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segunda-feira, 30 de março de 2026

Ceará se prepara para receber a nova Diocese de Baturité

Por Carlos Daniel, jornalista de O Povo.

Celebração histórica ocorre no próximo dia 25 e deve reunir cerca de 10 mil fiéis, além de forte esquema de segurança na cidade

A Arquidiocese de Fortaleza apresentou, nesta quarta-feira, 18, os detalhes da criação da nova Diocese de Baturité. A instalação canônica está marcada para o próximo dia 25 de março e deve reunir milhares de fiéis, além de autoridades civis e religiosas de todo o Ceará. O evento contará com um esquema especial de segurança e uma ampla estrutura para acolher o público.

Durante coletiva de imprensa realizada no Palácio Entre Rios, em Baturité, o padre José Benício Nogueira afirmou que a cidade se prepara para receber cerca de 10 mil pessoas.

A programação oficial terá início às 17h30min, com a entrada do novo bispo, dom Luiz Gonzaga Pepeu — conhecido como dom Pepeu — na Catedral de Nossa Senhora da Palma, onde ocorrerão os ritos de instalação e posse, em cerimônia privada. Em seguida, às 18h30min, será celebrada uma missa campal no patamar da igreja, aberta ao público.

Ao todo, estão confirmados 41 bispos, mais de 250 sacerdotes, cerca de 50 religiosos e mais de 30 diáconos. A cerimônia marca um momento histórico para a Igreja Católica no Ceará.

Marco histórico para a Igreja no Ceará

O padre Vanderlúcio Souza, representante da Arquidiocese de Fortaleza, afirmou que “a igreja no Ceará vive um momento histórico e de grande significado pastoral” com a criação do novo episcopado.

A nova diocese é a décima do Ceará e a primeira criada pelo papa Leão XIV no Brasil. O anúncio foi feito no dia 1º de janeiro deste ano e simboliza, segundo o padre Vanderlúcio, o fortalecimento da presença da Igreja na região do Maciço de Baturité, ampliando a ação evangelizadora e o cuidado pastoral com as comunidades.

Estrutura e organização da nova diocese

A Diocese de Baturité abrangerá 21 paróquias distribuídas em 14 municípios da região, sendo Canindé, Caridade, Guaramiranga, Mulungu, Ocara, Pacoti, Palmácia, Paramoti, Redenção, Acarape, Aracoiaba, Aratuba, Barreira e a própria cidade de Baturité.

Como parte da estruturação da nova diocese, a Prefeitura de Baturité anunciou a doação de um terreno de aproximadamente quatro hectares. Localizado da igreja da Sagrada Família, no conjunto Maria José Viana, o espaço será destinado à construção dos equipamentos da cúria diocesana

Dom Luiz Gonzaga Pepeu será o primeiro bispo da nova circunscrição e chegará ao Ceará no dia 24 de março, sendo recebido em Fortaleza por dom Gregório antes de seguir para Baturité.

A posse canônica ocorrerá durante a cerimônia do dia 25, oficializando a missão do novo bispo e a estrutura eclesial da diocese. A celebração contará com a presença de representantes do Vaticano, incluindo o cardeal Sérgio da Rocha.

Esquema de segurança e organização do trânsito

Para garantir a tranquilidade do evento, foi montada uma operação integrada envolvendo forças de segurança estaduais e municipais. Cerca de 150 policiais militares atuarão diretamente na operação, que começa já no dia 24 de março, com o reforço do policiamento nos principais pontos da cidade.

O planejamento prevê a divisão das áreas de atuação em zonas de segurança, com policiamento a pé nas imediações da catedral, além do apoio de unidades especializadas, como cavalaria, Batalhão de Policiamento de Rondas de Ações Intensivas e Ostensivas (Raio) e Polícia Rodoviária Estadual, que atuará nas vias de acesso ao município.

O Corpo de Bombeiros e equipes de saúde também estarão de prontidão para atendimentos emergenciais, enquanto agentes de trânsito irão coordenar o fluxo de veículos. As ruas no entorno da Praça da Matriz serão interditadas para garantir a circulação dos pedestres e a realização da missa campal.

Além disso, a prefeitura organizará espaços de apoio, como praça de alimentação e áreas específicas para ambulantes, com o objetivo de oferecer melhor estrutura aos visitantes e evitar aglomerações em pontos críticos.

Transmissão do evento

A instalação da Diocese de Baturité será transmitida ao vivo em rede nacional por emissoras de televisão católicas, além de plataformas digitais.

Entre os veículos que farão a transmissão estão Rede Vida, TV Evangelizar, Sistema Shalom de Comunicação, além de emissoras de rádio local. (Colaborou Penélope Menezes)

Fonte: Publicado In: O Povo, de 19/03/26. Cidades. p.14.

quarta-feira, 25 de março de 2026

Baturité – Uma nova Igreja no coração do Ceará

Por Pe. Raphael Silva Maciel (*)

Por ordem de Jesus Cristo, os apóstolos foram por todo o mundo anunciando o Evangelho (cf. Mc 16,15) e pondo os fundamentos do que conhecemos como Dioceses, que tem à sua frente um autêntico Sucessor dos Apóstolos, que desde os tempos apostólicos são chamados de bispos. Como fruto da missão da Igreja, há quase 172 anos era criada a Diocese do Ceará. Daquele primeiro núcleo nasceram outras 9 Dioceses, sendo mais jovem a recém-criada Diocese de Baturité.

O papa Leão XIV, na sua solicitude pela evangelização e salvação das almas, acatou o pedido dos Bispos do Ceará, unidos ao Arcebispo Metropolitano, de erigir mais uma nova Diocese do Estado que concentra a segunda maior população católica do Brasil. Encravada no maciço de Baturité e em partes do Sertão Central, a nova Diocese nasce com 21 Paróquias, em 14 municípios, sob a guia de um Sucessor dos Apóstolos, Dom Luís Gonzaga Pepeu.

Além da grande devoção à Nossa Senhora da Palma e São Francisco das Chagas, a Diocese também abraça a devoção e causa de canonização da Serva de Deus Irmã Clemência de Oliveira. Sem dúvida, essas devoções são sinais maravilhosos da presença da fé católica e do espírito missionário nas terras da nova Diocese.

Baturité significa “serra verdadeira” ou “de onde sai água boa”. Na serra ou no sertão muitas águas boas jorrarão: águas da graça divina que continuarão a percorrer os vales e rincões, dando esperança em tempos de dificuldades, para um povo que sempre pôs sua fé na Providência divina.

Pelo território da Diocese muitos já passaram, dando suas melhores forças até chegar a esse dia histórico: jesuítas, capuchinhos, frades menores, padres diocesanos, religiosas, fiéis leigos, que em conformidade com o Evangelho foram audazes na difusão da obra de Deus e no ensino da fé cristã. Baturité é a primeira Diocese brasileira criada por Leão XIV, fato histórico não só para o Ceará, mas para todo o Brasil. Viva a Diocese de Baturité!

(*) Sacerdote diocesano de Fortaleza. Missionário da Misericórdia.

Fonte: O Povo, de 25/03/2026. Opinião. p.16.


sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Campanha da Fraternidade 2026 é lançada e abordará moradia como direito fundamental

Por Luíza Vieira, jornalista de O Povo.

Com o tema “Fraternidade e Moradia: Ele veio morar entre nós”, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou a Campanha da Fraternidade 2026, nessa quarta-feira, 18.

Escolhido ainda em 2025, o tema da Campanha da Fraternidade 2026 propõe uma reflexão sobre os desafios da moradia no Brasil, chamando atenção para problemas como desigualdade social, insegurança fundiária e os processos de exclusão que atingem milhões de pessoas no País.

Em coletiva de imprensa, realizada na tarde desta quinta-feira, 19, no Centro de Pastoral “Maria, Mãe da Igreja”, no Centro de Fortaleza, a palavra "dignidade" ganhou destaque na mesa de honra, composta pelo arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão; pela juíza federal Paula Emília Moura Aragão; pela promotora de Justiça do Ministério Público do Estado do Ceará Giovana de Melo Araújo; e pela assistente social e socióloga, Patrícia Amorim Teixeira.

Gregório explicou que o déficit habitacional precisa ser enfrentado com prioridade para que a pauta não volte a ser recorrente em futuras edições da campanha. Segundo ele, é fundamental que a Igreja também cobre das autoridades medidas efetivas para garantir o direito à moradia digna.

"Finalmente, a gente teria condições de dar dignidade (às pessoas), seja na construção de grandes conjuntos habitacionais, ou seja, através de tantas outras coisas para que a gente tenha essa dignidade resgatada", afirmou o arcebispo.

