Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)
Relacionamentos de amizade e, sobretudo, de
amor, começam com muito elã, com muito aconchego, mas, com o passar do tempo,
muitas vezes, esse elã e esse aconchego vão diminuindo, por vários motivos. A
rotina instala a mesmice, a casa emudece, as paredes ensurdecem, e os
ambientes, cegos, monologam. As conversas diminuem e os encontros tornam-se
frios.
Esse ramerrão, que anula sentimentos e mata
relacionamentos, pode descambar para um afastamento, que, aos poucos, vai
configurando uma separação de corpos, de afetos, de atenção, de cuidados até um
rompimento total e irrecuperável.
Às vezes, acontece uma solidão discreta,
surda e invisível aos outros, mas sentida e demonstrada através de sorrisos
amarelos e palavras, que não implicam a força real de um relacionamento. Esse
mal-estar silencioso instala um distanciamento erosivo e a dimensão emocional
começa a desmilinguir-se, a partir de uma dissonância interior acerca da
validade da continuidade do relacionamento; perdem-se a espontaneidade
convivencial, a alegria do sabor do encontro e o ambiente torna-se mais do que
frio, por vezes, tempestuoso.
O espirito também ressente-se e começa a
encolher-se, não encontrando guarida coloquial de partilha e de reciprocidade.
É importante considerar que as pessoas não
renunciam àquilo que são, elas continuam sendo o que elas são. E, quando buscam
apresentar máscaras apenas de qualidades e virtudes, a realidade cobra alto
preço do estorvo do ‘si mesmo’ de cada um, pois, a sua farsa impede qualquer
tipo de correção, de adaptação e de ajustes e parte para acusar e cobrar
mudanças do outro.
Tanto na vida social, familiar e
relacional, o autogerenciamento e o autocontrole precisam ser aprendidos e
ativados, no sentido de que ninguém se relaciona com pedaços, tampouco com
máscaras, se o objetivo é estabilidade, serenidade e paz; sem ocultar nem
fugir, nem menosprezar a ‘si mesmo’, senão cultivar o equilíbrio e a
autoestima, com humildade e sinceridade e abertura. É impossível tentar burlar
a identidade pessoal, sem infames sequelas traumáticas.
O elã, que motivou o relacionamento, volto
a dizer, pode amainar um pouco, ou mesmo debilitar-se, mas pode ser reavivado
pela prudência, pela gestão das emoções e atitudes, pela adaptação respeitosa
de caracteres e o autocontrole, em vista de construir ou reificar o sentido do
relacionamento e da amizade.
Não se trata de ‘renunciar’ à sua
identidade, aos seus sonhos, senão de aprender que não há paz com máscaras, nem
amor sem abertura ao outro.
Não é o outro que deve mudar, são os dois
que precisam se entender e se adaptar.
Tenhamos uma boa terça-feira, com as bênçãos de Deus!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/02/26.

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