sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Crônica: “Eu vi um menino correndo, e se chamava Népu” ... e outros causos

A história me foi repassada pelo amigo Neném Justino.

"Eu vi um menino correndo", e se chamava "Népu

- O desafio de mais um final de ano era correr os tradicionais 660 metros da "Maratona do Fiapo", realização da Paróquia local. Quem chegasse "premêro" à bodega do Oliveira Caetano, partindo da bodega do Rael da Gamboa, levaria a banda dum carneiro escalado, oferecimento do vereador De Touro Gomes.

Ligeiro à moda jumento inteiro - desembestado e estiloso, o menino mais velho do seu Zé Coriolano foi o campeão de 2025. Quem? "Népu", carinhosamente alcunhado aquele que, de batismo, se chama Nepomuceno. Dele pro segundo colocado, o mano Gaudioso, quase 120 metros de diferença um pro outro; terceiro e quarto colocados, os corriqueiros Thiago e Matheus. O quinto, contudo, irmão caçula dos dois primeiros, de nome igualmente estranho, foi ninguém menos que Epaminondas.

E eu, cá com meus botões, fiquei a pensar, caro jornalista: se tu te chamasse Conegundes ou Parsifal, acho que teria pernas pra ganhar a São Silvestre. Mas, esse Tarcísio...

Carlos Alberto Torres? Conversa é essa!?!

O lateral-direito é Potengi, rapaz! Fui inventar de trazer a lume histórias reais do futebol interiorano, sublinhando com afeto as escaramuças do ex-defensor do Quixadá, e o homem se empolgou. Agora, em vez da esposa Claudinha contar os causos, ele mesmo os escreve. O primeiro é "O nono desmaio do Salles". Assim:

- Fomos convidados a jogar na Aracoiaba, a seleção local se preparava para o Intermunicipal. Nosso time se tacou pra lá na carroceria dum caminhão velho. Ganhamos de 4 a 2. Ocorre que os torcedores da beira da estrada, insatisfeitos com o resultado, gritavam ofensas contra nós, na medida em que cruzávamos a vizinhança do estádio. E ainda diziam: "Ó! Tem volta, viu!?!"

Aquela foi a maior atuação do goleiro Salles, o dito cujo que tomou Calmocitan e levou 9 a 1, certa vez. Inclusive, em Aracoiaba, ele defendeu dois pênaltis. O bom é que, nesse amistoso, o time adversário tinha jogadores do Calouros do Ar, do América e do Tiradentes, que, de folga, foram escalados pra contenda em tela. E não bastassem as ofensas verbais - "magote de corno, ruma de caga pau, bando de pustema!", ainda jogaram pedras na gente.

Um desses "rebôlos" acertou a cabeça do Salles. Logo o Salles, sempre muito nervoso, ele que tinha a mania de dar agonia, desmaiar. Ao passar a mão na cabeça, que via o sangue escorrendo, caía durinho pra trás. E nós abanando ele dentro do carro. Pedimos pro motorista pisar no acelerador, que era pra chegar logo na Itapiúna, lá havia uma farmácia para o curativo. Nessa brincadeirinha, o placar foi de 9 desmaios pro Salles.

A gente pensou até que ele não ia tornar mais, já roncando numa rede.

Segunda: a profética banda dum bode

Outro jogo foi na Califórnia, interior de Quixadá, onde fomos fazer um amistoso (o placar final foi 3x3). Fomos obrigados a ir pela Itapiúna, naquele dia, pois chovia muito e a estrada estava ruim. Seguimos pro vizinho município em três carros pequenos. No caminho, paramos numa bodega para beber refresco e comer bolacha, enquanto os mais velhos tomavam cachaça com rapadura.

Um dos nossos atletas, Chico Mago, reparou a banda dum bode 'dipindurado' num armador da bodega e maquinou surrupiar a peça. Bodegueiro 'intirtido' com o pessoal, Chico desatou o nó da corda, botou a banda do caprino nas costas e saiu voado dali. Foi esperar a gente na beira do gramado. Por desculpa para o furto, falou que o bicho era o tira-gosto pela comemoração do empate em 3 a 3...

- Mas, como? Se o jogo nem havia começado?

Adivinha quem comeu a banda desse bode, sozinho e Deus?

Fonte: O POVO, de 2/01/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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