A promotora Giovana de Melo Araújo enfatizou que, para que as pessoas tenham moradias adequadas, é necessário haver regularizações urbanas e fundiárias. "Por isso, a gente fala em pessoas em situação de rua e pessoas em superação de rua, porque é um processo que precisa ser acompanhado por várias equipes para que a gente consolide esta moradia", pontuou.

Déficit habitacional

O Ceará tem um déficit habitacional estimado em cerca de 227 mil unidades. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), referentes a 2025, há 213 mil imóveis de uso ocasional no Ceará. Os imóveis ocasionais são propriedades de uso não contínuo, ou seja, locais habitados esporadicamente, como casas de praia, sítios, apartamentos de veraneio ou imóveis utilizados apenas durante viagens de negócios.

O arcebispo de Fortaleza informou que, durante a campanha, as paróquias da Capital estarão mobilizadas a promover ações em áreas onde vivem pessoas em situação de vulnerabilidade habitacional, garantindo que iniciativas de apoio, orientação e acolhimento cheguem diretamente a quem mais precisa.

"Estamos mais atentos em todas as paróquias, buscando encontrar locais onde podemos sugerir que pessoas atualmente com dificuldade de moradia ou então em situação de vulnerabilidade possam ser acolhidas", acrescentou.

A campanha da fraternidade é uma iniciativa anual da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) realizada durante a Quaresma. O objetivo é despertar a solidariedade, promover a conversão pessoal e comunitária, e debater temas sociais relevantes, propondo ações concretas e transformadoras para a sociedade.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/02/26. Farol. p.2.

domingo, 8 de fevereiro de 2026

Dom Antonio Carlos do Nascimento: um bispo segundo o coração de Deus

Por Pe. Raimundo Neto (*)

Conheço padre Antonio Carlos, hoje dom Antonio Carlos, desde que ele era seminarista. Sua família morava na Paróquia de São Vicente de Paulo, no bairro Dionísio Torres, e ele foi acolhido pelo meu antecessor, padre Mariano Rocha Matos (in memoriam), e por mim também.

Dom Antonio Carlos, bispo auxiliar da Arquidiocese de Fortaleza, é um homem marcado pela simplicidade e humildade, de voz pausada e mansa, sem perder a galhardia de um “gentleman”. Possui trato fino com os colegas sacerdotes e proximidade com os leigos. Indubitavelmente, foi esse um dos motivos pelos quais foi escolhido bispo de nossa Igreja Católica Romana. Formado em Direito Canônico e exercendo suas funções no Tribunal Eclesiástico com competência e acolhimento, nunca foi sabujo de ninguém a fim de receber prestígios ou galgar alto posto na hierarquia da Igreja. Tornou-se bispo pelo chamado de Deus e de sua vontade.

Com a ordenação de um bispo, a Igreja renasce e se configura sempre de novo, assegurando a sucessão apostólica ininterrupta, desde os primeiros discípulos de Jesus. É bom saber que o episcopado não é um carreirismo, uma honraria, mas um serviço que nasce da amizade com Cristo. “Já não vos chamo de servos, mas amigos” (João 15,15). O ministério confiado aos bispos é um serviço ao Amigo (Jesus), é a doação da vida por amor. Por isso, o episcopado é um caminho de entrega, sacrifício, cruz e oferta da vida. A centralidade de si mesmo e o destaque precisam desaparecer para que Cristo, seu Evangelho e os mais humildes estejam no centro.

Devemos olhar para o bispo com o olhar da fé, ou seja, da visão teológica. E o que o olhar da fé diz sobre o nosso bispo auxiliar, dom Antonio Carlos? Ele é um enviado de Deus, “bendito o que vem em nome do Senhor” (Mateus 21,9). É um sucessor dos doze apóstolos. É o mestre da fé, da doutrina e do culto sagrado. É aquele que, à semelhança de Jesus, lava os pés de seus discípulos (João 13,16). É o servidor do Evangelho. É aquele que está em comunhão com o Colégio Episcopal e com o Romano Pontífice, o papa. É um irmão, pai e amigo. É chamado a viver a espiritualidade de Marta e Maria (Lucas 10,38). Por fim, é aquele que recebeu o múnus de santificar, ensinar e governar.

Dom Antonio Carlos, Sua Excelência, revestido da autoridade de Cristo, é o arauto da fé, doutor autêntico da fé apostólica. Receba de seus irmãos padres as mais expressivas boas-vindas. Que Deus lhe dê o discernimento e a paresia para enfrentar as borrascas que o mundo contemporâneo nos apresenta. O multilateralismo, as polarizações, as inversões axiológicas, ou seja, a perda dos valores, que são desafios da nossa sociedade moderna, sejam combatidos pelo seu ministério episcopal.

Que o Senhor Jesus o abençoe e o faça um pastor segundo o coração de Deus.

(*) Sacerdote. Vigário paroquial da Paróquia de São Vicente de Paulo.

Fonte: O Povo, de 4/02/2026. Opinião. p.15.

quarta-feira, 8 de outubro de 2025

Igreja São Francisco de Assis celebra conclusão de obra após 81 anos

Por Gabriela Félix (*)

Às margens da praia da Leste Oeste, em Fortaleza, ergue-se a imponente Igreja Matriz de São Francisco de Assis de Jacarecanga. O templo guarda nas paredes a história de uma obra que vai além da fé. Após 81 anos, a entrega da construção do santuário será celebrada com uma missa a ser celebrada hoje, 3, a partir das 18 horas.

Inaugurada no Ano Jubilar da Esperança, a paróquia contará com uma escultura de São Francisco de Assis, medindo mais de sete metros e pesando cerca de três toneladas. A obra, assinada pelo artista plástico e escultor Edismar Arruda, ficou pronta em nove meses.

A ideia inicial da imagem surgiu do padre Francisco Bezerra do Carmo e do arcebispo de Fortaleza, dom Gregório Paixão. Descartando a sugestão primária da escultura ser feita de bronze, optou-se por materiais recicláveis.

A escolha pela sucata de aço reciclável, segundo conta Arruda, alinhou-se à figura de São Francisco, Patrono da Ecologia: "Consegui fazer essa escultura com todas as ferramentas que eu tinha, mas só usei duas: a fé e a coragem".

Vizinha da paróquia e frequentadora do templo desde os oito anos de idade, a assistente social Ione Arruda, 69, conta que a finalização da obra representa um sentimento de segurança e pertencimento. Ela descreve o monumento como um refúgio que reforça a sensação de estarem "na casa de Deus".

Para ela, a entrega da construção é vista como a realização de um sonho longamente esperado pelos moradores, tanto os atuais quanto os antigos que já faleceram e não tiveram a oportunidade de vê-la pronta: "Faltava o teto, embora romanticamente tinha o teto do céu, com as estrelas e a lua quando ela assim permitia. Mas, agora sim é um lugar que acolhe muita gente e as pessoas se surpreendem ao ver a altura dela e a largura".

Ainda entre escombros, o santuário abrigou sonhos, famílias e a memória de uma comunidade. Em entrevista ao O POVO, o pároco Francisco Bezerra do Carmo rememora a história do edifício.

Desvinculada da Paróquia do Patrocínio, a Paróquia de São Francisco de Assis (Jacarecanga) foi instalada oficialmente com a posse, aos 6 de fevereiro de 1944, do padre Abelardo Ferreira Lima.

Apesar disso, foi somente no ano de 1952 que teve início a construção efetiva da obra, liderada por monsenhor Hélio Campos, que era pároco do Pirambu e dava assistência à região, permanecendo no pastoreio até 1958.

Sem teto, a estrutura da paróquia permaneceu inacabada por décadas. A exposição contínua ao sol, à chuva e à maresia comprometeu a infraestrutura do local. Apesar disso, o espaço se tornou morada para oito famílias, que residiram no prédio inacabado durante 18 anos. Todas posteriormente foram cadastradas e receberam moradias por meio do programa Minha Casa, Minha Vida, mudando-se para um condomínio na avenida Francisco Sá.

A chegada do padre Bezerra à paróquia se deu no ano de 2007 para auxiliar os trabalhos de padre Mirton, que se encontrava com a saúde debilitada.

"São Francisco, patrono da ecologia, da natureza, nos ajudou esses anos todos a preservar esse ambiente e somar forças para poder fazer hoje o término dessas obras. O equipamento que a gente está apresentando, entregando à comunidade, é um marco na fé, não só do povo do Jacarecanga, mas de toda a Cidade, de todos aqueles que passam aqui e contemplam esta obra", celebra o pároco.

