Iprede completa 40 anos transformando a infância no Ceará I
Por Ana
Rute Ramires, jornalista de O Povo
Sulivan
Mota, médico pediatra e presidente do Instituto da Primeira Infância (Iprede) em
Fortaleza, fala sobre as mudanças nas demandas da entidade
O Instituto da Primeira Infância (Iprede) foi criado
1986 para combater a desnutrição grave. Ao longo de 40 anos, a instituição vem transformando
a infância de milhares de crianças e famílias. Atualmente, a organização destaca-se
também no suporte a crianças com transtorno do espectro autista (TEA) e no empoderamento
de mulheres em situação de vulnerabilidade, oferecendo desde cuidados médicos até
formação profissional.
Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro,
que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante
polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico
pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo
custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a
arte, cultura e esporte para promover a inclusão.
O POVO
- No início, o foco do atendimento era a desnutrição. Após 40 anos, isso mudou.
Qual o foco do atendimento hoje em dia?
Sulivan Mota - A grande diferença
vem através das demandas. Na época que o Iprede foi fundado, na década de 80 — precisamente
em junho de 86 — a demanda era desnutrição. Nós tínhamos que combater a desnutrição.
Nós tínhamos um pouquinho mais de um terço de nossa infância toda desnutrida. E
não era a desnutrição do primeiro e segundo grau. A grande maioria era do terceiro
grau. Era aquela sensação de quando se entrava dentro do Iprede que nós estávamos
chegando na África. Porque eram crianças realmente em estágios que nos diziam: "Isso
não pode existir". Tinha aquelas crianças que só tinha realmente, como a expressão
popular diz, o couro e os ossos, né? Eu me liguei ao Iprede por ser professor de
pediatria, por dar aula sobre desnutrição e eu levava os alunos lá. Eu não sou fundador
do Iprede. O Iprede foi fundado de uma forma muito mais linda do que fosse por mim.
Ele foi fundado por sete mulheres dentro do Hospital Infantil Albert Sabin (HIAS).
Essas mulheres todas, algumas Ana, algumas Maria, algumas Ana Maria, realmente chamando
a memória da presença da mãe e da avó de Jesus, né, Ana e Maria. E fundada a casa,
eu passei a frequentar. Frequentei durante 20 anos como professor, levando aluno,
como voluntário depois. E, depois, há 20 anos, nós assumimos a direção. Quando nós
assumimos, era aquele conceito dentro do mundo que o ser humano ele se formata nos
primeiros seis anos de vida, que é a chamada primeira infância, ou até mesmo dentro
da primeira metade, que é a primeiríssima infância, três anos. E o Iprede passou
a reconhecer que mesmo a criança que chegava lá em vulnerabilidade social extrema
era uma criança até 6 anos, era a primeira infância. Então, não havia mais aquela
urgência extrema da desnutrição, mas havia uma urgência de se investir no ser humano
em termos de formação, em termos de capital humano. E esse capital humano, ele é
formado principalmente através dos afetos. O afeto leva ao brincar, leva ao cuidar
e isso estava ausente nessa criança que chegava ao Iprede. Essa criança só tinha
algo em comum, que era a falta de vínculo entre ela e sua mãe. E o Iprede então
passou a buscar no mundo algum método e encontramos uma metodologia muito rica que
é chamada MISC, que trabalha formando e fortalecendo o vínculo mãe e filho. É uma
metodologia antiga, mas que tem um resultado maravilhoso. Uma metodologia que foi
usada após Segunda Guerra Mundial e nós aplicamos ainda hoje no Iprede entre mãe
e filhos que vêm oriundos da miséria. A miséria é uma desorganização social absoluta,
desorganização social, profissional, familiar. Você ter uma mãe que não tem vínculo
com seu filho, você vê o nível de desorganização. Essa criança que crescer, no sentido
de não ter um porto seguro, não ter uma mediação, porque você só é mediado se você
tiver alguém que você tem vínculo. Nessa mediação é que se estimula uma criança
pelo brincar, pelo afeto, pelo afago, pelo contato que nós temos. A mãe que não
tem vínculo com a criança, ela nem sequer toca o olho no olho da criança.
Fonte: O Povo, 7/06/26.
Aguanambi 282. p.12.

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