Por José Nelson Bessa Maia (*)
Já há tempos que
alertávamos sobre falhas na inserção internacional do Ceará. Falhas essas não
devidamente tratadas nos esforços de planejamento do estado e da iniciativa
privada. Com isso o Ceará perdeu oportunidades para alavancar o crescimento,
reduzir a pobreza e acelerar o bem-estar de sua gente.
No entanto, nos
últimos 30 anos, muito se avançou na infraestrutura, na qualidade da educação e
na disseminação de qualificações pelo interior, com a melhoria na escola
pública e a descentralização do ensino superior, reduzindo, assim, a histórica
macrocefalia de Fortaleza em termos de PIB e criando polos de dinamismo em
diversas regiões do Estado. As bases para o desenvolvimento estão, pois,
firmemente assentadas.
Afortunadamente,
o Ceará está agora dando mais passos na diversificação de parcerias, reduzindo
sua tradicional dependência aos EUA como mercado de destino de exportações
(ainda quase 50% da pauta) e à Europa como fonte de investimentos. As relações
do Ceará com a China, promovidas pela paradiplomacia do atual Governo do
Estado, finalmente deslancham e têm tudo para trazer benefícios e oportunidades
para o Ceará.
Segundo o Ipece,
em 2025, nossas exportações para a China foram de US$ 86,4 milhões (aumento de
50,4%), o que coloca a China como o quinto maior mercado de destino, com 3,79%
do total. No lado das importações, em que a China já é o maior fornecedor do
Ceará, houve retração, registrando valor de US$ 880,2 milhões, mas mesmo assim
perfazendo 32,2% do total importado. Com isso, nossa corrente de comércio com a
China se encontra ao redor de US$ 1 bilhão, cifra razoável, mais ainda bem
aquém do potencial.
No investimento,
a presença chinesa já é expressiva. Nos últimos 60 anos, 400 empresas de
capital chinês se instalaram no Ceará, a maioria desde 2010, com capital social
de R$ 116,4 milhões e concentrada em pequenos negócios e 300 deles localizados
em Fortaleza. No entanto, o quadro muda. O investimento chinês no Ceará está
sendo ampliado com a implantação do Data Center da empresa ByteDance,
controladora do TikTok, no Complexo do Pecém, em parceria com a Omnia e a Casa
dos Ventos, cujo megainvestimento atingirá US$ 37 bilhões em 20 anos, 54% dos
quais internalizados até 2035.
O investimento
chinês será o maior da nossa história econômica, superando em 6,8 vezes o valor
da Companhia Siderúrgica do Pecém (CSP). Como comparação, o PIB do Ceará foi de
US$ 45,5 bilhões em 2024. Assistimos, pois, a uma virada. Parabéns ao governo estadual
e às entidades empresariais (FIEC, FAEC) e agentes de fomento (Sebrae-CE,
Universidades e outros) pela preparação do Ceará para receber investimentos
globais em setores da Nova Economia e assim superar as limitações estruturais
para expandir a formação bruta de capital fixo. Para frente, Ceará!
(*)
Ex-secretário de Assuntos Internacionais do
Governo do Ceará, mestre em Economia e doutor em Relações Internacionais pela
Universidade de Brasília (UnB) e, atualmente, consultor internacional.
Fonte: O Povo, de 15/02/26. Opinião. p.20.

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