domingo, 8 de março de 2026

AUTOCOMPREENDER’?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie (*)

Ser contraditório é a criatura humana.

Suas muitas máscaras são como placas tectônicas. Silentes e, aparentemente, tranquilas, porém, vez por outra, exibem suas mazelas, quando acontece o encontro fático. No choque, cai o sorriso e surge a carranca.

Acontecido o terremoto, a ideia primeira é buscar culpados, desde que não seja ‘o próprio’.

Pois bem, esquecemos, então, de buscar compreender, realmente, o que nos levou a tal propósito, isto porque desconhecemos o que vai dentro de nós, ignoramos nossos reais valores e nossos princípios são instáveis, pelo menos, os que dizem respeito à intimidade de nosso caráter, mais precisamente, do ‘meu caráter’.

A ofensa dorida, o erro cometido, sem nenhum constrangimento, sem nenhuma análise, são, incontinenti, imputados ao outro. Eu “compreendo”, irônica e despudoramente, minha ‘inocência’, minha ‘lisura’, minha ‘sóbria’ performance e vomito o peso da culpabilidade no outro, mesmo quando não há respaldo algum na acusação. Esta autocompreensão se dá, exatamente, na contramão da autocompreensão. É o seu inverso, é a sua negação ser-no-mundo. É o real desmistificando o imaginário. É a atitude desqualificando a palavra.

Mentiras e insinuações expondo suas entranhas.

A palavra que sai, o chiste que voa, não encontram oportunidade para explicação nem espaço para uma justificativa. O veredito é o olhar iminente, pronto, do interesse subjetivo, que decodifica, conforme sua práxis de vida. Calúnia amalgama-se com desprezo e entorna qualquer relacionamento.

Na verdade, trata-se de imune autocondescendência, de uma miragem voltada tão somente para o próprio umbigo.

Nossos erros sequestram nossos pensamentos, com tamanha malícia, que produzem emoções ferinas e atitudes indecentes. A dança é nossa, jogamos o outro para fora, ele deve sair.

Os erros, que cometemos, saltam de nós para ferir o outro. É o contraditório do Homo sapiens, que, ao achar, estupidamente, que se compreende, justifica-se e inocenta a si mesmo, sem critérios de análise, transferindo toda malevolência a alguém que execra e avilta, sem lhe dar chance do direito do diálogo.

Máscaras, todavia, não são para sempre.

De tantas, o peso fá-las tropeçar algum dia, de maneira surpreendente e inesperada. E, quando tropeçam, o sol as ilumina e transparece a verdadeira criatura, na sua selvageria ou na sua mansidão.

Ser contraditório é da criatura humana (?!)

Tenhamos um bom sábado, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 7/02/26.

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