A doação de ovos
Eu
sei que vocês vão dizer que é tudo mentira e que não pode ser... E muitos
dirão, certamente: ah, ele é imoral, escatológico, inimigo da moral e dos bons
costumes. Vamos lá então, data vênia. Ele, de quem falo, teve 18 filhos, dos
quatro casamentos perpetrados. Se dizia "menineiro". Trabalhou pouco
no curso dos 78 anos de vida. Em verdade, Josino Guaru estava mais - como dizia
uma das ex-sogras - para um procriador, "tirador de raça" que um pai
por convicção. Aposentou-se por idade.
A
vista cansada - não enxergava uma unha adiante; as oiças em petição de miséria
- ouvindo menos do que era preciso para figurar entre os fofoqueiros maiores da
cidade. Fumou muito, bebeu uma ruma, frescou feito um condenado. O físico já
não era esses balaios todos - sarcopenia braba, "só o oco e os caboré
cantando dentro". Mas era um cocriador de categoria incansável, incurável
e inflamável que era.
Em
certo encontro de família, assuntava-se a doação de órgãos. O que cada um ali
tinha para doar? Que órgão poderia servir a quem mais precisasse? E Josino, em
especial, o que teria a oferecer a quem carente de vida estivesse?
Eu
doo as córneas, mas Guaru, coisa nenhuma! Quengado como tá, bulhufas pra doar -
opinou o primo Vandir.
Nem
que eu precisasse do fígado dele, pela cachaça que tomou, eu aceitava!
Valei-me! - despachou Braguinha, tio por parte de vizinha.
Eu
sempre falei: lascou-se, Zé (José Josino) com esse cigarro! - vituperava Seu
Nanan.
Guaru,
ouvindo aqueles insultos todos sem poder reagir, pois trazia no corpo
"distiorado" as marcas de uma verdade deverasmente pronunciada, mas
no fundo acreditava no potencial de botar menino no mundo. Quando a ex-sogra
Valdete pronunciou-se, vinagrosa, dizendo que o homem já estava morto, aí ele
criou ânimo. E disparou:
Pois
eu tenho o que doar pra ti, Biluca!
Só
se for as tuas ventas, bicho véi sem futuro!
-
É? Quer saber?
-
Diz o que tem pra "adoar", fulerage!!!
Meuzóvo!!!
Quis dizer "até a ´próxima"!
Os
amigos do 1º científico-manhã do saudoso Colégio Júlia Jorge só se encontravam
em velório, parecia brincadeira. Tinha já 50 anos que era assim. Quando se
conheceram, naquela que foi uma das turmas que mais doutores deram a UFC,
tinham entre 15 e 16 anos. Morreu um, lá estava o magote restante a prantear o
de cujus da hora e a marcar, por pura mania, futuros encontros em bar, em
aniversário, em estádio, em quermesse... Encontros que, positivamente, nunca
existiram, a não ser ali.
Na
derradeira cerimônia fúnebre - partia para a outra o colega agrônomo Zé Prata,
o estimado Mozinho, um dos mais jovens da referida turma do 1º científico
"do Júlia", apresentando as despedidas no portão do complexo
velatório famoso, falou assim, porquanto já se tornara praxe entre eles:
-
Bem amigo, vou-me já! E até o próximo!
Solidariedade é isso!
Confesso
que rompante de cooperação humana baseada na empatia eu nunca virá até então.
Senhor de 87 anos, na academia do condomínio, caiu exausto na esteira. Dois
colegas ao lado (um na bicicleta ergométrica e o outro no remo indoor)
interromperam seus exercícios, correram até o velhinho exausto e o colocaram
braços, carregando-o até o cronômetro zerar. Emocionante!
Fonte: O POVO, de 19/06/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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