sexta-feira, 3 de julho de 2026

Crônica: Decidido: o Ceará não exportará mais bulim pros EUA!... e outro causo

Decidido: o Ceará não exportará mais bulim pros EUA!

A crônica de hoje é documento que tem fé, e a Casa Branca que se vire. Depois do anúncio da taxação de 25% das coisas daqui por parte do galego lá, eu me invoquei todo!

Na verdade eu não gostaria de fazer isso com o povo norte-americano. Porém, nós - os produtores de bulim, rosca, broa, coxão de moça e tijolim - seremos obrigados a tomar medida drástica e a parar vexado com a exportação desses produtos, salvo disposição em contrário. Explico: o Brasil não é estratégico somente por possuir a segunda maior reserva de terras raras do planeta, essenciais à fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos...

Nosso país é uma potência, sobremaneira, por ser o tuxaua mundial na manufatura dos itens que acima citei, especialmente quando a eles se somam a rapadura, a tapioca, o cuscuz, o fubá, o mucunzá e a mingonga, "dicumêres" raros que dão sustança ao despombalizado, coragem ao arrombado, categoria ao pebado e alegria ao (amo)finado.

Em conversa com os fabricantes das sete iguarias do parágrafo acima, fui informado que eles também cessarão suas produções e o "comércio bilateral" com os EUA, caso o presidente lá não pare de frescar com a gente aqui. "Estamos cansados desse estica-encolhe, dessa labutica sem futuro", confidenciou-me o maior produtor de maria-maluca, mariola e quebra-queixo da América Latina - o grande Zé Preguim.

- É prego batido e ponta virada! Babau! Num tem pra ninguém mais!

Confesso que me dói saber que o povo de riba do Equador vai parar de degustar alfenim pelos próximos tempos! Sei nem se vão sobreviver! Mas, fazer o quê, né? Eles que começaram!

O casal de moucos

De onde estávamos ouvia-se a gritaria do casal, que chegara à casa ao lado havia uma semana. Pelo tom de voz, discussão ferrenha. Desde que os dois aportaram, nunca um olá, apenas os víamos de longe - ele, grandalhão; ela, miúda e franzina. De seus 80 e poucos anos, ambos. Era mais ou menos assim o berreiro:

- Osman, pelo amor de Deus!!!

- Jarina, eu vou tacar-lhe o cacete!!!

- Se for pra matar, mate logo!!!

- É minha especialidade!!! Tome-lhe!!!

Das duas uma: ou a gente ia apartar a briga, em risco de aquilo virar tragédia, ou chamávamos a polícia. Fizemos os dois: ligamos pro 190 e, enquanto os guardas não apareciam, demos um pulinho lá. Gritos continuavam tonitruantes; nos aproximamos, silentes. Uma pancada forte agora se ouviu e ai, ai, ai: bufo!!!

- Olhaí o sangue escorrendo!!!

- Eu acho é pouco!!!

- Tu é um matador!!!

- Dou carne a gato, não!!!

Tocamos a campainha 15 vezes, ninguém apareceu. Preocupados com o que poderia ter acontecido de pior, entramos - porta só encostada. E lá estava a cena: ela trepada numa cadeira, se tremendo; ele em pé, segurando pelo rabo um guabiru de quase um quilo, sangrando pela boca. De relance, a senhora nos vê e dispara, assustada:

- Qué que vocês tão fazendo aqui?!? Hein?!?

- Achamos que vocês...

- Inês??? Meu nome é Jarina!!!

- Tangerina não, mulher!!! É um rato!!!

Fonte: O POVO, de 5/06/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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