Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
Estava no Parque Ibirapuera em um sábado
pela manhã. Costumo ir aos domingos, quando a maioria das pessoas passeia ou se
dedica a outras atividades. Havia muito mais gente correndo. Tanta gente
que o som dos sapatos batendo no chão se impunha: alto, contínuo, forte.
Lembrei-me de quando morei em São Paulo.
Vinda do Ceará, uma das coisas que mais me impressionava era a velocidade com
que as pessoas andavam em fluxo no metrô. Não havia outra opção senão
seguir. Lá, prevalecia o barulho do trem. Ali, no parque, o som vinha
inteiramente dos passos: um ritmo repetido, em cadência, quase uma marcha.
Naquele dia, eu apenas caminhava. Gosto de
experimentar os hábitos de quem mora no lugar. Pensei que, para os paulistanos,
o parque é como a praia é para mim. Era um dia ensolarado de outono, mas, na
sombra, o frio se insinuava. Muitas folhas amareladas cobriam a calçada. Por
mim, permaneceriam ali; não precisariam ser varridas, assim como as árvores não
deveriam ser podadas. Elas são bonitas em sua inteireza, e também são inteiras
quando lhes faltam as folhas.
A agitação da corrida ao meu redor parecia
ter se instalado em mim. Meus olhos necessitavam e buscavam o que se movia
devagar. Uma rajada de vento trouxe uma chuva dourada. Folhas caíam no chão,
mas antes flutuavam, dançavam como leves plumas. Obedeciam a um tempo próprio.
Em que momento cairiam?
Já os passos seguiam o tempo do relógio,
persistiam firmes, sem trégua, e meu corpo se sentia impelido a acompanhar.
Existia um compasso que convidava; bastava entrar. Por um momento, quase fui.
Hesitei. Mas decidi não ir - e havia um peso que não se via. Suave coisa
nenhuma.
As folhas continuariam caindo por alguns
dias. Em breve, aquelas árvores estariam completamente despidas, lembrando os
vasos sanguíneos do coração, até que o verde voltasse a pulsar. É assim todos
os anos.
A maioria das folhas já havia caído, poucas
ainda pairavam sob a brisa, sem direção certa, entregues ao vento.
Parecia possível adiar o chão.
Onde pousariam?
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 16/06/2026.
Opinião. p.16.

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