do turismo internacional retrata perfeitamente a incapacidade de transformar este precioso recurso em um produto altamente rentável. O turismo representa 12% do PIB mundial e gera quase meio bilhão de empregos diretos e outros bilhões em seu cluster econômico.

O descaso com o turismo é tamanho que as Nações Unidas sugeriram transferir dopara outro lugar, tendo em vista que o Brasil não fez o básico: planejamento (estudo de capacidade de carga, acerto prévio de preços e reservas de hospedagem, serviços de receptivo e segurança, controle e tabelamento da área de alimentação etc.).

O desconhecimento da psicologia social e da antropologia cultural do empresário e de sua falta de ética no Brasil que adota a famosa ¨lei do Gerson¨, blindou a visão de Marina Silva e Celso Sabino que veio apagar o fogo quando e estrago estava feito: Empresas cobrando até 20 vezes mais que o preço de mercado, um absurdo! Colasuonno (1980) disse; ¨Explorem o Turismo não o turista¨.

(*) Academia Cearense de Turismo.

Fonte: O Povo, de 19/08/25. Opinião. p.18.

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

ESG real ou para inglês ver?

Por Lauro Chaves Neto (*)

O desenvolvimento sustentável é aquele que satisfaz as necessidades atuais sem comprometer a capacidade das próximas gerações de atender as suas. Esse conceito foi desenvolvido pela ONU, na década de 70.

Apenas algumas nações praticando a sustentabilidade não é o suficiente. O Setor Produtivo precisa implantar a ética e a transparência na sua governança, cuidar do meio ambiente desde a seleção dos seus fornecedores até a gestão dos resíduos, e cuidar das pessoas, não só de acionistas e colaboradores, assim como atuar pro ativamente na transformação da sociedade.

O ESG (ambiental, social e governança, na sigla em inglês) é a transição da visão macro para a ação microeconômica na promoção da sustentabilidade, pois será a disseminação da cultura ESG que irá transformar em sustentável a nossa sociedade.

O tema ESG já é o foco dos investidores nas suas decisões de financiamento. Avaliar a sustentabilidade e o impacto social de um negócio passou a ser determinante para o valor das empresas.

Algumas práticas, no entanto, são rotuladas de ESG e não conseguem agregar valor ao negócio, já outras, possuem um viés ainda mais danoso, o de se divulgar ações que não possuem conexão com a realidade.

Uma empresa que tenta mostrar que faz, pelo meio ambiente, mais do que aquilo que realmente executa, poderia ser descrito como propaganda enganosa, porém o vocabulário corporativo prefere usar "greenwashing", nesses casos. Já quando são "falsas" informações sobre iniciativas sociais é comum se usar o termo "socialwashing".

Um dos erros que mais se repete é divulgar iniciativas sustentáveis, social ou ambiental, que foram planejadas e ainda não implantadas, ao invés de focar nos resultados efetivos de iniciativas exitosas já implantadas.

Vincular as questões ambientais, sociais e de governança à cadeia de valor da organização é uma estratégia de negócios que irá contribuir para a sustentabilidade da empresa! O oposto do greenwashing e do socialwashing. A Certificação, como por exemplo o Selo ESG da Fiec com auditoria internacional, é uma das melhores alternativas para verificar o propósito.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 19/08/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 2 de setembro de 2025

NÃO À DESCONSTRUÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL

Por Roberto Macêdo (*)

Desde jovem que me preocupam os descasos da humanidade com o meio ambiente.  Tornei-me um ferrenho defensor da natureza e procuro estar atento a ações em favor da conservação do nosso planeta. Por isso fico indignado com fatos como a furtiva aprovação, na madrugada do dia 17/07/2025, do PL nº2159/2021, que institui a Lei Geral do Licenciamento Ambiental; uma legislação propícia a causar impactos negativos na sustentabilidade brasileira.

Alegando a necessidade de modernização, desburocratização, redução de gargalos e previsibilidade na emissão de licença ambiental, os parlamentares que aprovaram essa lei estão, no mínimo, contribuindo para o aumento da judicialização, uma vez que fica permitida às pessoas interessadas a aplicarem a "sua lei" e a fiscalizarem a si próprias, no que se refere aos danos ambientais que poderão causar.