Em 2010, a igreja ainda estava sem teto. Nesta época, o padre Bezerra solicitou um laudo da Defesa Civil e do Corpo de Bombeiros sobre a situação estrutural do prédio. O relatório mostrou que os danos na infraestrutura representavam riscos.

A construção maior teve início em 2014. Padre Bezerra conta que foi necessário refazer todas as bases da estrutura e somente no ano de 2018 o teto foi finalmente instalado.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: O Povo, de 3/10/2025. Cidades. p.17.

domingo, 5 de outubro de 2025

A INCONCLUSA IGREJA DE SÃO FRANCISCO EM FORTALEZA

Na época do Governo JK, final dos anos cinquenta do século XX, habitantes do bairro Jacarecanga e seus arrebaldes, em Fortaleza, estavam nitidamente motivados para erguer uma Casa de Deus, em substituição à pequena Igreja de Nossa Senhora dos Navegantes, um templo já sobejamente exíguo para comportar o considerável afluxo de devotos que a demandavam.

Existia um esforço conjunto, com larga participação de paroquianos, englobando atividades para captação de doações, afora outras ações para obter recursos financeiros, a exemplo de quermesses, leilões e vendas de brindes variados (lápis, borrachas, cadernos e outros apetrechos), que anunciavam o lema da campanha “Em prol da construção da Igreja de São Francisco de Assis”.

O trabalho coletivo de tantos não foi, porém, suficiente para soerguer a imponente construção, que findou em fincados alicerces, com um piso alto, a amparar as grossas paredes, sem a coberta, e submissa às agressões do ambiente, persistindo, há muito tempo, como uma obra inconclusa, a desafiar o indômito e impetuoso arrojo da gente cearense.

Presentemente, dessa obra de engenharia, a única estrutura acabada, e em uso, é a capela dedicada à Santa Edwirges, recepcionando, humildemente, os devedores de estratos mais pobres, que supinam por graças e migalhas, para sanar seus débitos, porquanto aqueles de maiores posses, embora “aprisionados” nas dívidas contraídas, são melhor recebidos numa igreja, em suas cercanias, do lado contrário, na mesma Avenida Leste Oeste, templo também sob a tutela da padroeira universal dos hipotecados de todas as classes sociais.

Uma conjunção de causas contribuiu para aniquilar a intenção da comunidade de dispor desse prédio sacro: o declínio social e econômico do Jacarecanga; o avanço do mar, engolindo várias ruas; a redução relativa do contingente católico da capital cearense; o aparecimento de igrejas católicas nos bairros vizinhos; a secularização pós-modernidade, com a laicização da sociedade; a carência de líderes paroquianos interessados e compromissados com o empreendimento; e a prioridade da Arquidiocese de Fortaleza em terminar a construção da catedral metropolita.

Por oportuno, cabe prantear a não-canalização do propósito comunitário, depois da inauguração da catedral, para concluir a majestosa Igreja de São Francisco de Assis, em Jacarecanga, tão acalentada pelo Padre Hélio Campos, o apóstolo do Pirambu, da Fortaleza da década de sessenta; decorridas mais de quatro décadas de paralisação, a nossa Massadah aguarda, com paciência e resignação, que as lideranças católicas, em parceria com o povo fortalezense, reativem a obra.

Avistada por terra, pelos que circulam pela Avenida Castelo Branco (a Leste-Oeste), em toda a sua extensão, até à Barra do Ceará; por mar, pelas embarcações, que tangenciam nossas belas praias; e pelos ares, quando da aterrissagem de aeroplanos, essa igreja, se retomada a sua obra, seria um bastião diferenciado, pois, em vez de canhoneiras ameaçadoras, do Forte que simboliza essa cidade, ter-se-ia São Francisco, de braços abertos e aconchegantes, espargindo, dos estigmas puntiformes de suas mãos, as graças hospitaleiras da Paz de Cristo.

Prof. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Médico e economista em Fortaleza

 * Nota: Publicado originalmente In: SOBRAMES – CEARÁ. Inspiração. Fortaleza: Expressão, 2006. 130p. p.104-6.

Referência: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. A inconclusa Igreja de São Francisco em Fortaleza. In: SOBRAMES – CEARÁ. Inspiração. Fortaleza: Expressão, 2006. 130p. p.104-6. (Antologia da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores – Regional Ceará).


sábado, 19 de julho de 2025

Leão XIV chega para renovar caminhos

Por Roberto Macedo (*)

No meu artigo mais recente (12/05), expressei a expectativa de que o Papa Francisco fosse substituído por alguém capaz de seguir o tempo da sua fé; uma fé renovadora da Igreja pela convocação de católicos e cristãos em geral para estarem mais próximos e atuarem fundamentados no amor, o primado de Cristo na sua vida terrena.

Em uma eleição, que foi a mais rápida no último século, tivemos a atuação direta do Espírito Santo na escolha do cardeal Robert Prevost para dirigir a Igreja nos próximos anos.

A rapidez com que ele se definiu como Leão XIV, revela também o quanto estava inspirado e pronto para a nova função, expressando o que já era e fundamentado na Encíclica Rerum Novarum (Das Coisas Novas) do papa Leão XIII, que aborda questões econômicas e defende justiça social, dignidade do trabalhador e a necessidade de salários justos.

Originário dos Estados Unidos, nas últimas duas décadas Prevost dedicou-se a um país latino-americano, o Peru. Nasceu com o coração voltado para a difusão do amor de Deus a todos os humanos, independentemente de religião. Com palavras simples, o novo papa vem buscando, desde o primeiro instante em que assumiu, se fazer entender nos seus pensamentos, argumentos e ações.

Resumiria suas qualidades em uma palavra: Renovador. Leão XIV é essencialmente renovador. Pela profundidade do conhecimento que tem da complexa estrutura da Igreja, ele já iniciou o aprimoramento da sua governança, colocando responsáveis em áreas de grande importância para fazerem a renovação juntamente com ele.

A difícil situação do mundo contemporâneo requer mesmo um líder espiritual que seja respeitado o suficiente para influenciar os dirigentes mundiais, bem como a toda a humanidade, de maneira que cada um possa respeitar o outro e se fazer respeitar na construção de uma vida em harmonia, com menos egoísmo e mais sensibilidade para entender e lidar com as diferenças humanas.

Graças ao amor de Deus pela humanidade, estamos felizes com a chegada do papa Leão XIV. Com ele, podemos alimentar nossas esperanças pela renovação dos caminhos ue nos levem a um mundo melhor.

(*) Empresário.

Fonte: O Povo, de 9/06/2025. Opinião. p.18.

domingo, 15 de junho de 2025

O PAPA (LATINO) AMERICANO

Por Nathana Garcez (*)

No início de maio, o conclave composto por 133 cardeais surpreendeu o mundo ao eleger Robert Francis Prevost como o novo papa, tornando-o o primeiro pontífice estadunidense da Igreja Católica. A eleição do papa Leão XIV, nome adotado pelo cardeal Prevost, marcou uma decisão estratégica sobre os rumos futuros de uma das instituições mais influentes do planeta.

Nascido nos Estados Unidos, o cardeal era considerado como uma opção pouco viável para o colégio eleitoral do Vaticano em razão do histórico afastamento entre os EUA e a Igreja Católica. Contudo, não foi o que ocorreu e, logo após a revelação do novo papa, pairaram nas redes certas apreensões: o que um papa estadunidense significaria para a Igreja Católica e para o mundo? As reformas de Francisco e sua mensagem mais progressista seriam mantidas? E mais: como essa escolha dialogaria com um cenário político global cada vez mais tenso devido às políticas disruptivas do governo Trump?

As respostas para tais perguntas começaram a emergir rapidamente. Já em seu primeiro discurso enquanto papa, Leão XIV ressaltou - direta e indiretamente - seus princípios e objetivos. Com frases em espanhol, o papa atenuou a preocupação de parte dos católicos sobre um possível "americanocentrismo", destacando sua relação com a América Latina, região onde morou por décadas e onde adquiriu a cidadania peruana. Também em seu discurso, o papa Leão XIV esclareceu que pretendia conduzir a Igreja de modo a dar continuidade ao legado do falecido Papa Francisco, reforçando reformas internas já iniciadas e intensificando o papel da instituição como mediadora de diálogos e promotora da defesa dos mais pobres.

Sua trajetória parece de fato apontar nessa direção. Ainda que não pareça possuir um perfil essencialmente liberal devido ao suposto acobertamento de agressões sexuais de padres no Peru e de declarações passadas sobre temas como eutanásia, aborto e homossexualidade, o papa tem historicamente promovido os direitos dos povos refugiados, advogado por justiça climática e por melhores políticas migratórias nos Estados Unidos.

