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terça-feira, 4 de agosto de 2026

Lugares sagrados e turismo religioso

Por Rita Fabiana Arrais (*)

No último dia 10 de junho - durante a 113ª Reunião do Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) - aprovou-se o registro de bem cultural aos Lugares Sagrados da cidade de Juazeiro do Norte.

De acordo com a Secretaria de Desenvolvimento Econômico, Turismo e Romaria (Sedetur) de Juazeiro do Norte o processo de solicitação do registro iniciou-se em 2018 com a juntada de um arcabouço documental, enfatizando a importância simbólica dos lugares às mais distintas manifestações religiosas dos fiéis que peregrinam na cidade desde 1889 quando impactados pelo milagre da hóstia e pela figura emergente do Padre Cícero Romão.

A comunidade do bem cultural demarca os seguintes lugares: a Basílica de Nossa Senhora das Dores, a Capela do Socorro, a Casa dos Milagres Padre Cícero, a Casa Museu Padre Cícero, o Santuário dos Franciscanos, o Rio Salgadinho, a Ladeira do Horto e o Complexo do Horto. São nestes espaços "no universo das devoções" onde o sagrado habita. O simbolismo destes lugares alcança seu ponto fulcral durante as romarias, momento em que os fiéis renovam sua fé, ao mesmo tempo em que ressignificam seus rituais.

Atualmente existem dez romarias por ano (Celebração em memória da morte da beata Maria de Araújo; Romaria de São Sebastião; Romaria de Nossa Senhora das Candeias; Romaria de nascimento do Padre Cícero; Romaria em memória da morte do Padre Cícero; Romaria de Nossa Senhora das Dores; Romaria de São Francisco; Romaria de Finados; Romaria de ordenação do Padre Cícero; Romaria do Ciclo Natalino). Estima-se que 2,5 a 3 milhões de romeiros participam destes eventos consolidando o turismo religioso como uma das principais atividades econômicas da Região Metropolitana do Cariri (RMC). Registre-se que com a lei federal nº 15.443 de 26 de junho de 2026 todas as romarias tiveram as datas inclusas no Calendário Turístico Oficial do Brasil.

É notório que estes eventos religiosos impulsionam o desenvolvimento e crescimento econômico da RMC, pois os setores do comércio, serviços e infraestrutura são positivamente impactados com a demanda constante, e consequentemente estimulam a geração de empregos, o aumento da renda e da arrecadação de tributos.

Quanto ao volume de dinheiro movimentado, estima-se que R$ 754 milhões são abarcados pela economia local e distribuídos em setores como o hoteleiro, restaurantes, mercado de artigos religiosos, transporte, entre outros. (Sedetur/2025)

Como dizia o Seu Luiz Gonzaga (1912-1989): "Olha lá no alto do horto, ele tá vivo o "padim" não tá morto!

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 3/07/26. Opinião. p.17.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

Mais uma cidade na corrida pela monumentalização da fé

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Volto a um tema que discuti, aqui, 24/12/2-25: aquilo que nomeei como uma "corrida pela monumentalização da fé católica" no Ceará; ou seja: a construção de diversas imagens (gigantes) de santos católicos em cidades do interior, formatando um verdadeiro "turismo religioso", e tudo com o apoio do governo estadual (do PT, sempre acusado de "perseguir a fé") e dos governos municipais.

Citava, ali, os casos de Caridade, Crato, Campos Sales, Santana do Cariri, Chorozinho, Barbalha, Canindé, Maracanaú, Juazeiro do Norte e Caucaia.

Agora, mais uma cidade entra na "corrida": Iguatu. Na semana que passou, uma comitiva dirigiu-se ao Palácio da Abolição para demandar do governador Elmano de Freitas o apoio, inclusive orçamentário, para a construção de um complexo em homenagem à Senhora Sant'Ana, tida pela tradição católica (por causa de narrativas dos chamados "evangelhos apócrifos") como mãe de Maria; portanto, a avó de Jesus.

Estiveram presentes empresários da região, acompanhados do bispo de Iguatu, dom Geraldo Freire Soares, um arquiteto e representantes do poder público municipal. Segundo noticiou-se, a visita rendeu a promessa de auxílio do governo estadual, além de vultosos recursos advindos de emendas parlamentares - daqueles com base eleitoral na cidade, Agenor Neto e Marcos Sobreira, com todo o interesse de serem tidos como patronos do empreendimento, inscrevendo para sempre seus nomes nas placas do monumento - e, vejam só, uma doação bastante considerável de Roberto Pessoa (como empresário ou como prefeito de Maracanaú?).

A promessa, das autoridades políticas e religiosas, é de "mais um ponto de referência religioso", potencializando o turismo religioso no município e no estado. Isso porque a proposta prevê a criação de um espaço estruturado para acolher romeiros, visitantes e fiéis, impulsionando o comércio local, gerando empregos e colocando Iguatu em destaque no cenário estadual e nacional do turismo de fé.

Mais do que isso: em tempos de redução, ano a ano, do número de fiéis, o catolicismo se engaja em estratégias de visibilização pública como esta, como que expulsando-se do interior dos templos para forjar novos contornos no espaço público, em diversas cidades.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/03/26. Opinião. p.14.


segunda-feira, 16 de março de 2026

Romaria das Candeias e o debate da exploração dos preços

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A cidade de Juazeiro do Norte é um dos campos mais fecundos das variadas manifestações religiosas populares do Brasil. A sua religiosidade parece distante de tudo que achamos sacrificial e místico.

O calendário religioso local distribui-se entre dez romarias por ano, permitindo o fluxo constante de romeiros, ao mesmo tempo em que fortalece a economia com o aumento da circulação de moedas, e a geração de empregos.

Ocorreu entre os dias 29 de janeiro e 2 de fevereiro a Romaria das Candeias, conhecida como a "procissão luminosa". Dados disponibilizados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico Turismo e Inovação de Juazeiro do Norte (Sedetur) informam que mais de 250 mil pessoas visitaram a cidade.

