terça-feira, 24 de março de 2026

A missão de Ariosto Holanda

De sua Limoeiro natal, Ariosto Holanda, morto no último sábado, aos 87 anos, costumava dizer que havia aprendido o dom da fraternidade, levando-o para o mundo. Essa qualidade era conjugada no seu dia a dia de professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), deputado federal ou missionário da ciência, sempre a serviço de um horizonte no qual a justiça social era mestra e definidora de seus passos.

Parlamentar de seis mandatos, com experiência tanto pelo Executivo (foi secretário nos governos de Tasso Jereissati) quanto pela academia, onde ocupou-se da docência por décadas, Ariosto era vocacionado para o trabalho de partilha do conhecimento.

Daí que tenha se especializado nesse papel de estabelecer pontes entre áreas que normalmente se mantêm distantes, associando técnica e humanismo com o propósito de encontrar respostas para problemas concretos. Nele o saber era mais valioso se pudesse ajudar a contornar as dificuldades cotidianas.

A tecnologia, por exemplo, só tinha serventia se auxiliasse na redução do fosso das desigualdades. Desse espírito politicamente comprometido com o bem-comum nasceram os Centros Vocacionais Tecnológicos (CVTs) e o Instituto Centro de Ensino Tecnológico (Centec), ambos instrumentos de disseminação da educação em modalidades diversas.

Esse era o norte da trajetória de Ariosto, que cuidou em aproximar o Ceará de uma perspectiva moderna sem negligenciar a correção dos desníveis econômicos e sociais. Como titular da Secretaria de Ciência e Tecnologia, lançou sementes que ainda hoje operam como diretriz dos projetos concebidos no estado, o que só reforça uma visão de desenvolvimento de longo prazo que não se media por colorações partidárias. Pelo contrário, a política não era um fim em si mesma, tampouco meio para enriquecimento e permanência no poder.

No Legislativo, empenhou-se na tarefa de fazer avançar o Ceará mediante somatório de esforços orientados para um mesmo objetivo, fosse o de ampliar a rede de ensino técnico, fosse o de criar soluções inteligentes para vencer as dificuldades mais agrestes que o território impunha, tal como a escassez hídrica.

Nisso se vê como Ariosto se guiava por um compromisso inarredável com os cearenses e com o Nordeste, região na qual depositava plena confiança quando se tratava de apostar no futuro.

Nascido Francisco Ariosto Holanda, falava com orgulho da simplicidade dos pais. Logo chegou à universidade, onde se formou em Engenharia Civil. De lá seguiu para vida sortida em experiências na esfera privada e também na pública, onde fez carreira como gestor. Essa caminhada está fartamente documentada nas páginas do O POVO, que sempre soube reconhecer-lhe os méritos.

A propósito de suas ideias e sonhos, dele se dizia com frequência, a título de elogio: é "homem à frente do seu tempo". Não era. Ariosto era fruto de sua época, com raízes fincadas no mesmo presente que dividia com seus conterrâneos, atento aos desafios que a realidade apresentava e pronto a encontrar respostas para os impasses que afligiam sua gente. 

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/03/26. Editorial, p.20.

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