Aliás, quanto ao governo Trump, cabe destacar que a eleição do novo papa deve marcar um novo tensionamento nas relações entre Vaticano e os EUA. Em entrevista ainda no fim de abril, o ex-assessor de Trump, Steve Bannon, refletiu sobre o conclave e concluiu acertadamente sobre a possibilidade de eleição de Leão XIV. No entanto, sua mensagem foi de pessimismo, destacando o perfil considerado extremamente progressista do cardeal.

Em que pese os prováveis atritos com os EUA, a escolha do colégio de cardeais parece revelar um cálculo estratégico: a Igreja buscou um perfil que pudesse consolidar as mudanças institucionais recentes, mas também projetar uma liderança capaz de navegar entre polarizações. Leão XIV, com sua dupla-nacionalidade, é o reflexo direto desse interesse pelo fortalecimento a passos sutis da Igreja Católica. Resta agora esperar para ver os resultados de tal estratégia.

(*) Doutoranda em Relações Internacionais e mestre em Economia Política Internacional.

Fonte: O Povo, de 18/05/2025. Opinião. p.20.


domingo, 11 de maio de 2025

O Papa se retira ou uma Igreja em saída?

Por Samuel Carvalheira de Maupeou (*)

Ainda sob o impacto da morte recente do Papa Francisco, fica a reflexão sobre sua passagem não tão longa como pontífice e os horizontes que se desenham para a Igreja Católica. Um ponto que chamou a atenção foi a ênfase que promoveu na desinstitucionalização, descamando ritos seculares e priorizando posicionamentos de teor mais humanitário e até certo ponto engajado, sem, no entanto, contestar dogmas mais inegociáveis e intangíveis da doutrina cristã.

Pregou uma Igreja itinerante e fronteiriça, globalmente conectada e responsiva, fora do claustro. Uma instituição, portanto, permanentemente em crise, porque justamente não é única, mas plural e multifacetada, equilibrando-se ou esguiando-se entre uma inserção por vezes tímida na sociedade e um zelo permanente pelos seus preceitos curiais.

Uma Igreja ainda intramuros, com ligeiros ensaios em frestas abertas para o lado de fora. Francisco foi uma delas, com alguns discursos e posicionamentos enfáticos, destoantes e dissonantes, mas ainda alicerçado numa instituição masculina, branca e doutrinária. Esta mesma onde não se faz presente, a não ser em traços tênues, a ruptura e a desritualização, mas o rigor e o cerimonial.

A Igreja dos pobres e marginalizados não é a sua tônica e está muito mais nas suas franjas e em grupos minoritários do que no seu interior. Sendo assim, volto à pergunta: um Papa que se retira ou uma Igreja em saída? Só o tempo dirá... Apostaria que o Papa se retirou... O peso da tradição prevalecerá e manterá pequenas portinholas de descompressão e contestação, nada que faça frente à moderação e ao comedimento.

A permanência e a prudência como palavras mestras e norteadoras de sentidos e de práticas! Introspecção e endogenia, com aberturas calculadas e de certo modo vigiadas! As estruturas se moldam e se adaptam, numa oscilação temerosa, desconfiada e sem grandes abalos sísmicos, sem grandes reestruturações. Uma espécie de Revolução Francesa que plana tão alto que não abala a superfície terrena, um plano de fundo que não destoa e não compete com o eixo central.

O Papa saiu, mas a instituição permanece, porque ela traduz a segurança e a estabilidade, celebrando até a ousadia, mas santificando mesmo apenas os fiéis cumpridores do seu dever e do que lhes cabe.

(*) Professor da Universidade Estadual do Ceará e membro do Laboratório de História das Religiões da Uece.

Fonte: O Povo, de 3/05/2025. Opinião. p.19.


sábado, 10 de maio de 2025

FRANCISCO: O Evangelho em movimento

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

O pontificado de Francisco tem sido uma convocação profunda à essência do Evangelho. Seu legado se desenha como um retorno às raízes da fé cristã, despojado de formalismos e erguido sobre a ternura, a justiça, a simplicidade e a escuta sincera. Ele não reformou apenas estruturas — reformou a linguagem, os gestos, os símbolos e a própria maneira de a Igreja estar no mundo.

A opção preferencial pelos pobres deixou de ser apenas discurso e tornou-se prática concreta e cotidiana. Francisco desceu do trono simbólico do papado e caminhou entre os que sofrem, acolhendo migrantes, visitando periferias, tocando feridas humanas com misericórdia e compaixão. Sob sua liderança, a Igreja passou a respirar o ar puro da ternura evangélica, reencontrando o centro vivo da fé: Deus é amor que se inclina, que cuida, que serve, que levanta.

Sua teologia pastoral é marcada pelo discernimento, pela escuta dos sinais dos tempos e pelo diálogo honesto com o mundo contemporâneo — elementos profundamente enraizados na espiritualidade inaciana. Francisco abriu as portas do Sínodo, fortaleceu a cultura da escuta, do encontro, da sinodalidade e da corresponsabilidade, desafiando a Igreja a abandonar toda autorreferência estéril. Como bom pastor, guia sem impor, inclui sem excluir, ama sem medida e sem reservas.

É também o Papa da ecologia integral, da fraternidade universal, do cuidado com a casa comum e com a vida em todas as suas expressões. Encíclicas como Laudate Si e Fratelli Tutti não apenas orientam a caminhada da fé, mas exigem uma profunda conversão do coração, da consciência e das estruturas sociais, aproximando a doutrina da carne concreta da existência humana.

Na história do papado, Francisco ocupa um lugar absolutamente singular: o primeiro jesuíta, o primeiro latino-americano, o primeiro a tomar o nome de Francisco — e talvez o primeiro, em séculos, a fazer do papado um espelho nítido da vida de Jesus. Seu legado é a memória viva de um Cristo que se fez próximo. E isso, na história da Igreja, é verdadeiramente revolucionário.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 26/04/2025. Opinião. p.18.

sábado, 26 de abril de 2025

Papa Francisco e o olhar para o outro

Por Pe. Francisco Alexandre Alves de Andrade (*)

O que esperar de um papa em tempos de indiferenças, preconceitos, ansiedades e medos? Talvez a pergunta pareça retórica, mas o que o mundo, mesmo aqueles que não são católicos, espera do sucessor de Pedro? O mundo sempre espera que ele seja um sinal, aponte para uma direção, um caminho.

O papa Francisco, como aquele que anuncia a Verdade, revelou-nos que o nosso olhar deveria erguer-se para ver além, muito mais além. Isso não como algo distante ou um ideal vazio, mas uma realidade objetiva: o outro. Mas quem seria esse outro? O evangelho de Mateus 25 nos diz: "Pois tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me acolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me".

Este olhar para o outro fez-se história. Um dos muitos feitos do pontificado do papa Francisco que ilustram a grandeza e a consciência de sua missão voltada ao outro foi sua visita ao Aiatolá xiita Ali al-Sistani, na periferia da cidade de Najaf, sul do Iraque, em 6 de março de 2021. Enquanto bispo de Roma e sucessor do Apóstolo Pedro, consciente de seu dever apostólico, o papa foi a uma das zonas mais perigosas do mundo, pôs sua vida em risco e se encontrou com a grande autoridade espiritual e política do Iraque (pós-invasão dos EUA) para suplicar em favor da minoria cristã perseguida e das outras minorias religiosas presentes no território iraquiano.

Ele advogou em favor de uma Igreja Mártir e, consciente da universalidade da sua missão, interveio também por homens e mulheres de boa vontade que, mesmo não professando a fé cristã, são amados por Deus. Esta é a eloquência da vida que nada quer para si se não for antes toda para o outro. Não seria esse o caminho para a paz interior e exterior da humanidade? Não seria este o grande testemunho, verdadeiramente revolucionário, que o papa nos deixa?

O olhar de amor e misericórdia para o outro pode salvar a humanidade, pode curar os corações feridos em suas existências, pode nos levar à paz. Assim ensinou-nos Francisco: nada para mim, tudo para o outro. Que o mundo creia nesse testemunho dessa vida.

(*) Sacerdote católico da Arquidiocese de Fortaleza.

Fonte: O Povo, de 23/04/2025. Opinião. p.18.

FRANCISCO: O Papa Livre

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Poder-se-ia começar essas linhas perguntando: será que existe alguém que tenha sido livre, ou seja, livre?

A primeira coisa que surge na mente como resposta é: não, principalmente nesse mundo de globalização em que o consumo é que dita o nosso comportamento, especialmente no mundo ocidental.

Entretanto o Papa Francisco é livre. Poder-se-ia então perguntar: como pode um papa ser livre, se tem que seguir os trâmites protocolares de sua posição enquanto papa que obedece a rituais religiosos, rigores de Governo e Estado?