Não há informações concretas de quando iniciou-se a romaria, mas um fato importante e conhecido como a narrativa mais popular e fiel, é que no "[...] o crescimento do povoado no final do século XIX, em busca de alento espiritual e material, surgiu a necessidade de gerar emprego. Um serralheiro, passando por dificuldades, pediu ajuda ao Padre Cícero, que o orientou a fabricar candeeiros. [...] e aproveitando-se da comunhão com o povo os instruiu a comprar candeeiros para utilizar na data da procissão' (MARINHO, R. 2023).

A excelente resolutiva empreendedora do Padre reverbera por todo o Nordeste, relacionando as romarias aos efeitos do mercado econômico local.

A exploração dos preços de bens e serviços em tempos de romarias reflete a ausência de estratégias entre os empreendedores locais, (que precisam vender seus produtos), e o poder público que poderia negociar medidas em forma de incentivos promovendo a estagnação de preços, ou aumentos reduzidos e fragmentados anualmente para setores específicos da romaria, como os ranchos e pousadas.

É notório que as elevações de preços de diárias em 300%, com oferta de um quarto modesto com banheiro no corredor por uma bagatela de R$ 500,00 reais por pessoa é imoral. Outros produtos chamaram atenção pelo preço, como por exemplo: 300 ml de água por R$ 4,00, o café com leite e o pão de sal por R$ 7,00, o almoço estava o quilo por R$ 59,90, o prato de sopa ou caldo no jantar era vendido a R$ 15,00.

Diante desta realidade muitos romeiros passaram a substituir a alimentação, e a pernoitar dentro dos ônibus, em praças ou arredores das igrejas.

Perolina Lins, uma romeira de Maceió que durante a missa na Basílica Nossa Senhora das Dores, cantou assim o seu bendito da carestia: "Meu padrinho Ciço Romão nos ajude por favor. É grande a exploração na cidade do Senhor! Nas pousadas e racharia os valores são altos demais. E os romeiros sofrendo sem poder viajar mais.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 13/02/26. Opinião. p.19.

sábado, 31 de janeiro de 2026

A corrida pela monumentalização da fé católica no Ceará

Por Emanuel Freitas da Silva (*)

Depois da pomposa inauguração da imagem de Nossa Senhora de Fátima, na cidade do Crato, no mês passado (que contou com ampla divulgação da Prefeitura Municipal), seguida da inauguração, no entorno, de uma capela que funciona como réplica daquela que existe em Portugal, outras cidades cearenses parecem ter corrido, com a ajuda do governo estadual, para também inscreverem seus nomes na rota do turismo religioso no Ceará.

A cidade de Jucás, por exemplo, inaugurou um santuário à Nossa Senhora do Carmo, com uma imagem que repete as dimensões da do Crato - anunciada como "maior que o Cristo Redentor" -, em meio a um complexo com lojas, restaurante, lanchonetes e banheiros, além de uma capela e outros espaços para receber romeiros e visitantes. Num convênio entre a prefeitura e o governo estadual, o acesso ao local custou quase R$ 4 milhões aos cofres públicos.

Na região, existem ainda imagens de Nossa Senhora da Purificação (em Saboeiro) e de Nossa Senhora da Penha (em Campos Sales). Em Santana do Cariri, “novas imagens” da estátua de Benigna também foram divulgadas em dezembro, criando expectativa acerca de sua entrega, bem como do complexo religioso que deverá cercar o local.

Por sua vez, Caridade também correu para, depois de quase 40 anos, encabeçar o corpo de Santo Antônio. E tudo, reitere-se, com pretensões de construção de complexos que ponham as cidades na rota do turismo religioso.

Para não falar de Santo Antônio (Barbalha), Padre Cicero (Juazeiro e Maracanaú), São Francisco (Canindé), Menino Jesus de Praga (Chorozinho), Santa Edwiges (Caucaia) e tantas outras imagens espalhadas pela cidade de Fortaleza.

Expressão de fé do segundo maior estado católico do país (somos 70% de católicos)? Também. Mas, sobretudo, expressão da aliança, histórica e permanente, do poder público com o credo que nos constituiu como nação e que, por isso mesmo, ainda acumula, de modo legitimado, privilégios que outros credos buscam também usufruir.

Ao que parece, instaurou-se uma disputa acirrada pela monumentalização da fé em diversas cidades, que passam a ter seus territórios, do chão ao alto do firmamento, fincados e atravessados pelas representações do universo sagrado do catolicismo.

(*) Professor adjunto de teoria política da Uece/Facedi.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/12/25. Opinião. p.16.


terça-feira, 27 de janeiro de 2026

A cabeça do Santo e o potencial religioso do Ceará

 

Quase quatro décadas depois, moradores da cidade de Caridade, a 95 km de Fortaleza, e devotos de Santo Antônio, terão um monumento para visitar, pedir, agradecer e rezar. Expectativa de mais demonstrações de fé e também de impulsionamento da economia local. Parte do crescimento do turismo religioso que o Ceará exibe.

São manifestações culturais e religiosas que concentram milhares de pessoas em um mesmo espaço, o que demanda uma logística operacional que se torna potencial para gerar emprego e renda em municípios grandes, como Juazeiro do Norte, com mais de 200 mil habitantes, e pequenos, como em Caridade, com 16 mil.

A Rota das romarias, dos grandes templos, das estátuas e dos eventos promove desenvolvimento e incentiva a criação de políticas públicas que trabalhem a economia e a preservação da identidade cultural das comunidades.

Em Caridade, ter a cabeça de Santo Antônio colocada, além de todo o seu clamor religioso e logístico, é sinônimo também de esperança de uma vida melhor para a população. Hotéis, restaurantes, comércio de artigos religiosos e transporte são alguns dos setores mais impactados.No Brasil, o turismo religioso movimenta R$ 15 milhões por ano e os municípios pequenos e médios são os mais beneficiados. No Ceará, o Cariri desponta no segmento, apesar de o turismo religioso já ser realidade em diferentes regiões do Estado.

Neste ano, no Crato, o Santuário de Nossa Senhora foi reconhecido oficialmente como Santuário Diocesano e construiu a maior estátua de Nossa Senhora de Fátima do mundo, com 54 metros de altura.

É também no Cariri que a devoção a Padre Cícero leva milhões de pessoas por ano a Juazeiro do Norte, onde acontecem ainda as Romarias de Nossa Senhora das Dores e Nossa Senhora das Candeias. De acordo com a Prefeitura, a região é considerada o segundo maior destino religioso do País.