A eficiência do licenciamento ambiental no país precisa mesmo passar por reformas, ser melhorada, mas nunca com esse afrouxamento da legislação aprovada no Congresso Nacional. Além de não resolver os problemas existentes, isso levará a resultados desastrosos. O aprimoramento necessário ao sistema de permissão para atividades potencialmente agressoras da natureza, deveria ser voltado para a agilidade, a transparência e tudo o que possa tornar as liberações menos custosas e mais adequadas à proteção socioambiental.

O que está nesta pauta é a desconstrução da política ambiental brasileira. Essa aprovação do PL de Licenciamento Ambiental revela uma dissonância entre o pretexto de criação de uma legislação federal unificada e a intenção desses parlamentares e suas agendas próprias. Nesses casos, a natureza acaba sendo utilizada como arma política por uma parte do Congresso Nacional.

Não podemos nos deixar ser absorvidos somente pelas notícias geradas pelo mundo das guerras ou do tarifaço, temos que deixar um espaço mental de compromisso claro e permanente com relação ao nosso planeta e mais ainda ao nosso país, em especial o conhecimento e o posicionamento sobre esse licenciamento e seus efeitos na natureza, no clima e em nossas vidas.

(*) Empresário.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/08/25. Opinião, p.16.

quarta-feira, 23 de julho de 2025

DESCARBONIZAÇÃO DA ECONOMIA BRASILEIRA

Por Lauro Chaves Neto (*)

O Brasil tem enormes vantagens no esforço global de descarbonizar a economia quando comparado a outros países. Água abundante, custo baixo e alta participação da energia renovável na matriz energética, bem como as reservas nacionais de lítio, cobre, níquel e ferro. Assim, os custos de transição energética são menores aqui.

O problema é que esses diferenciais competitivos não se converterão realidade sem que o país modernize o seu sistema tributário e a sua infraestrutura, construindo novas linhas de transmissão e modernizando portos, entre algumas das prioridades. Isso feito, biocombustíveis, como etanol e hidrogênio verde vão ganhar mais destaque.

Até o mercado de carbono brasileiro ser regulamentado, o Brasil conta apenas com o mercado voluntário, no qual empresas buscam compensar emissões de poluentes comprando créditos de carbono mesmo quando não são obrigadas. Um crédito representa a retirada de uma tonelada de dióxido de carbono equivalente (tCO2e) -ou seja, uma tonelada de GEE- da atmosfera.

No Brasil, aproximadamente 500 empresas relatam voluntariamente as suas emissões de carbono, estima-se que o mercado a ser regulado envolva 5.000 empresas. Segundo a lei, empresas cuja operação emita mais de 25 mil tCO2e por ano deverão manter as emissões anuais dentro da quantidade de cotas concedidas pelo plano nacional de alocação. Sendo que o foco deve ser o de descarbonizar cadeias de valor, e não apenas empresas.

A proteção das florestas e o potencial de restauração das áreas já destruídas são duas atividades que podem gerar créditos de carbono, uma porque evita emissões e outra sequestra CO2 da atmosfera. A demanda global por minerais para aplicação em energia limpa dobrará até 2040, segundo estimativa da Agência Internacional de Energia, entidade ligada à OCDE.

A Lei do Combustível do Futuro já prevê maior participação do etanol e do biometano nas misturas na gasolina e no gás natural, respectivamente. O hidrogênio verde ganhou destaque e, deve ser ressaltada a oportunidade com a atração de datacenters, aproveitando o excesso de oferta de energia renovável no Brasil.

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 23/06/25. Opinião. p.20.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2025

MUDANÇAS CLIMÁTICAS E EDUCAÇÃO: iniciando um debate

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Conforme esperado, Donald Trump, uma vez empossado, retirou novamente os Estados Unidos do Acordo de Paris e de compromissos relativos à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Má notícia para o mundo, que se vê na urgência de enfrentar os desafios decorrentes das múltiplas faces da crise ambiental. O debate sobre o tema ainda é incipiente no Brasil, de modo particular, no campo da educação.

