segunda-feira, 16 de março de 2026

Romaria das Candeias e o debate da exploração dos preços

Por Rita Fabiana Arrais (*)

A cidade de Juazeiro do Norte é um dos campos mais fecundos das variadas manifestações religiosas populares do Brasil. A sua religiosidade parece distante de tudo que achamos sacrificial e místico.

O calendário religioso local distribui-se entre dez romarias por ano, permitindo o fluxo constante de romeiros, ao mesmo tempo em que fortalece a economia com o aumento da circulação de moedas, e a geração de empregos.

Ocorreu entre os dias 29 de janeiro e 2 de fevereiro a Romaria das Candeias, conhecida como a "procissão luminosa". Dados disponibilizados pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico Turismo e Inovação de Juazeiro do Norte (Sedetur) informam que mais de 250 mil pessoas visitaram a cidade.

Não há informações concretas de quando iniciou-se a romaria, mas um fato importante e conhecido como a narrativa mais popular e fiel, é que no "[...] o crescimento do povoado no final do século XIX, em busca de alento espiritual e material, surgiu a necessidade de gerar emprego. Um serralheiro, passando por dificuldades, pediu ajuda ao Padre Cícero, que o orientou a fabricar candeeiros. [...] e aproveitando-se da comunhão com o povo os instruiu a comprar candeeiros para utilizar na data da procissão' (MARINHO, R. 2023).

A excelente resolutiva empreendedora do Padre reverbera por todo o Nordeste, relacionando as romarias aos efeitos do mercado econômico local.

A exploração dos preços de bens e serviços em tempos de romarias reflete a ausência de estratégias entre os empreendedores locais, (que precisam vender seus produtos), e o poder público que poderia negociar medidas em forma de incentivos promovendo a estagnação de preços, ou aumentos reduzidos e fragmentados anualmente para setores específicos da romaria, como os ranchos e pousadas.

É notório que as elevações de preços de diárias em 300%, com oferta de um quarto modesto com banheiro no corredor por uma bagatela de R$ 500,00 reais por pessoa é imoral. Outros produtos chamaram atenção pelo preço, como por exemplo: 300 ml de água por R$ 4,00, o café com leite e o pão de sal por R$ 7,00, o almoço estava o quilo por R$ 59,90, o prato de sopa ou caldo no jantar era vendido a R$ 15,00.

Diante desta realidade muitos romeiros passaram a substituir a alimentação, e a pernoitar dentro dos ônibus, em praças ou arredores das igrejas.

Perolina Lins, uma romeira de Maceió que durante a missa na Basílica Nossa Senhora das Dores, cantou assim o seu bendito da carestia: "Meu padrinho Ciço Romão nos ajude por favor. É grande a exploração na cidade do Senhor! Nas pousadas e racharia os valores são altos demais. E os romeiros sofrendo sem poder viajar mais.

(*) Economista.

Fonte: O Povo, de 13/02/26. Opinião. p.19.

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