Em Barbalha, a festa do Pau da Bandeira virou atração turística nacional, com hotéis cheios e visitantes de diferentes locais. Em Santana do Cariri, a construção do Santuário da Menina Benigna já provocou crescimento econômico com a abertura de hospedagens, restaurantes e comércios.

Em Canindé, é São Francisco quem chama milhões de romeiros a pé, de ônibus, carro ou moto. A Rota do turismo voltado para a religião inclui ainda o Santuário Mariano de Nossa Senhora Imaculada Rainha do Sertão, em Quixadá; o Alto de Santa Rita e a Igreja Matriz da Imaculada Conceição, em Redenção; o Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité; bem como Santuário de Fátima, o Seminário da Prainha e a Catedral da Sé, na Capital.

O investimento no segmento religioso se concretiza no Ceará e demanda mais políticas que incentivem os potenciais dos municípios, ricos em cultura e fé. Logística, estradas, segurança e apoio de diferentes setores da sociedade, públicos e privados. As manifestações religiosas cearenses são bonitas, fortes e históricas, e nunca tiveram tanto potencial para serem ainda mais.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/12/25. Editorial, p.18.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

TURISMO DE NEGÓCIOS

Por Raimundo Padilha (*)

Quando da existência do Pacto de Cooperação, o empresário Amarílio Macedo, seu criador, promoveu um evento na sua casa de veraneio em Paracuru, convidando técnicos e lideranças empresariais do Ceará para um encontro de final de semana prolongado, com o consultor Cláudio Fristchak da INTER B - Consultoria Internacional, para discutir alternativas de desenvolvimento do Estado.

As discussões foram prolongadas e dentre as prioridades sugeridas como a educação, o Cláudio propôs a criação de um Entreposto Internacional de Exportação. A ideia se apoiava basicamente na localização do Ceará na esquina do continente, além da vocação comercial da população cearense.

O projeto de Alargamento do Canal do Panamá, a privatização do Aeroporto Internacional Pinto Martins e o projeto de criação do Porto do Pecém, constituíam elementos infraestruturais decisivos para o desenvolvimento do projeto.

Além destas vantagens a criação do Centro de Eventos do Ceará, poderia abrigar um Polo de Feiras Internacionais, com lançamentos de produtos mundialmente comercializados dos mais diversos segmentos, como veículos, eletro-eletrônicos, moda, perfumaria, calçados, maquinaria, dentre outros, criando no Ceará um Centro Internacional de Turismo de Negócios. A frequência das feiras poderia ser quinzenal, atraindo para o Ceará potenciais compradores dos produtos expostos.

A ideia foi unanimamente aceita e, no momento quando se fala em Economia do mar, se poderia priorizá-la, como mais um projeto para o desenvolvimento do Estado.

Enfim, o mundo exportador traria os seus produtos para expor no Ceará e o mundo comprador viria para Fortaleza para realizar as suas compras em mais esta esquina de um grande continente. O turismo de negócio seria alavancado, com reflexo em toda a sua cadeia de operações, como hotelaria, bares e restaurantes, transportes, shoppings, etc. E o Ceará se transformaria numa grande vitrine internacional.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 12/12/25. Opinião. p.18.


terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Revisitando o Cemitério São João Batista

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

No artigo publicado neste Jornal O POVO, no dia 08 de setembro deste 2025, fizemos um breve apanhado da importância histórica do Cemitério São João Batista, às vésperas de completar os seus 160 anos de inauguração.

No ensejo, colocamos como importante a transformação do Cemitério em um equipamento turístico-cultural, dada essa história centenária, sua riqueza arquitetônica e artística, permitindo a proteção e a promoção do patrimônio histórico, a criação de espaço para aprendizado sobre a história de Fortaleza, arte tumular e personalidades ali sepultadas.

Com isso, o Cemitério seria desmistificado como um local tabu e visto na sua realidade de um ambiente de reflexão e um museu a céu aberto, capaz de contar a história dos grandes vultos da nossa história, como políticos, artistas, empresários, intelectuais e heróis.

Os 95 mil metros quadrados do São João Batista permitem roteiros diversificados. Para além das visitas a túmulos dessas figuras da história política, das artes em suas diversas formas e daqueles que geraram lendas e contos populares, há outros focos a explorar, como a arquitetura, a escultura e a simbologia ali presentes.

É também um ambiente propício a visitas especiais noturnas, para uma experiência imersiva, exposições temporárias, aulas, oficinas de Tanatologia, lançamentos de livros, apresentações artísticas, dentre outras formas de atração para o público, tanto local quanto os turistas que visitam Fortaleza e querem enriquecer sua experiência com a história da cidade, tudo com o respeito e a discrição exigidos.

Os temas para a programação cultural e educativa são por si sós muito ricos, como a simbologia tumular, a arte e a arquitetura funerária, os trabalhos dos escultores e a própria história da morte. Afinal, pode-se escolher entre patrimônio e arte, história e memória, turismo e cultura, dentre outros olhares não excludentes.

Em uma parceria com o poder público, as universidades, colégios, academias, institutos, representações do empresariado e atuais responsáveis pelos túmulos, pode-se dar vida a um projeto que engrandecerá ainda mais a rica história do Ceará.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/12/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 14 de outubro de 2025

Cemitério São João Batista, um ponto histórico!

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Inaugurado em 1866, em substituição ao São Casemiro, que sofria influências das dunas ali existentes, onde foi construída a Estação Ferroviária João Felipe, o Cemitério São João Batista, com área de 95 mil metros quadrados, é o guardião da memória de ilustres personagens.

Uma das formas de se perceber essa importância histórico-cultural do São João Batista é fazer-se um cotejo com as praças, equipamentos e vias urbanas de Fortaleza. Nestas, prestam-se homenagens a destacados vultos, como é o caso dos Barões (de Aquiraz, de Studart, de Aratanha), Carlos Jereissati, Virgílio Távora, Tristão Gonçalves, Boticário Ferreira, Dragão do Mar e tantos outros.