Cientes da urgência de ampliar o diálogo a respeito da matéria, nos últimos dois anos, instituições internacionais (Unesco, 2023 e 2024; OCDE, 2024; e Banco Mundial, para citar alguns) têm produzido estudos sobre o tema.

Empenhadas em disseminar tal conhecimento, organizações da sociedade civil — movimento Todos pela Educação, Banco Master, Instituto Terra Firme e D3e — se associaram para traduzir e sintetizar tais documentos, examinando a pertinência de tal argumentação para o país. O esforço resultou em uma nota técnica disponível online (Ver: d3e.com.br), assinada por mim, que começa a ser disseminada no país.

Ao suscitar a reflexão, esses atores estratégicos visam motivar os responsáveis pela formulação de políticas públicas, tanto os governos (federal, estaduais e municipais) como o poder Legislativo. A intenção é discutir e encaminhar soluções para os problemas associados às emergências ambientais e seus efeitos sobre o acesso, a permanência e a aprendizagem de crianças e jovens na escola.

Tal esforço, porém, será inútil se ficar circunscrito a ministérios, secretarias e gabinetes parlamentares. Requer um movimento deliberado de inserção e adesão da sociedade civil de se apropriar da discussão para definir um grande pacto nacional de enfrentamento dos desastres naturais e em busca de soluções sustentáveis para equacionar problemas decorrentes.

A escola pode vir a ter um papel importante nesse cenário. Disposta a inovar e criar, com apoio financeiro doa poderes público e privado, saberá incluir em seu projeto político-pedagógico ações que contribuam para a formação de cidadãos conscientes e críticos em relação às mudanças climáticas e problemas correlatos.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 27/01/25. Opinião. p.20.


terça-feira, 28 de janeiro de 2025

O LUCRO DESTRÓI A VIDA

Por Saraiva Junior (*)

Fui à loja de rações para comprar o milho das galinhas do meu quintal. Entabulava conversa com o proprietário do estabelecimento sobre o calor, as queimadas, em geral criminosas, que ocorriam na região e o processo de desertificação que avança na caatinga. Tudo isso é bobagem, meteu-se a dizer um representante do agronegócio local que por acaso ali se encontrava, a poucos metros, e até então por mim passara despercebido.

Não me fiz de rogado e disse-lhe que, junto aos enormes incêndios florestais vinham as secas, as colheitas perdidas, as várias espécies de animais ameaçadas em suas existências, além dos rios desaparecidos pelos quatro cantos do planeta. O homem logo retrucou que bastava uma chuvinha dessas que caiu no Rio Grande do Sul para reflorestar a terra. Argumentação no estilo trumpista. E nada de atentar para as inundações como um dos efeitos reversos do desmatamento.

Tentei despertar a memória em torno do fim da produção algodoeira no Nordeste, que deu-se muito por conta dos incêndios na nossa caatinga, cujos solos foram perdendo os principais nutrientes. Ele respondeu que o fim do ciclo do algodão foi devido ao “bicudo”, introduzido pelos americanos com medo da concorrência no comércio com os países europeus. A política do Bolsa Família fez com que o povo trabalhador ficasse preguiçoso, acrescentou.

Quando lhe expliquei que estávamos prestes a viver grandes catástrofes em razão do aquecimento global, com o derretimento das calotas polares e a elevação do nível do mar, que bastava subir um ou dois metros para inundar boa parte das principais cidades costeiras, com arrogância ele me perguntou se eu estava conferindo diariamente a subida do nível do mar em Fortaleza.

As pesquisas científicas apontam para os riscos da exploração desenfreada dos recursos naturais, que são finitos. No entanto, o sistema capitalista segue funcionando para o fim da jornada de vida no planeta, pois o lucro é egoísta. A sede de lucro parece não dar brecha para a compreensão, por isso o negacionismo impera. Se ainda há tempo de encontrar uma saída, essa será pelas vias da educação voltada para o meio ambiente, junto às gerações mais novas.

