Iprede completa 40
anos transformando a infância no Ceará II
Por
Ana Rute Ramires, jornalista de O Povo
OP -
Desde o início, vocês se preocuparam em cuidar não apenas das crianças, mas o contexto
de cuidado de familiar...
Sulivan - Exatamente. Aí quando a gente
passou a gerar esse vínculo, a gente viu que do outro lado passamos não é só uma
mãe que é cuidadora, mas que essa cuidadora é uma mulher. O Iprede não enxergava
a mulher, ele enxergava a mãe. O Iprede tem essa dívida imensa com a mulher. Foi
quando nós passamos a criar, além da trajetória da criança, a trajetória feminina.
OP -
Vocês mudaram esse olhar, como é hoje?
Sulivan - Esse olhar é fantástico, porque
a gente passa a recuperar, não é só o peso da criança, a gente passa a recuperar
um ser humano. A gente passa a garantir para aquela criança um futuro de qualidade
e a gente passa a olhar para aquela mulher que chega ali, regra geral, a mulher
que passa por maior privação de vida, que é não ter escolhas. Ela não tem escolha
de absolutamente nada. Essa mulher, geralmente, recebe violência corporal do seu
parceiro. Essa mulher não tem uma formação profissionalizada. Essa mulher vive de
bico. Essa mulher não recebe elogios. Mas é essa figura mais sofrida da sociedade
que supera, que dá volta por cima, que cresce, que sai da miséria, depois de gerar
vínculo, levando seus filhos. É fantástico. Ela passa a ser provedora da sua família.
Ela passa a dizer não para violência domiciliar e passa a ter uma outra estruturação
organizada, saudável, garantindo qualidade de vida futura para os seus filhos.
OP -
Quais projetos vocês desenvolvem com esse foco na mulher, na independência?
Sulivan - Apoio da forma mais ampla possível,
a começar pela saúde. Nós temos a ginecologia que assiste a mulher em todos os seus
sentidos, na prevenção, no tratamento da doença ginecológica, na implantação de
DIU, retirada de DIU e biópsia, se for o caso fazer. Nós temos rodas de conversa
com psicólogos, profissionais da área de saúde mental que assegura essa mulher uma
escuta. E essa escuta direciona pro atendimento das suas necessidades e pro seu
crescimento pessoal. Nós temos também para a mulher a formação profissionalizante.
Hoje nós temos geralmente no Iprede mais de 30 tipos de curso que vai atender a
mulher. Aquela que não pode sair de casa pro trabalho, exerce sua atividade profissional
dentro da sua própria casa, seja ela na culinária, no corte de costura, na gastronomia
ou na estética.
Além do impacto direto nas famílias assistidas, o centro,
que completa quatro décadas no próximo dia 16, consolidou-se como um importante
polo de pesquisa e intercâmbio acadêmico internacional. Ao O POVO, o médico
pediatra Sulivan Mota, professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal
do Ceará (UFC) e presidente do Iprede, descreve metodologias inovadoras de baixo
custo desenvolvidas no instituto, que utilizam a arte, cultura e esporte para promover
a inclusão.
Fonte: O Povo, 7/06/26. Aguanambi
282. p.12.

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