Por Pe.
Reginaldo
Manzotti (*)
O mês de junho ocupa um lugar singular
na espiritualidade católica. Além de celebrarmos os santos juninos é o tempo em
que a Igreja volta seu olhar, de modo especial, para o Sagrado Coração de
Jesus, fonte inesgotável de amor, misericórdia e entrega total. Ao mesmo tempo,
celebramos Corpus Christi, solenidade que nos convida a contemplar o mistério
da Eucaristia: Cristo que permanece conosco, fazendo-Se pão partido para a vida
do mundo.
Essas duas devoções, embora distintas em
forma, estão profundamente unidas em conteúdo. Ambas nos conduzem ao mesmo
centro: o amor de Jesus que Se doa sem reservas.
Desde a infância, a devoção ao Sagrado
Coração de Jesus não foi apenas um ensinamento, mas um ambiente em que cresci.
Lembro-me nitidamente de minha mãe usando, com simplicidade e fé, a fita do
Apostolado da Oração, e de como a Comunhão Eucarística da primeira sexta-feira
do mês era parte sagrada da rotina familiar. Antes mesmo de compreender
plenamente a teologia dessa devoção, eu já aprendia, pelo exemplo, que o
Coração de Jesus é escola de amor, fidelidade e entrega.
Celebrar o Sagrado Coração é deixar-se
envolver por um Deus que não permanece distante, mas que se compromete
profundamente com a humanidade, um Deus que ama com um coração que pulsa de
compaixão, que sofre com a indiferença humana, mas que nunca deixa de amar. Ao
contemplarmos esse Coração, somos convidados a reconhecer que Deus não é
distante nem indiferente: Ele tem um coração e esse coração nos ama
pessoalmente e individualmente.
Na profecia de Ezequiel 34,11-16, Deus
se revela como um pastor que não terceiriza o cuidado de seu rebanho. Ele mesmo
sai em busca das ovelhas perdidas, recolhe as dispersas, cura as feridas e
fortalece as fracas. Esse texto não fala apenas de proteção, mas de proximidade
ativa. O coração de Deus é inquieto diante da dor de seus filhos.
Essa imagem do Pastor reflete claramente
o Coração de Jesus: um coração que vê, que se move e que age. Não é um
amor genérico, mas pessoal. Cada ovelha é conhecida, cada ferida é tocada. No
Sagrado Coração, encontramos um Deus que não desiste de procurar, mesmo quando
nos afastamos.
Essa Palavra me tocou muito fundo. Ao
meditá-la, imagino Jesus dizendo, com a ternura do Bom Pastor: "Eu encontrei e
resgatei a minha ovelha que usava drogas. Eu busquei a minha ovelha que pensava
em suicídio. Eu encontrei a minha ovelha machucada. A minha ovelha que
abandonou a Igreja, eu busquei. A minha ovelha que não se rendeu aos meus
ensinamentos, eu busquei. Aquela pessoa que ninguém quis amar, eu busquei. Eu
encontrei a minha ovelha."
Assim é o Coração de Jesus: um coração
que não se cansa, que atravessa a noite, que vai ao encontro do perdido, do
ferido, do rejeitado. Um coração que não desiste de amar.
No Evangelho de João 19,34, ao pé da
cruz, o soldado abre com a lança o lado de Jesus, e de seu interior brotam
sangue e água. A Igreja sempre reconheceu nesse gesto mais que um fato
histórico: é a revelação suprema do amor. O Coração de Jesus é aberto, não por
acaso, mas como sinal de que nada é retido, tudo é entregue.
A água recorda o Batismo; o sangue, a
Eucaristia. Do Coração transpassado nascem os sacramentos que sustentam a vida
cristã. Olhar para esse Coração ferido é compreender que o amor de Deus não é
teórico, é concreto, passou pela dor, pela rejeição e pela cruz.
Como expressa belamente Santo Agostinho:
"Vosso
Coração, Jesus, foi ferido para que na ferida visível contemplássemos a ferida
invisível do vosso grande amor."
A lança abriu o lado de Cristo, mas foi
o amor que já havia aberto seu Coração muito antes.
A prática da Comunhão reparadora nas
primeiras sextas-feiras do mês não é um ritual vazio, mas uma resposta de amor
ao amor. Reparar não significa assumir culpas alheias, mas oferecer presença,
fidelidade e consolo ao Coração tantas vezes ferido pela indiferença, pelo
pecado e pelo esquecimento.
Em um mundo marcado pela pressa, pela
superficialidade e pela dureza das relações, o Sagrado Coração de Jesus
permanece como um convite sempre atual: "Aprendei de mim, que sou manso e humilde
de coração."
Ele continua procurando ovelhas feridas,
oferecendo repouso às cansadas e esperança às que se sentem esquecidas.
Celebrar junho como mês do Sagrado Coração é mais do que manter uma tradição; é
renovar uma escolha.
Escolher viver a partir do amor que se
doa, do cuidado que se compromete, da fé que se traduz em gestos concretos.
Que o Sagrado Coração de Jesus continue
sendo nossa morada, nossa escola e nossa esperança.
(*) Fundador e presidente da
Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de
Guadalupe, em Curitiba (PR).
Fonte: O Povo, de 13/06/2026.
Opinião. p.24.

Nenhum comentário:
Postar um comentário