Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)
Ser contraditório é a criatura humana.
Suas muitas máscaras são como placas
tectônicas. Silentes e, aparentemente, tranquilas, porém, vez por outra, exibem
suas mazelas, quando acontece o encontro fático. No choque, cai o sorriso e
surge a carranca.
Acontecido o terremoto, a ideia primeira é
buscar culpados, desde que não seja ‘o próprio’.
Pois bem, esquecemos, então, de buscar
compreender, realmente, o que nos levou a tal propósito, isto porque
desconhecemos o que vai dentro de nós, ignoramos nossos reais valores e nossos
princípios são instáveis, pelo menos, os que dizem respeito à intimidade de
nosso caráter, mais precisamente, do ‘meu caráter’.
A ofensa dorida, o erro cometido, sem
nenhum constrangimento, sem nenhuma análise, são, incontinenti, imputados ao
outro. Eu “compreendo”, irônica e despudoramente, minha ‘inocência’, minha
‘lisura’, minha ‘sóbria’ performance e vomito o peso da culpabilidade no outro,
mesmo quando não há respaldo algum na acusação. Esta autocompreensão se dá,
exatamente, na contramão da autocompreensão. É o seu inverso, é a sua negação
ser-no-mundo. É o real desmistificando o imaginário. É a atitude
desqualificando a palavra.
Mentiras e insinuações expondo suas
entranhas.
A palavra que sai, o chiste que voa, não
encontram oportunidade para explicação nem espaço para uma justificativa. O
veredito é o olhar iminente, pronto, do interesse subjetivo, que decodifica,
conforme sua práxis de vida. Calúnia amalgama-se com desprezo e entorna
qualquer relacionamento.
Na verdade, trata-se de imune
autocondescendência, de uma miragem voltada tão somente para o próprio umbigo.
Nossos erros sequestram nossos pensamentos,
com tamanha malícia, que produzem emoções ferinas e atitudes indecentes. A
dança é nossa, jogamos o outro para fora, ele deve sair.
Os erros, que cometemos, saltam de nós para
ferir o outro. É o contraditório do Homo sapiens, que, ao achar, estupidamente,
que se compreende, justifica-se e inocenta a si mesmo, sem critérios de
análise, transferindo toda malevolência a alguém que execra e avilta, sem lhe
dar chance do direito do diálogo.
Máscaras, todavia, não são para sempre.
De tantas, o peso fá-las tropeçar algum
dia, de maneira surpreendente e inesperada. E, quando tropeçam, o sol as
ilumina e transparece a verdadeira criatura, na sua selvageria ou na sua
mansidão.
Ser contraditório é da criatura humana (?!)
Tenhamos um bom sábado, com as bênçãos de
Deus!!!
(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 7/02/26.

Nenhum comentário:
Postar um comentário