Papa Francisco, entretanto, é filosoficamente livre, e expressa isso muito bem, seja nas suas expressões faciais, comportamentais ou pelo uso da palavra.

Transpirou autenticidade quando sem medo se expos ao risco que as multidões imprimem principalmente se reprimidas: passou de carro aberto (janela abaixada) em frente à Central do Brasil, numa hora de muito movimento. Qual celebridade ou milionário passaria por ali senão em carro blindado, com vidros escuros e seus seguranças ao lado?

Demostrou santidade quando se pôs como ser humano livre: vestes simples, sem galões; alimentou-se do trivial; visitou uma casa simples, manifestou desejo de compartilhar da simplicidade referindo-se ao acolhimento com água fresca e cafezinho; abraçou calorosamente um droga–adicto, sem preconceito.

Seus olhos apertados e sorriso na face falavam de sua alegria, quando junto do povo. Quando os arregalava dizia de sua admiração, espanto, ora pelo belo, ora pela palavra de algum locutor também autêntico. E assim se mostrou livre nos sentimentos e emoções.

Visitou pessoas, abraçou quando desejou abraçar, falou o que quis dizer: essencialmente convocou Deus e expôs seus desejos em prol de todos.

Com desembaraço exibiu atitudes que mudam realidades, e para cada realidade que abordou apresentou o sentido da mudança, ou o que se pode chamar de fé.

O Papa Francisco deu a entender que se encontra em um grande processo em que se aprofunda e refina os atos de fé que lhes guia rumo a Deus.

Pediu humildemente oração para si, porque se sente humano e, portanto, capaz de falhar como tal, por isso precisa da força da oração.

A filosofia franciscana está com o Papa Francisco, adaptada aos tempos de hoje: o aceitar Deus, aventurar-se aos seus chamamentos e desafios, permitir que Deus penetre na sua vida que foi o que Francisco de Assis fez durante o processo de transformação durante toda sua existência (Daniel Spoto, em Francisco de Assis – O Santo Relutante).

Na despedida o Papa Francisco manteve-se livre quando disse que estava sentindo saudades de todos, dos atos que praticou e recebeu, como a estupenda acolhida do povo brasileiro ao seu chamamento.  Foi embora maravilhado.

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 5/08/2013. Opinião.

Nota do Editor:

Bom dia Marcelo

Se gostar, peço que poste esse artigo nas suas midias sociais!

Obrigada!

Márcia Alcântara

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Morre Padre Zé Linhares, ex-deputado federal

Morreu nesta quarta-feira, 8/01, o ex-deputado federal Padre Zé Linhares. Ele se recuperava de uma queda e estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Em 1991, foi eleito deputado federal pelo PSDB, cargo que desempenhou pelo Partido Progressista (PP), onde foi presidente de honra por alguns anos.

Ele também foi presidente do Conselho Estadual de Educação do Ceará (CEE) entre 2015 e 2019. Diversas autoridades da política cearense lamentaram a morte do ex-deputado. O governador do Ceará, Elmano de Freitas (PT), escreveu que recebeu "com muito pesar a notícia da morte do ex-deputado federal Padre Zé Linhares". "Natural de Sobral, ele ocupou também o cargo de presidente do Conselho Estadual de Educação, do Governo do Ceará, entre 2015 e 2019. Que Deus conforte o coração de todos os familiares e amigos", disse.

O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), também se solidarizou com a morte. "Além do sacerdócio e da intensa atuação política, foi filósofo, professor, provedor-geral da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, Conselheiro Estadual de Educação (2015-2019) e presidente de honra do Progressistas no Ceará. Meus sentimentos aos familiares, amigos e admiradores", lembrou o prefeito. (Júlia Duarte)

Fonte: O Povo, de 9/01/2025.

terça-feira, 8 de outubro de 2024

8/10: Centenário do nascimento de Dom Aloísio Lorsheider

Dom Aloísio Lorscheider, cardeal, é filho de Jose Aloysio Lorscheider e de Verônica Gerhard Lorscheider. Nasceu em Linha Geraldo, município de estrela, no Estado do Rio Grande do Sul, em 8 de outubro de 1924.

Foi ordenado sacerdote a 22 de agosto de 1948.

No dia 3 de fevereiro de 1962, o Papa João XXIII nomeou-o bispo de Santo Ângelo, no Rio Grande do Sul. Recebeu a ordenação episcopal a 20 de maio do mesmo ano.

Foi membro da Comissão Teológica da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, e depois primeiro Secretário da mesma Conferência até ser eleito Presidente.

Em 1973 Paulo VI o promoveu à sede arquidiocesana de Fortaleza. Nesta Arquidiocese, dom Aloísio Lorscheider continuou a sua missão pastoral já com notáveis frutos em Santo Ângelo. Dedicou particular atenção ao clero, no qual procurou desenvolver um profundo sentido de comunhão eclesial e um singular impulso apostólico.

No fim de 1972, no decurso da XIV Assembleia do CELAM foi eleito Vice-presidente deste organismo, sucedendo pouco depois a Dom Eduardo Pironio, na Presidência do órgão.

Presidiu em 1979 o Encontro dos Bispos da América Latina em Puebla-México.

Foi criado e publicado cardeal no consistório de 24 de abril de 1976 por S.S. o Papa Paulo VI – Presbítero do Título de São Pedro “in Montorio”, e como tal, tomou parte nos dois conclaves que elegeram papas, respectivamente suas Santidades João Paulo I e João Paulo II.

Foi transferido para a Arquidiocese de Aparecida do Norte em 1995.

Em 28 de janeiro de 2004, recebeu a notícia da aceitação de sua renúncia e em 25 de março do mesmo ano entregou a arquidiocese para dom Raymundo Damasceno Assis, tornando-se, assim, arcebispo emérito de Aparecida.

Faleceu às 5h30min, do dia 23 de dezembro de 2007, no Hospital São Francisco, em Porto Alegre.

Fonte: Arquidiocese de Fortaleza. Pastoral de Comunicação, em 8/10/2024.

domingo, 25 de agosto de 2024

EXPERIÊNCIA DE CONSOLAÇÃO

Por Pe. Eugênio Pacelli SJ (*)

Há quatro anos, estávamos em plena pandemia. A Igreja mostrava seu rosto divino e misericordioso na modalidade "Igreja doméstica". O deslocamento do templo para a casa representou uma fantástica oportunidade de reencontrar sua fonte mais pura e suas origens mais genuínas.

Antes de ser templo, a Igreja foi casa. A casa e a família sempre foram igrejas primeiras, onde se primeiro recebia o leite e a fé. A pandemia do coronavírus nos trouxe de volta para casa, espaço onde a família se reúne, conversa, briga, chora, pede perdão, se arrepende, ri, vê televisão, entre inúmeras outras vivências, e claro, celebra da fé - essa é nossa Igreja doméstica.

Fazendo uma retrospectiva dos últimos quatro anos, penso na quantidade de benefícios que recebemos. Há quanto tempo não rezávamos juntos em família? Cada um na sua casa e Deus na casa de todos. Encontramos novos caminhos para mostrar a Igreja viva, mais presente em novas formas na missão de servir e acompanhar espiritualmente seus filhos em momentos difíceis.

Considero que, apesar das dores e tristezas que vivemos, a fé da Igreja doméstica nunca esteve tão viva e tão forte. O amor de Deus nos unia, consolava e amadurecia. Deus estava ali, o tempo todo. Eu vivi um momento totalmente novo e inusitado, a partir das orientações da Arquidiocese, começamos a refletir sobre como transmitir a eucarística pelas redes sociais. Escrevi, publiquei um livro, orei, celebrei (inclusive, inúmeras missas de sétimo dia online), dei unção nos leitos de morte e experimentei as pegadas da Misericórdia neste tempo.

Tínhamos a preocupação de não deixar o povo sem o consolo da Palavra de Deus. Há uma frase do poeta português Fernando Pessoa que sempre me inspira: "Deus quer, o homem sonha, a obra nasce". Ao sintonizar o nosso sonho com o desejo de Deus, o milagre acontece. Começamos a pedir a Deus que se fosse para a maior glória Dele e o bem das famílias, que Ele fosse iluminando e abrindo portas.

Assim, Deus fez: conduziu e abriu muitas portas. De repente, surgiu a oportunidade de uma Rádio FM, um canal de TV e o Instagram fazerem a transmissão, em plena pandemia. Confesso que se alguém cogitasse isso, nesse contexto, não acreditaria. Se: "O homem propõe e Deus dispõe".

Assim tem sido. Já seguimos há quatro anos, com as transmissões online. Uma experiência de consolação em proporcionar em tempos escuros momentos de alegria, fé, ânimo e esperança aos outros.