Cego Aderaldo, Mister Hull, Cônego Bessa, Demócrito Rocha, Meneses Pimentel, Cordeiro Neto, Natércia Campos, Rogaciano Leite, Frei Tito, Soares Bulcão, Rodolfo Teófilo, Plácido Castelo, Pessoa Anta, Padre Mororó, Juvenal de Carvalho, Quintino Cunha, Martins Filho são outras ilustres personalidades cujos corpos foram depositados no São João Batista.

A longa trajetória do São Batista permite conviver-se com os diferentes estilos arquitetônicos dos seus túmulos, do neoclássico, gótico ao eclético, alguns deles com anjos importados da Europa e materiais como gesso, cobre e pedras, que enriquecem a arquitetura de Fortaleza.

E muitas lendas fazem parte do histórico do cemitério, como a da Mulher Serpente, ou relatos de aparições como a de um visitante que, receoso de ficar sozinho numa visita tardia, aproximou-se de uma mulher que lá estava e, confiante, lhe disse ter medo de pessoas mortas, ao que ela teria retrucado: quando eu era viva, também tinha.

Assim, defendemos a ideia de um São João Batista como equipamento turístico-cultural de Fortaleza. Afinal, ele é o ponto extremo do chamado corredor que se inicia no antigo prédio da Alfândega, passando pela 10ª. RM, Catedral, Passeio Público, Santa Casa e a antiga Estação Ferroviária.

Desta forma, a Irmandade teria como manter o Cemitério em muito melhores condições, permitindo às famílias, aos turistas, aos historiadores e aos amantes da cultura um novo e rico espaço da história cearense.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 8/09/25. Opinião. p.18.

terça-feira, 23 de setembro de 2025

COP 30 e a Insustentabilidade Turística

Por Dárdano Nunes de Melo (*)

A COP 30 representa um momento único para o Brasil mostrar ao mundo a sua pujança na sustentabilidade, o que além de dar visibilidade, poderá atrair investimentos tendo em vista as metas alcançadas na área climática, na preservação da Amazônia, no multilateralismo e enfim, no desenvolvimento sustentável.

Um encontro desta magnitude, à nível turístico poderia dar ao país um reforço em sua imagem, como perfeita estratégia de marketing, divulgando o Pará, a Amazônia e o Brasil. Como observador do desenvolvimento turístico nacional e analista de suas políticas públicas, afirmo com toda segurança que existe uma elevada discrepância nos avanços alcançados nos segmentos correlatos ao evento em relação ao atraso no setor turístico, tanto no aspecto do planejamento, da promoção, da infraestrutura, da tecnologia, da segurança e principalmente da estratégia operacional.

Por exemplo, enquanto no Agro, cientistas do mais alto gabarito da Embrapa recebem, anos seguidos, premiação tipo Nobel no setor, na Embratur e no Ministério do Turismo o que se vê é uma gestão feita por leigos e despreparados, além de serem órgãos verdadeiros cabides de emprego e de há muito denunciado por corrupção e destituídos de total controle de produtividade por resultados pífios.

Como admitir que um país que tem a maior biodiversidade do planeta, incomparável patrimônio cultural e artificial aparece na humilhante escala da OMT com os piores índices de receptivo? Esta lanterna na estatística do turismo internacional retrata perfeitamente a incapacidade de transformar este precioso recurso em um produto altamente rentável. O turismo representa 12% do PIB mundial e gera quase meio bilhão de empregos diretos e outros bilhões em seu cluster econômico.

O descaso com o turismo é tamanho que as Nações Unidas sugeriram transferir dopara outro lugar, tendo em vista que o Brasil não fez o básico: planejamento (estudo de capacidade de carga, acerto prévio de preços e reservas de hospedagem, serviços de receptivo e segurança, controle e tabelamento da área de alimentação etc.).

O desconhecimento da psicologia social e da antropologia cultural do empresário e de sua falta de ética no Brasil que adota a famosa ¨lei do Gerson¨, blindou a visão de Marina Silva e Celso Sabino que veio apagar o fogo quando e estrago estava feito: Empresas cobrando até 20 vezes mais que o preço de mercado, um absurdo! Colasuonno (1980) disse; ¨Explorem o Turismo não o turista¨.

(*) Academia Cearense de Turismo.

Fonte: O Povo, de 19/08/25. Opinião. p.18.

quinta-feira, 4 de setembro de 2025

MOSTEIRO DOS JESUÍTAS: uma casa, três pilares e um só coração

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Assumir a direção do Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité, foi como escutar um chamado vindo das montanhas: convite à escuta, à memória e à transformação. Essa casa centenária, erguida na serra úmida do interior cearense, guarda mais do que pedras e paredes. Ela preserva histórias de fé, de missão, de silêncio fecundo. Aqui, o tempo parece desacelerar, a arquitetura fala, e o espírito encontra repouso.

Fundado em 1923, o Mosteiro é marco da presença missionária da Companhia de Jesus no Ceará. A escolha por Baturité não foi acaso: o clima ameno, a natureza densa e o relevo serrano fizeram do local um refúgio ideal para retiros, formação de noviços e aprofundamento espiritual. Ao cruzar seus portões, muitos sentem que adentram um território sagrado, onde a alma respira em outra frequência.

O Mosteiro é, antes de tudo, casa de oração. No silêncio dos corredores, nas paredes marcadas por gerações de padres e irmãos, pulsa um coração espiritual que convida ao recolhimento. Aqui, a fé não é ruído – é presença. A espiritualidade inaciana, com sua ênfase no discernimento e no encontro pessoal com Deus, transforma cada visita em experiência de profundidade.

Mas o Mosteiro também é cultura viva. Suas bibliotecas guardam preciosidades. Seus corredores, cheios de ecos, testemunham décadas de arte, educação e saber. Temos buscado renovar essa vocação com encontros, exposições e rodas de conversa. O passado aqui não é ruína – é fermento para o presente.

E é, sobretudo, um espaço social. Acolher é missão diária. Jovens em busca de sentido, famílias em retiro, corações cansados da pressa: todos encontram aqui abrigo. Sob as árvores centenárias, a alma se recompõe. Com trilhas, oficinas e ações junto à comunidade, vivemos o apelo inaciano de “em tudo, amar e servir”.