(*) Escritor e ex-conselheiro do Conselho de Leitores de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 18/12/24. Opinião. p.20.


segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

ESCOLAS VERDES: uma agenda para unir a cidade

As mudanças climáticas estão no centro das preocupações mundiais. O Brasil, atingido por cataclismas diversos neste ano de 2024 — enchentes no Rio Grande do Sul, incêndios em todo o país, seca nos rios da Amazônia — não pode fugir a este debate e enfrentamento. O que estamos fazendo para reverter os efeitos deletérios de tais processos sobre a vida humana para além de iniciativas pontuais?

O tema pouco frequentou os debates entre candidatos às prefeituras e raramente apareceu nas propostas de aspirantes a vereadores. Exceção à regra, Gabriel Biologia, um dos mais bens votados vereadores em Fortaleza, foi destaque nacional por sua pauta ambiental e singelos santinhos em folhas de oiticica. Vê-lo nos sinais de trânsito durante a campanha, megafone em punho, foi um alento em meio às trocas de acusações e outras farpas que marcaram esse momento no país.

Problema urgente, que requer tratamento prioritário dos governos e da sociedade, os impactos das mudanças climáticas na educação e o que fazer a respeito, têm sido objeto de estudos recentes de agências internacionais como a Unesco (2023), a OCDE (2021 e 2024) e o Banco Mundial (2024). Em meio a tais reflexões, chama atenção a proposta da Unesco de "tornar cada ambiente de aprendizagem mais verde", mediante a adoção de um padrão Escola Verde em pelo menos 50% das escolas de cada país até 2030.

Estamos diante de uma janela de oportunidades que pode se fechar muito em breve. É hora de agir. Muitas lições de iniciativas inovadoras podem nos inspirar, a exemplo do projeto de criação de bosques escolares na cidade de São Paulo, com feliz engajamento de professores e estudantes, promovido pela organização Formigas de Embaúba.

O plano de governo do prefeito eleito em Fortaleza, Evandro Leitão contempla um "programa de gestão ambiental participativa e requalificação dos parques urbanos, aumentando a cobertura vegetal da Cidade" (O POVO, 29/10/2024). Que tal incluir nesta agenda as unidades da rede municipal de Fortaleza e dar um exemplo de escolas sustentáveis e verdes para o mundo? Que me perdoem os descrentes, mas sonhar é fundamental!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/11/24. Opinião. p.20.

terça-feira, 12 de novembro de 2024

ESPAÇO DA LEITURA PIO RODRIGUES NETO

Por Paulo Gurgel Carlos da Silva (*)

A leitura é um exercício que estimula a percepção e aguça a criatividade, e pensando nos benefícios que esta atividade pode proporcionar para as pessoas, a Secretaria do Meio Ambiente e Mudança do Clima (Sema), inaugurou, neste domingo (10/11/24), o Espaço da Leitura Pio Rodrigues Neto, no Parque Estadual do Cocó.

O local é uma homenagem ao ambientalista, empresário e membro do Conselho Gestor da Unidade de Conservação (UC) estadual, que em 2017, promoveu o plantio de 40 mil árvores nativas às margens do rio Cocó e em áreas específicas do Parque, em celebração aos 40 anos da C. Rolim Engenharia, empresa que Pio Rodrigues Neto à época dirigia. Ele também é celebrado por suas obras literárias e por seu compromisso com a preservação ambiental.

A cerimônia de inauguração contou com a presença da titular da Sema, Vilma Freire; do secretário executivo, Fernando Bezerra; do homenageado e seus familiares. Além de frequentadores do Parque e cidadãos engajados com a causa ambiental.

Durante a inauguração, o homenageado, que também possui o título de "Amigo do Cocó", fez um discurso emocionado. “Eu não tenho nenhuma dúvida que plantar árvores faz parte da minha missão e eu fico extremadamente feliz com esta honraria de ter meu nome preservado, aqui no parque, recebo isso com o coração cheio de gratidão, mas isso também me serve de forte incentivo para continuar trabalhando. Eu acho que é uma missão cidadã, é uma missão de um ser humano que entende um pouco essa necessidade do verde em Fortaleza”, declarou Pio Rodrigues Neto.

http://www.sema.ce.gov.br

Na segunda-feira (11/11/24), fui ao Parque do Cocó para conhecer esta iniciativa, tendo deixado para o acervo do Espaço de Leitura um exemplar do livro "Edição Êxtase", de minha autoria.

