Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie
Perguntei ao onde:
- Onde estou?
- Aqui, respondeu-me ele.
- Mas, eu não sei onde estou, como posso
saber o que é aqui?
O onde calou-se…
O tempo soprou
Soprou, soprou e soprou.
Então, perguntei ao vento:
- De tanto soprares, jogaste-me mais longe
do onde.
O vento não respondeu:
- Tão longe estou do onde, que nem mesmo me
vejo.
Com isto, o vento interveio:
- Mas, sabes quem és tu.
- Não, não sei. Não me sei, porém, vejo-me
perdido. Mas, não me interessa saber, pelo menos, por agora.
Fez uma pausa. Calou-se.
- Se não sabes quem és tu, por que queres
saber o ‘onde’? questionou-me o tempo. O caminho faz-se com a razão. Ela o
indica e somente ela pode dizer-te onde estás.
Nisso, o onde volta ao cenário:
- Não posso dizer-te onde está o ‘onde’.
Pois, o ‘onde’ anda perto do ‘sou’. E se não sabes o teu ‘sou’, de que adianta
buscar o onde? Faze-o em vão.
Fiquei mudo.
E continua o onde:
- Estás louco? Não vês que o teu ‘sou’ é
que define e determina o ‘onde’? Caso não saibas o teu ‘sou’, nunca encontrarás
o ‘onde’.
- Não consigo entender.
O onde esboçou um riso de ironia.
Foi aí que o tempo falou:
- Não entendes porque não te entendes. E,
se não te entendes, como queres entender o ‘onde’? Ele nem está em mim, mas no esconderijo de
tuas narinas.
- Minhas narinas? Quem o colocou nelas?
O tempo ri, sarcasticamente:
- Estás com amnésia? Com Alzheimer? Ou tua
desídia és tu mesmo?
Meu rosto enrubesce e meu corpo tensiona:
- Tua acusação me desonra e me atinge como
cruel verdugo a açoitar suas vítimas. Como podes acusar-me de mim mesmo?
E o vento volta a assoprar. Não, agora ele
assovia um refrão:
- Eu sou Noto. Lá do Mediterrâneo vi teu
surto e corri a ajudar-te quebrar alguma corrente, mas percebo que és cabeçudo.
E com uma canção nos lábios:
- O que passou, passou / Teu sou ficou no
passado. / O hoje não é presença, teu passado não passou. / O onde também ficou
/ na esquina do passado. / Se não recuperares, de novo, / o sou que faz o teu
onde / o que seria não será mais.
E termina com melancolia:
- O que foi não é, o que é já foi, e o que
será seria. O foi não foi, o é não veio e o será em coma adormeceu.
Assustei-me com tal premonição. A raiva deu
lugar ao remorso. Incontinenti aos dois eu falei:
- Há uma dor doendo em mim. Grande dor. Não
sei onde está, nem de onde veio, mas sinto que me queima.
O onde interveio:
- Se te queima, tu a sentes. E, se a
sentes, segue-lhe o rastro e encontrarás o onde.
E o tempo:
- E, lá, no onde, se investigares profundo,
darás de cara com o teu ‘sou’.
E lá me fui eu, em busca de mim e de minha
orquestra, lá, onde o onde pode
encontrar o sou.
Então, voltei a sonhar e a alegria
retornou, minha vida saltando para dentro de mim.
Encontrei o ‘onde’ e descobri o ‘sou’, no
seio de mim e na plataforma do tempo.
Vitória do sofrimento, que somente eu vivi,
vitória, que somente eu pude ver, curtir e viver. E mais ninguém viu, nem
sentiu.
Sem fé em mim, perco o sentido da fé em
Deus e a convivência fraterna de paz, partilha e amor, naufraga no orgulho e
ousadia de ‘ser’ o que não sou, de não saber ‘onde’ estou e de chegar aonde eu
não sei.
Mundus a me transit, sed huius mea visio a me nascit. Mundum non poneo,
sed in eo interago principiis meis ac
valoribus, quomodo sum. Ergo, primum ordo me cognoscere. (O mundo passa por mim,
mas minha visão dele nasce dentro de mim. Não posso criar o mundo, mas nele
interajo, a partir de meus princípios e valores, como eu sou. Daí que a
primeira coisa a fazer é me conhecer).
Uma boa terça-feira, com as bênçãos de
Deus!!!
(*) Pediatra e professor
da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 26/05/26.

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