Hoje, o Mosteiro é também um dos destinos mais significativos do Maciço de Baturité. Visitado por romeiros, religiosos e estudiosos, tornou-se símbolo de fé, resistência, acolhimento e beleza. Em tempos de ruído, é santuário de silêncio. Em tempos de pressa, ensina a pausa. Seus três pilares – religioso, cultural e social – não competem, mas se entrelaçam. E juntos fazem desta casa um farol de humanidade no coração do Ceará.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 26/07/2025. Opinião. p.18.

sábado, 11 de maio de 2024

CONVERSA NO TÁXI

A Sra. Nogueira está visitando parentes em Amsterdã e decide levar seu filho de 12 anos para um passeio pela cidade.

Chamam um táxi e pedem ao motorista que os leve aos pontos mais interessantes da cidade. Ao passarem pelo famoso Bairro da Luz Vermelha, Juquinha vê as "mulheres de vida fácil" na calçada e pergunta:

"Mamãe, o que essas mulheres estão fazendo aí no frio?"

“Nada”, diz a envergonhada Sra. Nogueira. "Provavelmente esperando um táxi."

“Não, não”, interrompe o motorista. "a senhora não deve mentir para seu filho. Essas são prostitutas. Elas cobram dinheiro para fazer sexo.”

O menino está chocado. "Mas mamãe, o que vai acontecer com os filhos dessas mulheres?"

"Todos eles serão motoristas de táxi, Juquinha."

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

ACQUARIO CEARÁ: até que enfim, uma saída

Por Heitor Férrer (*)

São as ideias que movem o mundo! Boas ou ruins, elas impactam a sociedade, pautando a vida das pessoas. Quando governamentais, são, na sua grande maioria, impostas pelos administradores públicos em desrespeito aos administrados, aos que tudo pagam, restando-lhes apenas o direito de espernear. O "Acquario" foi uma dessas ideias, trágica ideia.

Concebida em 2009 e iniciada em 2012 no governo Cid Gomes, já se foram 11 anos e o que temos é uma ruína em construção, onde, em vez de peixes de todos os mares e oceanos como foi prometido, temos mosquito da dengue e infortúnio para os que moram no seu entorno. Obra inoportuna, desnecessária e não prioritária, a máquina do governo vendeu à sociedade cearense a ideia de que o aquário seria a redenção de nosso Estado, estava nele a solução de todos os nossos problemas, o mundo todo viria nos ver.

Fiz frente a essa ideia megalomaníaca e tresloucada. Em pronunciamentos duros, me referia à obra como "casa de peixe" e como poderíamos admitir a sua construção num Estado onde mais da metade da população vive do Bolsa Família, com um déficit habitacional de 234 mil moradias, cerca de 900 mil pessoas morando em condições sub-humanas, um estado com apenas 34% com esgotamento sanitário e com um elevadíssimo índice de assassinatos; naquela época, 4.000 homicídios/ano.

Um aquário não poderia, sequer, ser pensado, mas o governador Cid encaminha à Assembleia um pedido de empréstimo de 105 milhões de dólares (515 milhões de reais) para a sua construção. A matéria foi aprovada. Votei contra. O Senado, até hoje, não autorizou o empréstimo, mas o governador iniciou a gastança e enterrou naquele mostrengo R$ 130 milhões, correspondendo hoje a R$ 287 milhões, que, se aplicados na saúde, não teríamos nenhum cearense em fila de espera para cirurgia. Isso sim, prioridade 1 de qualquer governo.

Eleito Camilo Santana governador, sugeri a demolição daquela ruína. Por uma questão de lealdade e gratidão, o que é uma virtude, Camilo manteve sua concepção, porém não lhe acrescentou uma saca de cimento, nítida atitude de que a obra não interessava ao Estado. Com a chegada do governador Elmano, uma brilhante ideia: levar o LABOMAR para o famigerado aquário em convênio com a UFC, o que significa recursos federais para o empreendimento. Lá, teremos peixes, não para turista ver, mas para estudos científicos. De parabéns o governador Elmano, com uma ideia que move, positivamente, o Ceará. Opor-se a isso é oposição por oposição.

(*) Médico e ex-Deputado estadual (Solidariedade).

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/01/2024. Opinião. p.19.

terça-feira, 13 de junho de 2023

O PAU DA BANDEIRA DE SANTO ANTÔNIO EM BARBALHA: o Cariri em festa

Por Fabiana Arrais (*)

Um dos maiores símbolos de devoção religiosa e expressões culturais do povo caririense é a celebração do pau da bandeira. A caminho da Igreja Matriz para a tradicional missa da benção à bandeira de Santo Antônio, as ruas de Barbalha tornam-se espaços das mais distintas manifestações do povo caririense (Reisados, O homem que cospe fogo, Quadrinha infantil, Grupo de cavalgada com berrantes, Marcha das Mulheres, Grupo Mateu de Teatro, Penitentes, etc) num momento sublime de união, fé e alegria.

Desde o ano de 2015 que a Festa do Pau da Bandeira de Santo Antônio é considerada Patrimônio Cultural Brasileiro e inscrita no Livro de Registro das Celebrações do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), fato que permitiu esse festejo regional alcançar visibilidade nacional atraindo turistas de vários estados.

É importante ressaltar que essa celebração além de preservar e reproduzir as práticas religiosas e a diversidade cultural do povo barbalhense consolida-se como um grande atrativo econômico para investimentos tanto do setor público (através de obras em infraestrutura e contratação de mão-de-obra), quanto do setor privado (patrocínios, aquisição de espaços para exposição de marcas, apresentação de novos produtos, etc). Lembremos que a economia busca erguer-se pós pandemia, e o setor de serviços - um dos componentes do Produto Interno Bruto do Ceará - mais significativo da Região Metropolitana do Cariri, nesse período, cresce expressivamente pelo aumento da demanda dos setores de hotelaria, alimentação, vestuário e transporte.

De acordo com a Secretaria de Cultura de Barbalha do dia 3 a 13 de junho estima-se que cerca de quinhentas mil pessoas participarão dos festejos, impactando a economia, pois os eventos existentes como: os shows artísticos, as quermesses, o espaço gastronômico, geram emprego e renda, impulsionam o comércio local, ao mesmo tempo em que fidelizam os consumidores, promovem o surgimento de novos empreendedores.