(*) Sacerdote jesuíta e mestre em Teologia. Escritor. Diretor do Mosteiro dos Jesuítas de Baturité e do Polo Santo Inácio. Fundador do Movimento Amare.

Fonte: O Povo, de 27/07/2024. Opinião. p.18.


segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Exposição comemorativa dos 94 anos da Igreja de Nossa Senhora das Dores

Estive anteontem à noite (16/09/2023) na Igreja de Nossa Senhora das Dores, no bairro Otávio Bonfim, onde participei da missa dominical e visitei a exposição comemorativa dos 94 anos do início da construção desse templo católico da capital cearense. Entre os objetos da exposição, constam três livros nossos relacionados ao bairro em que nasci e no qual vivi as minhas infância e adolescência.

Instalada no convento dos frades franciscanos menores, a Exposição permanecerá aberta ao público até o dia 20/09/2023 e se configura como um bom espaço para relembrar aos, hoje, octogenários e nonagenários, os saudosos “Anos Dourados” do tempo do Frei Teodoro Haerke, e aos, atualmente, sexagenários e septuagenários, os festivos “Anos Iluminados”, do tempo do Frei Lauro Schwarte,

Lamentei constatar que o espaço do antigo Cine Familiar, no qual funcionava, até recentemente, o Centro Pastoral Santa Clara da Paróquia de Nossa Senhora das Dores, no bairro Otávio Bonfim, foi alugado ao Corpo de Bombeiros que nele instalou uma creche.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva


segunda-feira, 28 de março de 2022

PADRE EUGÊNIO PACELLI: serenidade jesuíta, do pastoreio à gestão

 

Entrevista: Daniela Nogueira Fotógrafo: Aurélio Alves

Há um ano na direção do Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité, pároco planeja o centenário da casa, antiga Escola Apostólica. Ao O POVO, ele cita, de forma recorrente, o também jesuíta papa Francisco, quando reverbera as ações da "Igreja em saída" e admite que os padres precisam sair mais das sacristias e se aproximar do povo

Foi no dia 19 de março, no ano passado, que padre Eugênio Pacelli recebeu o convite para a missão que hoje desempenha – diretor do Mosteiro dos Jesuítas, em Baturité. O sacerdote passa a coordenar a imponente casa de pedra, de retiros e de acolhida que chega aos 100 anos neste 2022.

O menino Eugênio saiu da pequena Ibiapina, sua cidade natal na Serra da Ibiapaba, para estudar na Capital, no Colégio Santo Inácio, onde anos depois se tornaria diretor. Após sete anos entre a direção geral e a direção pastoral da escola, o sacerdote se dedica ao Mosteiro e ao Polo Universitário Santo Inácio. Admite que sempre ocupou funções de gestão, mas se realiza mesmo é no pastoreio, na condução do outro ao encontro com Deus e consigo.

Talvez por isso cultive com tanta alegria a celebração da Noite da Misericórdia, que chegava a arrebanhar 5 mil pessoas na quadra do colégio, às segundas-feiras, antes da pandemia. Recusa-se a dizer que seu nome atrai a multidão. As pessoas vão porque têm fome de Deus, afirma. Na manhã em que recebeu O POVO no Colégio Santo Inácio, padre Eugênio reitera seu carisma jesuíta quando diz da acolhida e do serviço ao próximo, indissociáveis para a prática da fé. Fala em pandemia, vacina e política, indispensáveis para o respeito à ciência.

Padre Eugênio, pioneiro em Fortaleza no abraço a casais em segunda união, não tem mais vagas para celebrar batizados e casamentos por todo este ano. Aqui, revela gostos e hábitos. Gosta de dormir até mais tarde nas folgas. Lê de Santo Agostinho a Leandro Karnal. Reconhece-se nos versos livres, doces e rurais de Cora Coralina. E torce pelo Fortaleza.

O POVO – Como o senhor se sentiu ao assumir a direção do Mosteiro?

Padre Eugênio Pacelli  Eu assumi no ano passado, no dia 19 de março. Fui destinado pelos meus superiores para dirigir aquela casa centenária. E sempre gosto de dizer que eu estou onde os meus superiores me enviarem. Na Companhia de Jesus, a gente faz um voto muito especial de obediência, e quem obedece nunca erra. E eu sempre me proponho a obedecer. Foi em plena pandemia que recebi o convite para ir para aquela casa. Depois de um tempo aqui, no Colégio santo Inácio, aceitei essa missão com muito carinho. Um padre e um irmão jesuítas foram comigo para esse grande desafio de preparar a casa para o centenário dela.

O POVO – Quais são as mudanças que o senhor já fez neste um ano no Mosteiro?

Padre Eugênio – Quando eu assumi, a primeira coisa que eu fiz foi conhecer melhor a história do Mosteiro, para saber melhor o terreno onde eu estava pisando. Descobri que aquele terreno é sagrado, tem muitas vidas doadas, muitas vidas entregues, de padres, irmãos e vizinhanças que passaram por ali e deixaram sua marca, seu legado na história. Quando assumi o Mosteiro, eu tinha três pilares para intensificar — o pilar da espiritualidade, uma casa que favorece a experiência com Deus através da espiritualidade inaciana, do contato com a natureza, consigo mesmo e com os outros, para encontrar Deus em todas as coisas e todas as coisas em Deus. O Mosteiro também é cultura. Ali nós temos obras de cultura que já não pertencem mais a ele, pertencem ao povo. E o povo tem direito de conhecer toda a cultura criada e celebrada naquele espaço. A gente está abrindo um museu, em que vamos contar toda a história do Mosteiro. E outro pilar muito importante é o social. Aquele mosteiro por muito tempo se caracterizou por ser um espaço de ação social. Os nossos padres e irmãos que moravam ali sempre se preocupavam porque uma fé sem ação concreta é falha. O Mosteiro tem esse chamado de ser uma casa aberta aos pobres, de modo especial às pessoas que moram ali ao redor — uma casa de acolhimento, de assistência social e de promoção humana e profissional.

O POVO – O Mosteiro está completando 100 anos neste 2022. O que já há programado?

Padre Eugênio – Toda a programação está sendo feita em cima desses três pilares: espiritual, cultural e social. Durante esse tempo vamos favorecer às pessoas que quiserem uma experiência dos exercícios espirituais de Santo Inácio. Vamos saborear essa experiência que Inácio deixou como legado. Vamos oferecer cursos de aprofundamento da espiritualidade inaciana, uma imersão no conceito fundamental do encontro com Deus e consigo mesmo. Na parte cultural, teremos exposições contando a história do Mosteiro, mostrando objetos artísticos e culturais que fazem parte do Mosteiro. E na dimensão social, faremos ações sociais de promoção humana para a população, como cursos profissionalizantes e cooperativas. Nossa finalidade é ajudar aquela população, não só dar alimento, mas favorecer o desenvolvimento profissional. Uma fé, para ser verdadeira, cristã, movimenta o coração, mas movimenta os pés e as mãos no acolhimento.

O POVO – Agora como fica sua relação com o Colégio Santo Inácio e com o Polo Universitário?

Padre Eugênio – Depois de 10 anos na Paróquia do Cristo Rei, eu fui destinado ao Santo Inácio, que estava numa situação muito complicada. Vim com a missão de fazer um distrato com a Marquise, tinha um distrato para ser feito em que o colégio teria que andar com os pés e mostrar sua identidade própria. Cumpri essa missão e estou com a consciência tranquila de que deixei o colégio um pouco melhor do que recebi. Passei quatro anos como diretor geral e uns três anos como diretor de pastoral. Quando terminei minha direção, sugeri à congregação que colocasse uma leiga aqui. A professora Albanisa Gomes foi essa leiga escolhida, a primeira mulher a dirigir o Colégio Santo Inácio. Vou ficar aqui somente nas celebrações aos domingos e na Noite da Misericórdia. Meu foco agora é o Mosteiro dos Jesuítas e intensificar o Polo Santo Inácio, que terá uma sede própria, ao lado do colégio, para mostrar essa educação universitária católica aqui em parceria com a Universidade Católica de Pernambuco e com a Universidade Católica de Quixadá.

O POVO – O senhor continua presidindo as missas no domingo à noite e às segundas-feiras. O que atrai tanta gente?

Padre Eugênio – O desejo de Deus, a fome de Deus, o desejo de encontrar um espaço em que as pessoas se encontrem consigo em silêncio para se encontrarem com Deus.

O POVO – O senhor admite que o nome do padre Eugênio atrai muita gente também?

