segunda-feira, 9 de março de 2026

Uma casa para o Plebeu

Por Izabel Gurgel (*)

O Plebeu Gabinete de Leitura é a biblioteca que a leitora Adelaide Gonçalves vem construindo ao longo de uma vida cheia de vidas.

O amor aos livros e à leitura é um modo singularmente alegre de estar no mundo. Aprendizado iniciado na infância com a mãe, o pai e professores, no interior do Ceará. Torna-se pesquisadora a menina auxiliar de biblioteca na escola em Tauá, no sertão dos Inhamuns.

Professora de História da Universidade Federal do Ceará (UFC), nossa Adelaide imensidão fez do Plebeu, de vários modos, um nascedouro de livros. Com gente amiga e colaboradores, o Plebeu faz e acontece, publica, tem banca itinerante e um sebo do qual podemos fruir todo segundo sábado do mês no Centro Frei Humberto, no bairro São João do Tauape, em Fortaleza, quando da Feira da Reforma Agrária (dia 7 de fevereiro, a próxima edição da feira). O MST também é doido por livro e leitura.

Jardim das veredas que se bifurcam, o Plebeu não para de dar cria. Aqui, mais uma estante nova, bem sortida, sobre a história do livro e da leitura. Ali, mesas com tu-do (tudo mesmo!) de um autor, o que fez o tradutor de Garcia Márquez para a língua portuguesa, escritor Eric Nepomuceno, dizer "Nem eu tenho todas as edições dos meus livros" quando da visita ao gabinete de leitura.

O mobiliário do Plebeu, ele próprio, conta o contínuo (re)desenhar de nossas casas e espaços públicos. Velhos gaveteiros e ficheiros encontram um bom destino lá. Cristaleiras, escrivaninhas e birôs, carteiras escolares, mesas, bancos e cadeiras de lugares e feituras tão diferentes nos ensinam o co-habitar, a incidência dos passados, a sábia acumulação, a desejada sedimentação em nome da fertilidade da terra, na Terra. O Plebeu é um sim à vida.

Adelaide segue ampliando a biblioteca que sempre teve uso para além do privado, pessoal. Na casa da professora, foi partilhada por estudantes, aprendizes e mestres do pesquisar, criaturas leitoras que receberam delas (biblioteca e Adelaide) sombra e água fresca para florescerem.

Em 2012, Adelaide tornou a biblioteca de casa mais social ao levá-la para o Centro de Fortaleza. Surge o Plebeu Gabinete de Leitura. Tem imagens lindas das duas primeiras sedes, ambas no edifício-sede da Associação Cearense de Imprensa.

Encaixotado, o Plebeu está mais perto de ter uma morada pra gente chamar de nossa. Uma legião cultivada pela Adelaide conspira para realizar o sonho, brasileiríssimo, que pulsa no coração da gente trabalhadora do país tão rico quanto desigual, o da casa própria.

Vai ser a rua mais bonita da cidade. Biblioteca é canteiro, jardim de calçada, pomar e horta, parque, mata, floresta. Enrama feito melão-de-são-caetano. Só existe se enlaça, entrelaça, tece, feito renda, bordado.

Quer saber mais? @plebeulivros no Instagram.

"Uma casa para o Plebeu".

Bora?

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 1/02/26. Vida & Arte, p.2.

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