segunda-feira, 6 de julho de 2026

ESCRITORES

Por Pedro Salgueiro (*)

I - Esses viventes estranhos, metidos a querer saber de quase tudo, a ser "antenas da raça". São seres falíveis, feito quaisquer unzinhos; cheios de defeitos, pululam por aí emitindo opiniões sobre o planeta e arredores. Dariam uma enciclopédia em cem volumes todas as previsões, dicas e besteiras que proferiram pelos tempos afora.

A mim me (sic) parece serem apenas pequenos seres inofensivos, cavilosos, vaidosos, mas inofensivos. Raros escrevem algum livro que mudam uma geração, poucos lançam palavras que se sustem no vento.

Mas quão triste seria o mundo sem esses vermezinhos feitos de ira, vaidade e água.

II - Me irrito profundamente quando escuto ou leio alguém reclamando da enorme quantidade de escritores e lançamentos de livros em nossa volúvel loirinha desmazelada pelo sol (esses mesmos jamais reclamam da enorme quantidade de políticos ladrões, marginais de toda sorte, péssimos profissionais e outras mazelas mais que inundam nossa vã sociedade).

Se for escritor o reclamante, imagino logo que o sujeito quereria ser escritor sozinho e que se acha infinitivamente melhor do que os outros (o que não se confirma na maioria das vezes).

Caso seja um jornalista o criticante, vejo com piores olhos ainda, visto serem os profissionais que mais deveriam valorizar a classe dos escritores (que todos, mesmos o fazedor de horóscopo, deveriam almejar ser; e não raro são os que mais inflacionam o mercado com obras dispensáveis e medíocres).

III - Adoro lançamento e se pudesse iria a todos.

E são raras as semanas em que não vou prestigiar um amigo, um desconhecido ou até antipatizante, com minha gordita presença em sua noite de autógrafos.

Verdade que detesto discurso e apresentações, e a primeira coisa que observo num palestrante é a quantidade de páginas em suas mãos.

O resto é só festa, reencontro de amigos, rebuliço de gente, corrida atrás dos quitutes e bebidas; de gente, em sua maioria, de bem (o que não se pode afirmar de muitas reuniões sociais, clubes granfinos e convenções de partidos).

Portanto, amigos, escrevam bastante e tentem fazê-lo cada vez melhor; pois se seus escritos não ajudarem a tornar melhor o mundo, com certeza não o tornará pior.

IV - Recentemente a polonesa, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, Olga Tokarczuk revelou, numa entrevista, já ter usado a Inteligência Emocional para experimentos literários em seus textos, o que chocou muitos e agradou poucos. Para brincar, mas longe de confiar na ferramente, resolvi perguntar à tal IA o que os escritores acham sobre o escrever:

- "O escritor é um homem que mais do que qualquer outro tem dificuldade para escrever." - Thomas Mann (1875 - 1955);

- "Escrever é uma maneira de falar sem ser interrompido." - Jules Renard (1864 - 1910);

- "Tantas pessoas que escrevem e tão poucas que lêem!" - André Gide (1869 - 1951);

- "Escrevemos porque não queremos morrer. É esta a razão profunda do ato de escrever." - José Saramago (1922 - 2010);

- "Não se 'faz' uma frase. A frase nasce." - Clarice Lispector (1920 - 1977);

- "Acabar um livro é como dar à luz uma criança e dar-lhe um tiro." - Truman Capote (1924 - 1984);

- "Depois de se escrever um conto, deve-se cortar o início e o fim, pois é aí que nós, escritores, mais mentimos" - Anton Tchekhov (1860 - 1904);

- "Nenhum ferro pode penetrar no coração humano de maneira tão gélida como um ponto colocado no momento exato." - Isaac Bábel (1894 - 1940);

- "Devemos escrever para nós mesmos, é assim que poderemos chegar aos outros." - Eugène Ionesco (1912 - 1994);

- "Toda frase deve fazer uma de duas coisas - revelar o personagem ou avançar a ação." - Kurt Vonnegut (1922 - 2007);

- "A escrita não é senão ritmo." - Virginia Woolf (1882 - 1941);

- "Minha regra mais importante é uma que resume todas: se soa como escrita, eu reescrevo." - Elmore Leonard (1925 - 2013).

Minha contribuição:

- "Eu acredito que a estrada para o inferno é pavimentada com advérbios" - Stephen King

- "Palavras por si só não têm o poder de impressionar a mente sem o horror requintado da sua realidade." - Edgar Allan Poe

- "Você não pode culpar o escritor pelo que os personagens falam." - Truman Capote.

- "Um livro é um sonho que você segura em suas mãos." - Neil Gaiman

E para finalizar:

- "Escreva bêbado, edite sóbrio." - Hemingway.

(*) Cronista e articulista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/05/25. Vida & Arte, p.2.


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