sexta-feira, 30 de setembro de 2022

Crônica: “Ataque cardíaco de fome, a nova mazela” ... e outro causo

Ataque cardíaco de fome, a nova mazela

Pobre na forma da lei, foi pela caridade dos amigos que o menino mais velho do Adail recebeu digna assistência. Do que o bichim sofria? Uma complicação descobrir. Certo é que uma ruma de especialistas o consultou, fez horror de exames, bateu chapa de toda qualidade, encheu-se de piula até o gogó. Apesar de tudo, passados seis meses de peleja, chibatada de mazelas não largava dele. Sintomas de A à Z: coceira no mucumbu respondendo no sovaco, lêndea de polegada, "ganeira de chicote", "difluço", dor nas carnes, sapiranga nos olhos, peido ariado, alôjo, tosse de cachorro doido, cuspe grosso, vontade de morrer. Dor pra mais de metro, corpo inteiro.

Tal como anotado pela jornalista e escritora Rosanni Guerra no seu memorável poema "Amor Hipocondríaco", "... não tem Anador / Buferim ou Neosaldina / Nem injeção de morfina / Que acabe com essa dor fina". Até óleo diesel (injeção de benzetacil) o menino do Adail tomou. Apelou-se para homeopata, acupunturista, terapeuta da saúde integral, rezadeira e o gemido era o mesmo. Perturbação profunda. Nem banho de sal grosso com a baba do caçote fazia reagir aquele corpo estoporado, banido, esfulepado, distiorado, brocado, arrombado... Mandar pros EUA? Com que dinheiro, se nem o do Uber para levá-lo ao posto de saúde o povo de casa tinha?

Assim, meio sem querer, chegou-se à descoberta da macacoa descomunal que acometia o bruguelo mais velho do Adail. Outro amigo médico do pai pediu pra ver o doente na UPA do bairro, a uns cinco quilômetros de casa. Lá ele foi na garupa da bicicleta, dirigida por um irmão. No trajeto, passam nas bitacas duma lanchonete de primeira categoria, dessas que servem - já às 11 da manhã - do pastel à mão de vaca. Eis que o menino, amarelo de sofrimento, sente no ar o cheiro da penicilina salvadora, inolvidável vitamina C, antibiótico e corticoide vitais: a tal da panelada. Sem detença, grita pro mano guiador, coração saindo pela boca:

- Para ligeiro! Taqui meu remédio!

- Vai se automedicar, é?

- Nem que eu me arrombe!!!

O mais velho do Adail tomou pratada de caldo de panelada (na verdade, passou pra dentro cinco terrinas do produto) e nunca mais uma dor na unha! Curado, benza Deus! 

Bebendo ainda na poética de Rosanni Guerra, observo a situação d'outrora da cria do Adail e digo resoluto que fome "É dor que lateja / Como nunca ninguém viu / É pancada, é hematoma / É distensão / Que não passa com Reparil... / ... uma dor que castiga / Igual a falsidade de amiga / E só mata, como veneno de formiga". E concluo, vendo hoje aquele meninão bonito, lindo e joiado: coma que passa!

Pérola de Pirrinta

Era vereador e o tratamento junto aos colegas de parlamento, em plena sessão, lambia sempre as corriqueiras conversas de bodega, calçada, missa de sétimo dia, pescaria, cabaré. No dia em que foi votado o novo Código de Postura do Município, por exemplo, pediu aparte e referiu-se ao propositor da matéria nos seguintes termos:

- Meu peixe, caba bom, o presente instrumento que permite à Administração Municipal exercer o controle e a fiscalização do espaço edificado que meu patrão apresenta...

Palmas pra Pirrinta. Ocorre que o presidente da Casa lhe lembra da obediência ao rito, que deverá chamar o vereador de "excelentíssimo senhor" em aparte. E Pirrinta...

- Gente fina, minha joia, como eu dizia, a matéria em apreço assinada por meu cumpade...

Fonte: O POVO, de 22/09/2022. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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