Os festejos juninos (Santo Antônio, São João e São Pedro) espalhados pelo Brasil serão responsáveis por movimentar a quantia de seis bilhões de reais, valores revelados pelo Ministério do Turismo (2023), confirmando que estes eventos já transitam da esfera do sagrado para uma dimensão econômica. 

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 9/6/23. Opinião. p.17.

terça-feira, 18 de abril de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ: São José em Icó

Por Izabel Gurgel (*)

Contei mais de 200 altares em casa, à porta da rua, para ver passar a procissão de São José. Seriam 208, 209?

As mãos dedicadas a instalar miudezas, a enfeitar a rua pela qual passamos, a vida a passar. Tem toalha de mesa em ponto cruz, caminhos de linha bordada à máquina; croché em linha de algodão; colchas felpudas como se gatos deitassem na janela. A natureza transformada pelo trabalho saúda a passagem do Santo. O Divino, abundante, deixa mais fofos a pele, o pelo dos bichanos.

Tem colcha de renda sintética, processada em uma velocidade desimaginável no tempo dos carros de boi, que inventavam o sertão passando por Icó. Imagine o tanto de chão trilhado que tem a procissão, hoje, se a Ribeira dos Icós já era percorrida antes da profecia do sertão virar mar e do mar virar sertão.

Glória ao desejo de luz. Tem bibelô de anjo de asa fluorescente, N. Sra. furadinha a deixar passar, corpo-peneira, a luz da lâmpada que vai por dentro da imagem. Cortejo com estátuas, estampas, objetos sagrados, enfeites muitos, de tipos variados, porque variado é o mundo criado, misturado, misturado em todas as narrativas que dele se possa fazer.

Casas abertas, calçadas bordadas de gente, mundos revelados. Tudo saudando a vida, mistério tão bonito como o altar que é só um retângulo de pano encarnado sobre um retângulo maior de renda branca artesanal, com flores amarelas, de tecido banhado na glicerina. Como se do livro de pintura, o livro que o menino segura enquanto o Santo passa, como se dali brotassem cinco girassóis de Van Gogh e ficassem sobre o encarnado e o branco, seguindo bonitezas como palha seca trançada, geometria que povos originários nos ensinaram.

Tão pequeno o altar, oferenda a ser vista de passagem, a compor uma paisagem monumental, que a fé humana não cessa de refazer. É monumental no sentido da origem do nome: para fazer lembrar, para não nos deixar esquecer. Para triunfar sobre a morte, como o Senhor do Bonfim, no rumo do qual seguem todas as procissões que serpenteiam Icó o ano todo, sendo a do Senhor do Bonfim a derradeira e primeira, no primeiro dia de janeiro.

Em Icó, o ano termina e começa de novo no mesmo dia, 01 de janeiro, ao fim da procissão. O calendário vira com a queima dos fogos do Santo, bombas feitas à mão, não é, mestre Bonfim, dos Madalena? O tempo encantado, cíclico, finda e começa. Vida e morte entrelaçadas como cordas. Cordas do coração, dos fios cor de ouro bordados sobre roxo aos pés do Senhor do Bonfim.

Está na rua o altar de casa, uma vez que estão nas janelas, ou entrevistas em quadros nas paredes ou imagens na estante, as figuras de Maria Santíssima: aqui Aparecida, ali Fátima, Lourdes na vizinha, Nazaré do Círio de Belém, peregrinas que aportaram na cidade-cruzo de estradas do Ceará colonial. Conceição, Guadalupe, N. Sra. do Sagrado Coração, e da Sagrada Família, em desenhos dos mais variados: a caber na palma da mão, a carecer de uma chegada bem perto para ver e saber do visto, e poder contar e aumentar o conto, ou a pedir uma distância. Às vezes, melhor vê quem olha de longe.

É São José no andor de cetim, que brilha e brilha, e é macio como obra boa de marcenaria, ofício-marco do Santo. Um exemplo? Cada peça feita pelo carpinteiro Dedé de Tixa (seria Ticha?), dali da rua do Meio. Dedé da família de Zé Tavares, cujo cortejo de imagens, uns dizem artesanato fino. Outros, aparição divina, obra de arte. Um saber de longo curso, vc e eu sabemos. Saber de uso cotidiano. E nos dias de festa.

Do guardado presépio de Zé Tavares, vejo Maria e José na janela e, Oh, Deus, que maravilha nossos olhos contemplam. Peças de priscas eras para um instante em que nos tornamos passíveis de eternidade. O resplendor de N. Sra. cheio, cheio de pedras preciosas. Preciosa no sentido das coisas que nos são caras.

Um menino passa e pergunta se pode ser dele, menino, quando ela, dona da casa, morrer. Ela ri. Pensa, talvez, nela própria menina, ou na legião querendo herdar algo que não se pode ter. Zé Tavares experimentou o mundo feito São José, com as mãos tocadas por necessidade e vontade de beleza.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/03/23. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 12 de abril de 2023

SÃO JOÃO BATISTA COMO ATRATIVO TURÍSTICO

Por José Solon Sales e Silva

Visitar cemitérios é uma atividade antiga e vem sendo mais divulgada turisticamente a partir da segunda metade do século XX. O Brasil herdou a tradição cultural portuguesa e, por que não dizer, ibérica. É bem verdade que, para nós, os chamados cemitérios oitocentistas surgem somente no século XIX.

Estes cemitérios, denominados de oitocentistas por terem se propagado na Europa durante o século XVII, são verdadeiros relicários da memória de uma cidade, sendo expressados por meio da arquitetura simbólica religiosa, em que os ornatos traduzem símbolos de poder e gloria. Além desses aspectos, nestes cemitérios também encontram-se caraterísticas sociológicas, antropológicas e econômicas da sociedade em suas diversas épocas.

Guardam toda a estrutura de uma urbe, com avenidas, ruas, ruelas e traduzem, em sua feitura, as mesmas características da cidade, com espaços belos e caros e com os aspectos periféricos. Por tradição católica que remonta a séculos, os terrenos mais caros estão ao redor da Capela Cemiterial e à proporção que se afastam da capela os valores passam a diminuir. As construções tumulares dos circunvizinhos à capela são suntuosas e com revestimento de material nobre tais como mármore de Carrara e pedra de lioz, enquanto os túmulos mais afastados possuem revestimentos de materiais mais baratos até mesmo com revestimentos de pisos de banheiros.