(*) Médico pneumologista, escritor e blogueiro.

Postado por Paulo Gurgel no Blog Linha do Tempo em 12/11/2024.

https://gurgel-carlos.blogspot.com/2024/11/espaco-da-leitura-pio-rodrigues-neto.html


segunda-feira, 14 de outubro de 2024

TERRA EM CHAMAS: mudanças climáticas e educação

Por Sofia Lerche Vieira (*)

Há semanas focos de incêndios se alastram pelo Brasil. Em cenário apocalíptico, depois das chuvas torrenciais e das enchentes, vem o fogo. As matérias da semana falam por si: "Pantanal pode deixar de existir até fim do século, diz Marina Silva"; "Crise climática afeta área de logística do Brasil, e empresas relatam perdas com prejuízo milionário"; "Governo do Acre suspende aulas em razão da intensidade da fumaça de queimadas"... O clamor por medidas que salvem o planeta requer políticas ambientais de âmbito global, nacional e local e um esforço coletivo que envolva os governos e a sociedade civil.

As mudanças climáticas que vem devastando o planeta afetam a economia e causam danos irreparáveis à vida nos mais diversos contextos. Representam, ainda, uma das principais causas dos fluxos migratórios que levam milhares de pessoas a deixar seu habitat natural em busca de sobrevivência em condições menos adversas.

Os problemas associados a tal situação afetam de modo drástico crianças e jovens em idade escolar, subtraindo-lhes o direito à educação. Além do estresse contínuo, a suspensão de aulas e fechamento de escolas, gera absenteísmo docente e discente, sendo motivo de fracasso escolar. O calor acima da média, por sua vez, também causa danos à aprendizagem.

Não por acaso, diante de situação tão adversa, organismos internacionais (Banco Mundial, BID, OCDE, UNESCO e Unicef) vêm produzindo estudos sobre o nefasto efeito das mudanças climáticas na educação, buscando identificar alternativas para mitigar tais problemas. As crises do clima são motivadas por variáveis externas às escolas, estas, porém, são ambientes propícios à compreensão e à ação sobre o tema. Além de "aprender a conhecer" as mudanças climáticas, é preciso buscar soluções inovadoras e politicamente responsáveis para a criação de uma consciência ecológica visando a preservação da fauna e da flora e a sustentabilidade da vida no planeta. Verdejar as escolas começa com pequenos passos. Aqui, um jardim; ali, uma horta; acolá um bosque e/ ou um pomar. Essas e outras iniciativas demandam foco das políticas públicas.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 9/09/24. Opinião. p.18.


terça-feira, 16 de julho de 2024

Era uma vez um jardim que se chamava Terra

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A reflexão sobre a crise do clima faz evocar a voz suave de Nara Leão, musa da bossa nova que tão cedo partiu, cantarolando "Era uma vez um jardim que se chamava Terra. Como fruto maduro brilhava ao sol". Os versos dessa canção, concebida para sensibilizar crianças que viviam entre o asfalto e o cimento armado, parecem ganhar especial sentido diante das sucessivas revoltas da natureza contra os desmandos humanos.

Ao percorrer os seis biomas brasileiros na Expedição Escolas do Brasil (https://www.uece.br/eduece/wp-content/uploads/sites/88/2023/09/Expedição-Escolas-do-Brasil-1.pdf), pouco antes da pandemia, um grupo de pesquisadoras de universidades brasileiras constatou o baixo grau de envolvimento das escolas com questões de meio ambiente e sustentabilidade. Tal problema se tornou mais evidente nos últimos anos. Passamos a viver em um planeta em transe devido a enchentes, incêndios e cataclismas os mais diversos. O que antes eram exceções climáticas incorporou-se ao cotidiano da maioria das pessoas nos mais diferentes territórios. E se esta crise atinge a todos, por certo, é ainda mais dura para os mais vulneráveis.

