Por
Pedro Salgueiro (*)
I - Esses viventes estranhos, metidos a
querer saber de quase tudo, a ser "antenas da raça". São seres
falíveis, feito quaisquer unzinhos; cheios de defeitos, pululam por aí emitindo
opiniões sobre o planeta e arredores. Dariam uma enciclopédia em cem volumes
todas as previsões, dicas e besteiras que proferiram pelos tempos afora.
A mim me (sic) parece serem apenas pequenos
seres inofensivos, cavilosos, vaidosos, mas inofensivos. Raros escrevem algum
livro que mudam uma geração, poucos lançam palavras que se sustem no vento.
Mas quão triste seria o mundo sem esses
vermezinhos feitos de ira, vaidade e água.
II - Me irrito profundamente quando escuto
ou leio alguém reclamando da enorme quantidade de escritores e lançamentos de
livros em nossa volúvel loirinha desmazelada pelo sol (esses mesmos jamais
reclamam da enorme quantidade de políticos ladrões, marginais de toda sorte,
péssimos profissionais e outras mazelas mais que inundam nossa vã sociedade).
Se for escritor o reclamante, imagino logo
que o sujeito quereria ser escritor sozinho e que se acha infinitivamente
melhor do que os outros (o que não se confirma na maioria das vezes).
Caso seja um jornalista o criticante, vejo
com piores olhos ainda, visto serem os profissionais que mais deveriam
valorizar a classe dos escritores (que todos, mesmos o fazedor de horóscopo,
deveriam almejar ser; e não raro são os que mais inflacionam o mercado com
obras dispensáveis e medíocres).
III - Adoro lançamento e se pudesse iria a
todos.
E são raras as semanas em que não vou
prestigiar um amigo, um desconhecido ou até antipatizante, com minha gordita
presença em sua noite de autógrafos.
Verdade que detesto discurso e
apresentações, e a primeira coisa que observo num palestrante é a quantidade de
páginas em suas mãos.
O resto é só festa, reencontro de amigos,
rebuliço de gente, corrida atrás dos quitutes e bebidas; de gente, em sua
maioria, de bem (o que não se pode afirmar de muitas reuniões sociais, clubes
granfinos e convenções de partidos).
Portanto, amigos, escrevam bastante e
tentem fazê-lo cada vez melhor; pois se seus escritos não ajudarem a tornar
melhor o mundo, com certeza não o tornará pior.
IV - Recentemente a polonesa, vencedora do
Prêmio Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk revelou, numa entrevista, já ter
usado a Inteligência Emocional para experimentos literários em seus textos, o
que chocou muitos e agradou poucos. Para brincar, mas longe de confiar na
ferramente, resolvi perguntar à tal IA o que os escritores acham sobre o
escrever:
- "O escritor é um homem que mais do
que qualquer outro tem dificuldade para escrever." - Thomas Mann (1875 -
1955);
- "Escrever é uma maneira de falar sem
ser interrompido." - Jules Renard (1864 - 1910);
- "Tantas pessoas que escrevem e tão
poucas que lêem!" - André Gide (1869 - 1951);
- "Escrevemos porque não queremos
morrer. É esta a razão profunda do ato de escrever." - José Saramago (1922
- 2010);
- "Não se 'faz' uma frase. A frase
nasce." - Clarice Lispector (1920 - 1977);
- "Acabar um livro é como dar à luz
uma criança e dar-lhe um tiro." - Truman Capote (1924 - 1984);
- "Depois de se escrever um conto,
deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais
mentimos" - Anton Tchekhov (1860 - 1904);
- "Nenhum ferro pode penetrar no
coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento
exato." - Isaac Bábel (1894 - 1940);
- "Devemos escrever para nós mesmos, é
assim que poderemos chegar aos outros." - Eugène Ionesco (1912 - 1994);
- "Toda frase deve fazer uma de duas
coisas - revelar o personagem ou avançar a ação." - Kurt Vonnegut (1922 -
2007);
- "A escrita não é senão ritmo."
- Virginia Woolf (1882 - 1941);
- "Minha regra mais importante é uma
que resume todas: se soa como escrita, eu reescrevo." - Elmore Leonard
(1925 - 2013).
Minha contribuição:
- "Eu acredito que a estrada para o
inferno é pavimentada com advérbios" - Stephen King
- "Palavras por si só não têm o poder
de impressionar a mente sem o horror requintado da sua realidade." - Edgar
Allan Poe
- "Você não pode culpar o escritor
pelo que os personagens falam." - Truman Capote.
- "Um livro é um sonho que você segura
em suas mãos." - Neil Gaiman
E para finalizar:
- "Escreva bêbado, edite sóbrio."
- Hemingway.
(*) Cronista e articulista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/05/25. Vida & Arte, p.2.

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