Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
Queres conhecer a história de um ‘locus
amoenus’, onde a paz escondia-se do frenesi da vida urbana e era buscada na
harmonia da convivência com a natureza?
Na região montanhosa do Peloponeso, onde
rochas escavadas espreitam grandes abismos, vegetação campestre, sem o dossel
de florestas, tocada pelo vento que sopra do Mediterrâneo, era ali que Pã se
deliciava, ao lado de pastores e ninfas, numa paz bucólica. Um mito nasceu, com
o deus da natureza e dos pastores, em idílica harmonia.
Arcádia, uma unidade regional da Grécia,
que ainda hoje existe com sua capital Trípoli, é uma região da península do
Peloponeso, situação geográfica, que ensejou a mitologia bucólica, exaltando a
calmaria e a beleza da natureza, em harmonia com a simplicidade dos pastores.
Eles apascentavam seus rebanhos, compondo canções campesinas, nascidas do
cenário natural da montanha e encostas, bem distante dos burburinhos e dos
contratempos citadinos.
Esta mitologia de uma visão idílica de
harmonia da criatura com a natureza, decantada como reino da felicidade, da
simplicidade e da paz em comunhão com a natureza e onde os vícios da
civilização não punham os pés, ensejou o nascimento do Arcadismo a cultivar tal
harmonia, o qual espalhou-se pela Europa, tendo o primeiro movimento literário
surgido em Roma, em 1690, a Arcádia de Roma, cujo lema era inutilia truncat
(corte as coisas inúteis).
Encontram-se, porém, referências a este
mito, nas Bucólicas de Virgílio, com seu gênero pastoril. Também chamadas Éclogas, escritas acerca de
39 a.C., Virgílio apresenta cenário pastoril com cantos de amores e lamentos,
servindo de inspiração ao Arcadismo. Ele, segundo alguns, foi o primeiro latino
a criar poesia bucólica, com base na poesia neotérica de Calímaco, cujo ‘sopro’
introduz a Bucólica VI: “Quando eu cantava reis e batalhas, Cíntio [isto é, Apolo]
puxou-me a orelha e admoestou-me: ‘Ao pastor, ó Títiro, convém apascentar a
gorda ovelha e cantar um poema ligeiro’”.
No Renascimento, também há citações de
escritores, como Garcilaso de la Vega que assemelha Arcádia à felicidade e
harmonia do Paraíso.
Mas, foi somente nos séculos XVII e XVIII,
que se cunhou a nomenclatura Arcadismo, também denominada Setecentismo ou
Neoclassicismo e começaram a surgir Arcádias – academias literárias, sendo a
segunda a Arcádia Lusitana, fundada em 1756, com seus membros assumindo nomes
de pastores, inspirados na antiga Grécia, e estimulando o retorno ao
classicismo. Nesses clubes, poetas e intelectuais eram assíduos em ler obras,
cultuar literatura clássica.
Entre várias obras marcantes, cita-se
Marília de Dirceu de Tomás Antônio Gonzaga, sob o pseudônimo de Dirceu –
publicado nos anos de 1792, 1799, 1812 e, no Brasil, destaca-se o mineiro e
inconfidente Cláudio Manuel da Costa (1729–1789), sob pseudônimo Glauceste
Satúrnio, que marcou o Arcadismo no Brasil, com Obras Poéticas (1768).
E qual a etimologia de Arcádia?
Arcádia deriva do grego Αρκαδία, (no latim Arcas, Arcadis) e remete ao latim ‘fugere urbem’ (fugir da cidade). O
termo pode também ter relação ao semideus Arcas, filho de Zeus e de sua amante,
a ninfa Calisto. Arcas remete a Arktos, com a significação de ‘urso, em grego.
Diz a mitologia que a ninfa Calisto, mãe de Arcas, teria sido transformada em
uma ursa por ciúme de Hera, esposa de Zeus, e, por isso, seu filho levou o nome
que significa “urso”. Hermes, então, salva a criança, por ordem de Zeus, o
qual, depois, teria transformado sua mãe na constelação de Ursa Maior e Arcas
na constelação de Ursa Menor.
Em resumo, pode-se dizer que o Arcadismo se
baseia, nos postulados:
1. Inutilia truncat. Este lema da
Arcádia Romana colimava o objetivo maior: extirpar todo o excesso inútil, que,
mais tarde, inspirou o neoclassicismo a romper com o requintado do estilo
barroco;
2. Fugere urbem. Deixar o bulício e
a corrupção da cidade para encontrar o ‘locus amoenus’: inocência e conexão com
a vida campestre, refúgio de harmonia.
3. Carpe diem. Desfrutar o hoje,
mergulhar na realidade que se está vivendo, nas circunstâncias, sem se
inquietar demasiado, nem se angustiar com o amanhã.
Devido ao desejo de uma vida rústica e
bucólica, poetas renascentistas tornaram a Arcádia um mito literário: um lugar
utópico de inocência, simplicidade, amor e prazeres simples.
Um abençoado domingo, com as bênçãos de
Deus!!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 5/07/26.