Tal lacuna tem motivações diversas que extrapolam o espaço dessa reflexão. Todavia uma de suas causas é expressão da escassa preocupação social e econômica com este elemento crucial do processo de formação para a cidadania, aí incluindo formuladores e implementadores de políticas públicas em educação. Uma análise das orientações curriculares que estabelecem parâmetros para a educação no país - a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) - evidencia que este é um tema praticamente ausente do currículo. Do mesmo modo, a União, os Estados e os Municípios possuem pouquíssimas iniciativas sob a forma de programas e projetos com foco ambiental. Isto precisa mudar.

Em um contexto de urgente e necessária preservação e restauro do meio ambiente, a conscientização de crianças, jovens e adultos estudantes pode vir a desempenhar papel crucial. Eles não merecem conviver com um planeta em transe. Por eles vale a pena lutar por um jardim que se chame Terra.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 17/06/24. Opinião. p.20.

quinta-feira, 11 de julho de 2024

Os impostos ambientais ajudarão a mitigar as alterações climáticas?

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

No final da década de 80, o climatologista da Agência Espacial Americana (NASA), James Hansen fez uma previsão de aquecimento do planeta, que se mostrou extremamente precisa, ou seja, há mais de 35 anos Hansen previu um "choque climático" provocado pelas mudanças nos efeitos humanos, que influenciam o desequilíbrio energético global da terra, também conhecido como "forças radiativas antropogênicas" que, como exemplo, temos o aquecimento adicional da superfície terrestre, por esse processo e? chamado de efeito estufa. Georgescu-Roegen, ainda no início da Década de 70, também constitui outro exemplo de pensador não devidamente reconhecido no seu tempo, que apontou para grande dicotomia entre sistemas econômicos, que são sistemas termodinamicamente abertos, com sistemas ecológicos, que são sistemas fechados, ou seja, a natureza é o limite da economia.

As alterações climáticas e os fenômenos meteorológicos extremos, como estes que vêm acontecendo no Rio Grande do Sul, trazem perdas econômicas e irreparáveis de muitas vidas. Portanto, é necessário procurar ativamente contramedidas de proteção ambiental e de governação climática para enfrentar esses desafios graves, que estão se tornando sequenciais. Enquanto, instrumento de proteção ambiental amplamente utilizado pela Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), espera-se que os impostos ambientais desempenhem um papel importante no combate às alterações climáticas e na redução de fenômenos meteorológicos extremos.

A literatura econômica é farta em demonstrar que a cooperação coletiva e a teoria do duplo dividendo dos impostos ambientais podem mitigar os efeitos das externalidades negativas das crises climáticas. A implementação de mecanismos de tributação ambiental demonstrou a eficiência no papel dos impostos ambientais, com relação a mitigação do processo de alterações climáticas e na redução de fenômenos meteorológicos extremos. Um robusto estudo sobre o tema, publicado na Revista de Análise Econômica e Política (https://encr.pw/2JS4C) demonstrou que, em 36 países testados, que integram a OCDE, os impostos ambientais, no seu conjunto, contribuem para a redução da frequência de temperaturas meteorológicas anormais e desempenham um papel positivo na redução das emissões de dióxido de carbono nos países da OCDE.

Outras pesquisas mostram que o orçamento ambiental e as tecnologias ambientais também desempenham um papel positivo no processo de impostos ambientais para retardar as alterações climáticas e reduzir fenômenos meteorológicos extremos. Por outras palavras, deveríamos atribuir importância ao investimento de fundos de proteção ambiental e à investigação e desenvolvimento de tecnologias de proteção ambiental, ao mesmo tempo, que aplicamos impostos ambientais.

Como não temos soluções simplistas e resolutivas no curto prazo para problemas complexos, temos atualmente a solidariedade do povo brasileiro, o povo da República Federativa do Brasil para com a República Riograndense (frase inscrita na bandeira do Rio Grande do Sul), que tem se irmanado para mitigar os efeitos danosos que passa o valoroso povo gaúcho.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 16/05/24. Opinião. p.19.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

LIÇÕES NÃO ASSIMILADAS

Por Tales de Sá Cavalcante (*)

O saudoso e genial educador cearense Lauro de Oliveira Lima contava que ensinara o seu cachorro a falar. Curiosos iam a sua casa para ver o cão fenômeno. Ele pedia várias vezes ao cachorro que lhes dissesse boa noite. Mas o animal permanecia mudo. Lauro, então, saía-se com esta: "Ensinar eu ensinei. Mas foi ele que não aprendeu."