Padre Eugênio – Eu não gostaria de centralizar no meu nome. Eu sou apenas um instrumento que favorece o despertar de Deus no coração das pessoas, porque o centro de tudo isso é Ele. Eu sou apenas aquele que indica o caminho. Mas a verdade, a vida, o alimento é sempre Ele. A gente aqui faz o acolhimento das pessoas no sentido de favorecer, no momento existencial em que elas estão, que elas sintam a força de Deus nelas. Há uma poetisa chilena que diz que, nos nossos momentos de dificuldade, há o despertar de uma energia tão grande que nos favorece vencer todas as nossas dificuldades. É isso. Dentro de cada um de nós existe essa força de Deus. Às vezes está obscurecida por tantas preocupações e inquietações. Quando a gente leva as pessoas a descobrirem isso, elas descobrem que “já não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim”.

O POVO – O senhor ouve muitas histórias e problemas dos outros. Como o senhor se cuida espiritualmente para lidar com tantas questões?

Padre Eugênio – Eu tenho também meus momentos de fragilidades, de angústia. Eu tive momentos de depressão. Nesses encontros, eu sempre descubro a força da oração, a força de ter pessoas ao seu lado que animam em você a esperança e fazem olhar para além. Diante dessa realidade que é esta pandemia, eu também sofri muito com aqueles que estavam sofrendo, rezei com aqueles que estavam rezando e, nesse tempo, eu sempre tomei consciência de uma coisa — como a fé é importante. A fé é uma luz que Deus acende em nossos corações para iluminar as nossas escuridões.

O POVO – O padre precisa estar fortalecido. O senhor reconhece sua fragilidade no meio disso tudo.

Padre Eugênio – O pessoal pensa que o padre é um extraterrestre. E não tem emoção, não tem sentimentos. Eu sou igual a vocês em tudo, até no pecado. O padre precisa desses cuidados, com a saúde, com a mente, com o coração, com a capacidade de sonhar, de despertar.

O POVO – Como a pandemia tem mexido com o senhor?

Essa pandemia nos deixou órfãos de pessoas que nós amamos, de empregos, de sonhos, de esperança. Foi um tempo em que entrei na consciência da minha missão como padre. Eu não poderia ficar sozinho naquele quarto sem levar um pouco de esperança, de sonhos e de Deus para as pessoas.

O POVO – O senhor continuou com as celebrações, mesmo virtuais.

Padre Eugênio – Nós não paramos. Todos os domingos nós transmitíamos, pelo Instagram, as celebrações. Tive oportunidade de escrever um livro em que eu retratei os momentos mais fortes e mais cruéis dessa realidade que nós passamos. Como o papa Francisco sempre pede: uma Igreja a caminho, em saída. Nós fechamos as igrejas-pedras e abrimos tantas igrejas-famílias. Muita gente descobriu o ser igreja, ser família dentro desse contexto de pandemia.

O POVO – A pandemia aproximou as pessoas de Deus ou aumentou a descrença no espiritual? Passou-se a se questionar a existência de Deus ou houve um fortalecimento da fé?

Padre Eugênio – A pandemia aprofundou a nossa fé. Eu não acredito num Deus que manda sofrimento, que manda pandemia. Deus é amor. E quando a gente ama, a gente nunca quer o mal e nunca favorece o mal para as pessoas. Mas Deus tira dessa realidade, que não depende de nós e não depende dele, situações de crescimento para a gente. Pessoas se revoltaram contra Deus, outras descobriram que sem Deus é difícil vencer e ficar de pé nesse contexto. Nós percebemos isso aqui na Noite da Misericórdia. Houve um aumento significante de pessoas que não tinham vivência religiosa, mas sentiram necessidade de despertar nelas a força de Deus. A pandemia mostrou a fragilidade que todos temos e como a vida é breve e tem que ser vivida com intensidade e leveza.

O POVO – O senhor se vacinou contra a Covid até a terceira dose?

Padre Eugênio – Sim e acredito na vacina. Acredito que, se tivéssemos sido vacinados antes, teríamos enfrentado uma realidade não tão frustrante como nós enfrentamos até agora.

O POVO – O senhor concorda que houve uma politização da vacina e dos cuidados sanitários até por influência religiosa?

Padre Eugênio – Concordo, concordo.

O POVO – E qual é o seu posicionamento sobre isso?

Padre Eugênio – Meu posicionamento é que nós temos que escutar a ciência. A ciência é um dom de Deus, é uma iluminação de Deus. Negar a ciência é negar esse dom precioso que Deus dá ao homem da capacidade de cuidar, de preservar e de dar vida à vida de tantas pessoas.

O POVO – O senhor tem sido procurado por políticos nestes tempos? Como o senhor se coloca?

Padre Eugênio – Eu sou procurado, mas eu tenho muito claro o meu papel de padre. Dom Luciano Mendes (religioso jesuíta, 1930–2006) dizia que a Igreja não defende partidos, a Igreja defende valores. Nós temos que defender valores de pessoas que se colocam no cargo não para se beneficiar, mas se colocam a serviço de uma comunidade. Isso é ser político. Há muitos políticos que não procuram o bem comum, procuram o bem próprio. A nossa missão como Igreja é conscientizar as pessoas para que escolham bem, porque voto não tem preço. Voto tem consequências. Santo Inácio diz que, se a gente tem discernimento, vai sempre escolher o bem. Somos o que nós decidimos. A Igreja tem que ajudar as pessoas a terem discernimento — não só com relação à vida profissional e pessoal, mas também às suas escolhas políticas.

O POVO – A agenda de 2022 do padre Eugenio está fechada para batizados e casamentos. O que atrai as pessoas para ter o senhor como celebrante?

Padre Eugênio – Quando eu cheguei a Fortaleza, 13 anos atrás, eu tive muito contato com jovens casais. E senti um certo desejo de trabalhar com eles. Há sete anos fundamos o Movimento Amare, que acompanha jovens com até sete anos de casados. Como era convidado para assistir muitos casamentos, as pessoas pediam para acompanhar os votos. Escolhi um casal muito querido e começou a criar esse movimento. Hoje temos 980 casais. Nesse tempo de pandemia, esse Movimento fez tão bem a eles, pois foi um desafio muito grande para os casados. Eles nunca tiveram tanto tempo para estar um lado do outro, com suas alegrias e tristezas, com suas luzes e sombras. E é no contato que a gente se revela — luzes e sombras. Tivemos que dar um apoio espiritual muito grande, fizemos retiros e reuniões virtuais para que eles estivessem de pé. Deus é tão generoso que hoje temos mais gente querendo entrar do que os que já estão. Uma fila enorme. Mais de 2 mil casais querem entrar.

O POVO – Como o senhor dá conta?

Padre Eugênio – Eu trabalho em equipe. A gente delega. A riqueza da Igreja é essa. Todo padre que abre espaço à participação dos leigos na missão triplica sua atividade apostólica. O problema é que certos padres se acham donos da Igreja. O dono da Igreja é Deus. Somos apenas colaboradores da missão de Deus. Quando se abre espaço para participação dos leigos que querem ajudar, a Igreja acolhe com mais dignidade. Esse Movimento é feito por casais e para casais. São mais de 300 casais envolvidos nesse acompanhamento. Nosso lema é “Amar e servir”. Sempre digo: não adianta vocês se abastecerem de Deus e ficarem empanzinados de Deus. A gente se abastece de Deus para ser instrumento dele para os outros. Uma fé que não leva ao serviço não se fortalece e desanima com facilidade.

O POVO – Quais são os critérios para ingressar no Amare? É um grupo para casais ricos?

Padre Eugênio – Coitado do Amare tem essa fama... O Amare recebe todo mundo, temos casais de todas as faixas sociais, acolhidos com a mesma dignidade. Você preenche a ficha na internet. Quando vai abrir um grupo, convida esses casais para uma reunião e apresenta o Movimento. Nada é imposto, tudo é proposto.

O POVO – E qual é a dimensão social do Amare?

Padre Eugênio – Cada grupo do Amare tem, todo mês, que desenvolver uma atividade social. Seja no acompanhamento de uma creche, asilo, de uma ação social que a gente faz uma vez por semestre... Levamos alimentos, cestas básicas, atendimentos médico, odontológico e jurídico em Canindé, em Ibiapina e agora em Baturité. Atendemos mais de 700 famílias do bairro mais pobre de Baturité. Fomos fazer no bairro, mas os traficantes não permitiram. Então, levamos para o Mosteiro. Foi um dia muito especial. Visitei alguns moradores e soube que o pessoal que morava lá nunca tinha ido para o Mosteiro. Conseguimos transporte e, em um dia, o Mosteiro se abriu só para receber essas famílias. Se você visse a alegria desses jovens casais se colocando a serviço... Fizemos um dia que ficará na história do Mosteiro. É isso que eu queria: que o Mosteiro fosse essa casa aberta à dignidade de modo especial daquelas pessoas que mais precisam, que estão pertinho da gente.