Todos estes aspectos, por si só, traduzem o que a teoria do Turismo chama de atrativo turístico. Um campo santo oitocentista é um relicário de memória e história de uma cidade onde a possibilidade de análises vai além do que já se expôs, a história daquela cidade.

No caso do nosso Cemitério São João Batista, em tese de doutorado, desenvolvi doze possibilidades de roteiros turísticos, quais sejam: Roteiro dos Barões; Roteiro dos Políticos; Roteiro dos Empresários; Roteiro dos Religiosos; Roteiro dos Poetas e escritores; Roteiro dos Militares; Roteiro dos Arquitetos e Engenheiros; Roteiro dos Comunicadores; Roteiro dos Médicos; Roteiro dos Professores; Roteiro dos Artistas; Roteiro dos Mártires. Há ainda a possiblidade da criação de muitos outros. Visitar o São João Batista é uma atividade cultural de grande valia e possibilidades.

(*) Professor. Turismólogo IFCE - Campus Fortaleza. Curador do Memorial do IFCE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 28/02/23. Opinião, p.28. 

terça-feira, 14 de março de 2023

ACQUÁRIO CEARÁ: um bom motivo pra sonhar e não para chorar

Por Paulo Linhares (*)

“Ter um sonho todo azul. Azul da cor do Mar” (Tim Maia)

Essa semana o debate sobre o Aquário da Praia de Iracema voltou a ser pauta com a declaração do Governador Elmano de que vai ser construída uma parceria público/privada para execução da obra.

O aquário foi idealizado em 2008 pelo então governador Cid Gomes (PDT) para incrementar o turismo e atrair um milhão de visitantes.

A obra foi iniciada em 2012 para durar dois anos, os trabalhos se interromperam definitivamente em 2015, no início da gestão de Camilo Santana (PT). A obra já custou aos cofres estaduais R$130 milhões, com 75% da estrutura de concreto concluída, mas apenas 25% do previsto em equipamentos e acabamento.

É hora de discutir o chamado Acquário Ceará com o mínimo de racionalidade.

Antes de mais nada, é preciso dizer que quando pensamos no Centro Cultural Dragão do Mar, Ciro Gomes (governador) eu como secretário de Cultura e idealizador do projeto e o arquiteto Fausto Nilo, que ganhou a concorrência da criação arquitetônica e urbanística, previmos um aquário exatamente no mesmo lugar.

Mas antes de fazer qualquer coisa, começamos um estudo do que havia de melhor no mundo e quais os resultados e custos.

Depois de um benchmarking minucioso, resolvemos visitar in loco algumas experiências no exterior, já que no Brasil nenhum projeto mais ambicioso existia (o AquaRio, o maior do Brasil, é um projeto recente).

Visitamos o Oceanário de Lisboa, inaugurado em 1999, que já estava em obras, o Aquário de La Rochelle, na França, e eu conhecia e havia estudado o Musée Océanographique, de Mônaco.

Os três projetos me pareciam com tipologias específicas de três caminhos possíveis a seguir:

1.Um aquário pequeno com as características específicas do mar tropical que temos aqui, com seus peixes e sua fauna e flora marinha. Caso do aquário de La Rochelle.

2.Um aquário de grande porte com toda a variedade de mares e animais marinhos apresentando toda a variedade existente no oceano. Caso do Oceanário de Lisboa e do Aquário de Valença.

3.Um museu oceanográfico com a memória do que temos aqui na nossa relação com o mar e um pequeno aquário com capacidade de mostrar o nosso litoral. Caso do Museu do Mar de Monaco.

Lembro que estávamos eu, Fausto e Arialdo Pinho voltando dessa viagem de estudos quando o piloto anunciou antes de desembarcar: é bom que os cearenses saibam que o governador Ciro Gomes aceitou agora o convite do presidente Itamar Franco para assumir o Ministério da Fazenda, tendo anunciado sua renúncia do cargo que ocupava.

Ou seja: the dream is over.

A obra do Centro seria suspensa e só recomeçaria três anos depois, sob o comando do governador eleito Tasso Jereissati, depois de detalhados estudos, com um ponto claro: o aquário seria apenas um projeto futuro.

É bom que se diga: Tasso tinha razão. Embora o Centro Dragão do Mar tenha custado em valores atuais cerca de 20 milhões de reais (moeda que ainda não existia, diga-se de passagem), uma merreca em comparação ao que se gastou depois no Centro de Convenções, Castelão e CF, seria prudente ir com calma.

Em 2008, Cid recebeu uma proposta de fazer um aquário em Fortaleza do então Diretor Geral do Dnocs Eudoro Santana. Eudoro sugeriu a realização do projeto naquela área, pois pertencia ao Dnocs e ele poderia ceder ao Estado.

Ao receber a visita do arquiteto cearense do escritório brasileiro Imagic!, que vinha de algumas passagens pela Walt Disney Imagineering, núcleo de design de entretenimento e tematização dos hotéis e parques da Walt Disney Company, Cid empolgado resolveu fazer o projeto proposto.

Cid, que provavelmente nem sabia dos nossos estudos e andanças, iniciou as obras quatro anos depois.

A ideia é boa.

Lisboa fez um grande Aquário e hoje é considerado o melhor investimento da Expo 90. O Oceanário de Lisboa tem uma média anual de um milhão de visitantes e deixa um lucro líquido de um milhão de Euros. O Oceanário de Lisboa é a principal âncora turística da cidade e Portugal e é considerado, unanimemente, o grande case turístico de todo o mundo neste momento.

O problema é que o projeto do Ceará é ruim.

O projeto do Oceanário de Lisboa é do americano Peter Chermaueff. O projeto do L'Oceanografic de Valência, o maior aquário da Europa e o mais visitado do mundo, é do arquiteto espanhol Félix Candela. São arquitetos de indiscutível qualidade e currículo e que certamente ganhariam qualquer concurso ou seleção mais rigorosa.

Não vou falar detalhadamente do projeto do Ceará, até porque o arquiteto morreu recentemente.

Basta que pensemos seriamente no tamanho do investimento e da necessidade de um projeto arquitetônico e não de design.