Na web, Evaristo de Miranda postou o seguinte texto, atribuído ao meteorologista Carlos Magno: "Ao fugir da fome na Europa, em meados do século XIX, Herr Blumenau recebeu duas orientações: rumar ao Brasil, onde já havia outros imigrantes alemães, e tomar cuidado com os indígenas do Vale do Itajaí-Açu, 'muito violentos'. Chegou em setembro de 1850, subiu o rio com cuidado.

Os indígenas habitavam num platô. Ele se estabeleceu na margem oposta, com 17 companheiros e famílias. Plantaram, colheram, sempre monitorando os indígenas. Passaram dois anos e eles não atacaram [...] Herr resolveu visitar a tribo. [...] O cacique recebeu aqueles brancos louros e altos. Blumenau sentiu-se acolhido, falou das vicissitudes da Europa, das razões de migrar ao Brasil e do mau jeito de terem se assentado em suas terras. Ficou espantado quando o cacique lhe disse: 'Aquelas terras não são nossas. São das águas'. A história daí em diante é conhecida e lembrada quase regularmente, a cada 15 anos, no Vale do Itajaí, como agora em Porto Alegre." Talvez seja esta mais uma dentre outras lições que nos foram ensinadas pelos indígenas e nós não aprendemos.

A meu juízo, a mãe terra enfrenta uma crise climática e, segundo Renata Cafardo, no Estadão, "os que concordam com a tese são sempre maioria entre os jovens. Resta aos governos investir neles; e só se faz isso com educação". Enchentes como a atual podem ser causadas por anomalias meteorológicas raras, pela ação do ser humano no meio ambiente ou pelos dois fatores. Quanto ao primeiro, resta-nos tomar medidas preventivas, mas o segundo é de responsabilidade dos habitantes do planeta. Que gaúchas e gaúchos, aliados a todos os brasileiros, repitam como mantra a frase de Genuino Sales: "Uma coisa é o que eu faço, outra coisa é o que nós fazemos."

(*) Reitor do FB UNI e Dir. Superintendente da Org. Educ. Farias Brito. Presidente da Academia Cearense de Letras.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/05/24. Opinião, p.18.

quarta-feira, 19 de junho de 2024

O RIO GRANDE DO SUL E SUAS AGENDAS

Por Heitor Férrer (*)

O primeiro ministro Benjamin Natanyahu será lembrado pelo povo de Israel como o dirigente que não protegeu suas fronteiras e, por omissão, permitiu o ataque terrorista do Hamas dentro do território israelita, com milhares de judeus mortos. Natanyahu negligenciou, sabe de sua omissão e de sua condenação política e prolonga a guerra para manter-se no poder.

Antes do início da tragédia que assola o Rio Grande do Sul, ouvi na rádio O POVO/CBN uma entrevista do governador Eduardo Leite, onde ele dizia que, "se as previsões de chuvas se concretizarem, será a maior tragédia climática no estado". Não deu outra: as previsões se concretizaram e o Rio Grande do Sul vive o pior drama de sua existência.

Eduardo Leite sabe de sua omissão, tergiversa e chegou ao absurdo de dizer que o estado, hoje completamente destruído, tinha outras agendas. Já não tem mais, governador. A agenda agora é a de um estado destruído e que precisará de R$ 200 bilhões para voltar a ser apenas o que já era, apenas para se erguer. No ranking dos estados brasileiros, o Rio Grande se situa como o 4º maior PIB do país, atrás apenas de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.

Para termos ideia de valores, na peça orçamentária do estado em 2023, toda a arrecadação realizada para pagar todas as despesas de saúde, educação, segurança, investimento, etc. foi de R$ 70 bilhões. Com recursos próprios, o estado teria que parar todas as suas ações governamentais por três anos para se reconstruir. Com tragédia semelhante em 1941, de lá para cá, a agenda do estado teria que ter se concentrado na sua estruturação para evitar novas ocorrências. Pouco foi feito.