O POVO – Como é o seu trabalho com casais em segunda união?

Padre Eugênio – Eu vou lhe confessar uma coisa. Nós fomos a primeira paróquia, quando eu fui pároco do Cristo Rei, a abrir um grupo para casais em segunda união. Naquela época não era fácil, os desafios maiores eram com as outras pastorais. A rejeição acontecia dentro da própria Igreja, pelos grupos que estavam lá. Hoje nós temos grupo de casais no Cristo Rei e também trouxemos essa experiência para cá (Santo Inácio). São mais de 80 casais participando. Esse pessoal se sente muito marginalizado. O papa Francisco dá acolhimento a esses casais, são igreja, têm direito de estar na igreja. A igreja não pode fechar porta. O coração de Deus nunca fecha porta para ninguém, é sempre escancarado. Pai que ama nunca fecha porta para filho nenhum. O filho mais frágil é o que precisa de mais amor e mais proximidade.

O POVO – Esses movimentos são uma forma de manter os fiéis na Igreja Católica e de atrair mais fiéis?

Padre Eugênio – Eu acredito no diálogo inter-religioso. Eu não acredito numa religião que é muro, mas que é ponte. Se essas pessoas passaram para outro espaço, é porque muitas vezes não receberam acolhimento na própria igreja. É a gente que tem que se questionar: por que as pessoas foram tão mal acolhidas? As pessoas procuram na Igreja acolhimento, compaixão, misericórdia. E, às vezes, nossas igrejas não são compassivas nem misericordiosas nem casas de acolhimento.

O POVO – Como o senhor avalia as atividades dos padres hoje em dia?

Padre Eugênio – O papa Francisco está lutando pedindo que os padres se desburocratizem. O serviço sacerdotal se tornou uma burocracia, em que a gente está mais no administrativo do que no pastoral. O padre não tem mais tempo de receber. Antigamente os confessionários eram lotados de padres. Os consultórios psicológicos substituíram os confessionários, porque o padre não tem mais tempo. A gente foi se burocratizando e ficando mais no administrativo do que na cura da alma. É o sonho do papa Francisco essa luta contra a igreja clerical, que centraliza tudo na pessoa do papa, do bispo e dos padres, e se impede a colaboração, o viver batismal de todo aquele que é batizado e que é instrumento de Deus para o mundo. Falta essa proximidade com o povo de Deus que vem ao nosso encontro. O pessoal divinizou muito a imagem do padre e, às vezes, o padre é criticado por ser uma pessoa mais próxima. Diviniza demais e, quando um padre manifesta sua humanidade, o pessoal se escandaliza.

O POVO – Quem é o padre Eugênio sem a batina, o Eugênio Pacelli que não o padre?

Padre Eugênio – Padre Eugênio é uma pessoa feliz com a vida que leva, realizado, pleno. É uma pessoa que tem seus momentos de alegria, mas também de inquietação e de dúvidas, uma pessoa que quer estar de bem com a vida e quer botar todas as potencialidades que reconhece nele a serviço dessa missão que o Senhor lhe confiou.

O POVO – Mas essa serenidade é constante?

Padre Eugênio – Não (risos). Quem me vê sorrindo não descobre as dores e os sofrimentos que eu trago.

O POVO – Quando o senhor despertou para o sacerdócio?

Padre Eugênio – Com 12 anos, eu já desejava ser padre. Eu congregava os meninos no Interior, na praça de Ibiapina. Mês de maio sempre me encantava, porque eu sou muito devoto de Nossa Senhora. Aí, juntava os amigos e a gente levava Nossa Senhora toda noite para casa. Eu tinha vigilância nessa imagem porque foi minha tia freira que me deu. Vim estudar nesse colégio (Santo Inácio) com 12 anos de idade, terminei o Ensino Médio aqui. Depois, vim morar no Seminário Menor. Quis prosseguir. Até hoje foi a decisão mais certa que tomei na vida. Sou feliz como padre.

O POVO – O senhor passou por algum questionamento?

Padre Eugênio – Passei por tudo. Uma vida em que não se tem dúvida não amadurece. Eu sempre peço a Deus que eu não tenha certeza de tudo, porque a gente corre perigo de se acomodar. Uma fé de que não se duvida é uma fé que não cresce, não amadurece. Eu nunca tive 100% de certeza de que Deus me convidava para a vida religiosa, mas na certeza da fé eu me joguei. As consolações que Deus me dá e as perseguições que sofro me ajudam ainda mais a ter certeza de que essa vocação é um chamado. Deus me convida todos os dias. A vocação não foi. Ela continua sendo. Todos os dias, assim como o matrimônio, é uma decisão que você toma de renovar. Aquilo que não se renova morre. Renovo o amor a Deus, a vocação e o serviço aos outros.

O POVO – O senhor já administrou a Paróquia Cristo Rei, o Colégio Nóbrega no Recife, o Colégio Santo Inácio...

Padre Eugênio – Mas eu não fui feito para administrar. Eu fui feito para ser pastor. A congregação sempre me confiou cargos de administração, mas digo com toda a sinceridade: eu me realizo como padre na dimensão do contato, na dimensão celebrativa, de ser pastor. Eu não entrei na Companhia de Jesus para ser administrador. Entrei para ser pastor. As funções de administração eu desempenhei bem, com responsabilidade, mas no fundo gostava era do contato com os alunos, com as famílias, na dimensão celebrativa.

O POVO – Perdemos muita gente nesta pandemia. A dimensão da morte mudou nestes dois últimos anos?

Padre Eugênio – Quando a gente começa a expulsar o contexto da morte da vida cotidiana, a gente não valoriza a vida. A gente privatizou muito a morte, tirou a morte do contexto de nossas famílias, como algo que vai nos separar plenamente. As pessoas morriam bem, até sorrindo, em seu leito. Hoje morrem na frieza de uma UTI, solitárias, sem contato com a família. E a gente não pode banalizar a morte. Essa pandemia fez a gente tomar consciência de que a gente é frágil, uma luz acesa que a qualquer momento pode apagar. Viver é morrer aos poucos. Os primeiros cristãos usavam “adormecer”, e não morrer. Adormece para o mundo e acorda em Deus. “Cemitério” é uma palavra latina que significa um grande dormitório. Ibiapina, minha cidade, tem a porta do cemitério mais sábio do mundo: “Hoje sou eu, amanhã serás tu”. Que consolação! (risos) Por que a morte nos amedronta? Porque fomos feitos para viver.

O POVO – O senhor cita muitas pessoas nas suas homilias. Quem são suas referências?

Padre Eugênio – Eu gosto muito de ler Santo Agostinho, Leandro Karnal... O poeta Fernando Pessoa foi o meu melhor psicanalista, um homem que descortina a alma da gente. Cecília Meireles também. Cora Coralina desperta em mim o meu Interior, a minha vivência de cidade pequena. Eu me encontro nos poemas de Cora Coralina de forma esplêndida.

O POVO – O senhor conviveu com Santa Dulce no noviciado em Salvador. Quais lembranças o senhor tem dela?

Padre Eugênio – Irmã Dulce tinha uma vida doada. Quando fiz essa experiência, os hospitais de Salvador, particulares e públicos, estavam em greve. Mandavam todos os enfermos para a porta lá do hospital e ela dizia: “Não volta ninguém”. E mandava colocar colchão para acolher todo mundo. Era uma mulher de corpo frágil, mas de alma forte. Você via Deus agindo naquela mulher. Ela dormia com um balão de oxigênio do lado, porque tinha problema de pulmão. Dormia três horas por noite em uma cadeira. Era de uma disponibilidade, de uma sabedoria, de amor... Tímida, ela não olhava para você, fruto da formação que ela teve. Era uma santa alegre. Tocava acordeom. Irmã Dulce quebrou paradigmas na igreja, na própria congregação. O santo é um ousado. Na sua fragilidade, se joga sem medo no coração do pai.

O POVO – Qual é o lema da sua ordenação?

Padre Eugênio – “Eu te conheço, eu te amo e eu te envio.” É o amor de Deus incondicional que me mantém de pé. Eu tenho dever de falar de Deus misericordioso, porque eu o experimento na minha vida. Que Deus me anime sempre e não me deixe jamais abrir espaço para o desânimo, que me faça ousar e acreditar para ver o milagre acontecer. Deus é muito bom. Deus é dez! (risos)

Fonte: O Povo, de 21/03/2022. Opinião. p.4 e 5.


 

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