E antes de concluir, quero deixar claro que a opção por construir um grande Aquário não é a melhor para Fortaleza neste momento específico de dificuldades financeiras do estado e Governo Federal.

Com um décimo do investimento previsto, poderíamos fazer um museu oceanográfico nos moldes do de Mônaco (com características bem nossas, jangadeiros, peixes, histórias) e o trajeto onde o visitante entrasse no litoral nascente (Icapuí) e saísse no litoral poente visitando objetos, imagens, pequenos aquários, características da população original. Um projeto que daria ao visitante muito mais inovação e vontade de conhecer o mar do Ceará e teria uma relação investimento/retorno mais tranquila sem sustos e atropelos dessas grandes obras.

Em síntese: com inteligência e talento o mar pode ser céu, o céu ser mar, como dizia Neruda.

(*) Jornalista. Promotor Cultural.

Fonte: Publicado In: Vida & Arte, de 12/02/23. Opinião, p.8.

sábado, 22 de janeiro de 2022

A MESMA TATUAGEM

Um simpático turista americano e sua esposa, em visita à Jamaica, vai a um restaurante típico e, lá pelas tantas, sente necessidade de ir ao banheiro, e entra no reservado.

Atrás dele entra um homem jamaicano que para ao lado dele e começa a se aliviar.

O turista olha sem querer e percebe que o jamaicano tem uma tatuagem no pênis. Surpreso, ele diz: “Ei! Eu tenho a mesma tatuagem do pênis como você! Começa com um B e termina com um A. ”

O turista mostra sua tatuagem alegremente e diz: "Olha, eu tenho 'Brenda', que é a minha esposa."

O jamaicano ri e responde: "Não, elas não são iguais, a minha diz: 'Bem-vindo à Jamaica, tenha um bom dia'"

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

terça-feira, 12 de outubro de 2021

Mosteiro dos Jesuítas: mais que um hotel de charme

Por Lêda Maria Feitosa Souto (*)

Mosteiro dos Jesuítas em Baturité vai completar 100 anos de história. O tempo exige uma reforma geral de seu interior, acompanhada de outra beneficiando os lados externos de onde se descortinam todas as paisagens do maciço. Ali, o empreendedor Eugênio Pacelli, em seus planos e orações de padre fervoroso, abençoado por Santo Inácio, e com passe livre da congregação, tem um grande projeto: impulsionar o turismo religioso, para garantir atividades religiosas, acolhida para muitos beneficiados com o funcionamento do mosteiro, transformado em verdadeiro hotel de charme, pós-reforma e restaurações. Tudo começa já, com profissionais envolvidos, busca de recursos e obras. O complexo funcionará em 2022 com 59 apartamentos, restaurante, cafeteira, salão para eventos, museu, igreja secular, áreas de meditação, horta e outras "dádivas".

(*) Jornalista; colunista de O Povo; membro da Academia Fortalezense de Letras.

Fonte: O Povo, de 11/10/2021. Vida & Arte. p.5.

domingo, 6 de janeiro de 2019

A TURISTA NA FARMÁCIA DE ITU


A cidade de Itu, no interior do estado de São Paulo, é conhecida por ter tudo maior. Maior mesmo! Então, uma turista da capital foi até lá para ver se isso era verdade. Ela ficou impressionada com o tamanho dos telefones públicos, dos bancos das praças e até das comidas do restaurante. Durante o passeio, ela teve uma dor de cabeça e foi à farmácia:
– O senhor pode me vender duas aspirinas, por favor?
– Sim, senhora.
E o farmacêutico vem com uma aspirina do tamanho de um prato!
– O senhor não tem uma menor?!, diz a moça, chocada.
– Aqui em Itu nós temos as maiores aspirinas do mundo!
Ela decide levar o super comprimido e pede mais um item:
– Bem, então me dê um tubo de pasta de dente, por favor.
E o farmacêutico vem com um tubo tão grande que era preciso carregar com as duas mãos. E ele diz: aqui em Itu também temos a maior pasta de dente do mundo! A senhora precisa de mais alguma coisa?
Ela pensa um pouco e responde:
– Até precisaria, mas acho melhor comprar os supositórios na minha cidade!
Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

O QUE FAZER COM ESTA DOENÇA INCURÁVEL?


Um turista brasileiro fez uma viagem à China sozinho. Chegando lá, ele se divertiu aos montes e foi muito promíscuo. Uma semana depois de voltar para casa, ele percebeu que o seu membro começou a ficar coberto de estranhas manchas roxas brilhantes. Horrorizado, ele correu para o hospital para consultar um médico.
Mesmo com uma longa experiência, o médico nunca tinha visto aquilo antes. Ele pediu que homem fizesse uma série de exames e voltasse com os resultados. Dias depois, ele entregou os exames, o médico leu atentamente e disse ao homem:
“Tenho más notícias. O senhor contraiu a Rara Doença Venérea da Mongólia. E você é o primeiro paciente que vejo com isso”.
O homem ficou aparentemente aliviado e disse:
“Tudo bem, doutor, então passe para mim um remédio para curar essa doença”.
“Lembra quando te disse que tinha más notícias?”, disse o doutor. “Pois bem. Esta doença é incurável e pode se espalhar pelo seu corpo. A única solução para isso é fazer uma cirurgia para amputar o seu membro.”
“Não! Por favor! Isso não é possível! Deve ter uma outra solução! Eu vou consultar outro médico.”
“Bem, a escolha é sua. Faça o que achar melhor, mas a cirurgia é a única escolha.”
No dia seguinte, o paciente foi a um médico chinês, que com certeza sabia sobre essa doença rara. Ele examinou o membro do homem e disse:
“Ah, sim, Doença Venérea da Mongólia. Muito raro”.
Ele então diz ao médico:
“Sim, sim, eu já sabia, mas o que posso fazer? O médico brasileiro quer me operar e cortar meu membro fora!”
O chinês fez um sinal de não com a cabeça e disse:
“Médico brasileiro estúpido! Médico brasileiro sempre quer operar. Quer operar só para fazer dinheiro”.
“Então não precisa de cirurgia?! Ufa, ainda bem!”, disse o homem.
“Não precisa!”, responde o chinês. “Não se preocupa. Espera duas semanas e o seu membro vai cair sozinho!”
Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.
 

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