Diferente de Natanyahu, Eduardo Leite não quer que a guerra climática se prolongue; ele não cai ao término dela, não será punido por sua omissão. Sua culpa se dilui com os governadores passados, que foram tão omissos quanto ele e deixaram o estado a mercê dos eventos climáticos e da própria sorte

Como lição, nunca é demais lembrar o que o mundo diz sobre a Holanda, que tem grande parte de seu território, inclusive a capital Amsterdan, abaixo do nível do mar: Deus fez o mundo e os holandeses a Holanda.

(*) Médico e ex-Deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 31/05/2024. Opinião. p.17.

sexta-feira, 7 de junho de 2024

A PRAIA É DO POVO

Por Romeu Duarte Junior (*)

Como se o país não tivesse problemas com que se preocupar, enfrentar e resolver, alguns sabidinhos no Senado e na Comissão de Constituição e Justiça - CCJ resolveram propor uma alteração à Carta Magna via elaboração de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC), de número 03/2022. Trata-se, nada mais, nada menos, de retirar os terrenos de Marinha da lista de bens pertencentes à União. O projeto propõe transferir parte desse extenso território a estados, municípios e até proprietários privados. O que se concretizou no Parque Nacional de Jericoacoara, no começo deste ano, poderá ser o modelo do que se trama para o litoral brasileiro. Ou seja, para pegar um bronze, dar um jacaré e surfar nas ondas, teremos que pagar pelo uso da praia. Maravilha, né?

Com 7.637 km de linha de costa, podendo chegar até a 8.500 km se forem computadas as baías, e 33 metros de largura, contados do mar em direção ao continente, o litoral brasileiro é o 15º do mundo, totalmente voltado ao Oceano Atlântico e considerado pela Constituição Federal de 1988 como patrimônio da União. A proposição já vem enlameada, vez que o seu relator é o filhote 01 do inominável/inelegível/inviajável. Pode-se idealizar o que se projeta com base nessa nova condição: a miamização/cancunização/ camboriuzação da orla marítima nacional. Está no mapa do capital um dos maiores processos de gentrificação já postos em prática no Brasil, além da possível ocorrência de desastres ambientais de toda ordem. Camaradas, o mar não está para peixe...

Aqui mesmo, em Fort City, há muito anos convivemos com situações do tipo. O hotel praiano situado no Centro que impede a chegada à praia, barracas na Praia do Futuro que proíbem seus frequentadores de comprar umas piabinhas do ambulante para o tira-gosto, o complexo turístico e o seu amplo coqueiral de lucros. Há legislação referente ao assunto, a qual é sempre desprezada pelos gananciosos de plantão, que fazem o que querem e o que bem entendem, muitas vezes com o beneplácito do poder público que deveria fiscalizá-los. Uma outra gracinha é o valor das concessões das áreas litorâneas à iniciativa privada: a do Parque de Jeri custou a bagatela de R$ 61 milhões ao consórcio vencedor. Negócio da China, não? E o engraçado é que isso continua sob Lula.

Já que a distopia é o cotidiano brazuca, num futuro provável iremos à praia, antes passando por um guichê, com um sujeito de fones de ouvido atrás, que nos perguntará: "Quanto tempo vocês vão passar na areia? Quantos mergulhos no mar irão dar? Quantas ondas vão surfar? Quantas cervejas irão beber? A que horas irão sair da praia? Eis a conta". E um lembrete macabro: "Cuidem para não se afogar, pois cliente morto não paga e o prejuízo é nosso". Viveremos numa espécie de versão teatral praiana da canção "Taxman" dos Beatles. Pode-se imaginar a multidão de pobres, que têm no mar a sua única diversão gratuita, sendo barrada na praia por liseira. A orla é um bem de uso comum do povo e não de quem pode pagar. Lutemos para que continue assim.

(*) Arquteito e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/03/24. Vida & Arte. p.2.

 

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