sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Crônica: Chico Pinto e a riqueza que vinha dos 'vazios'... e outros causos

Chico Pinto e a riqueza que vinha dos 'vazios'

Amiga Claudinha me mandou essa, contada pelo Nonato, ex-lateral direito do Quixadá dos tempos de Xavante e Jacaré na zaga. Jura pela "Cruz de Deus" como é verdade. Pretensão! Lá pelas bandas de Ibaretama, precisamente na localidade de Macacos, bem na extrema, explica, morava um cidadão conhecido por Chico Pinto.

Chico tomava conta de uma fazendinha pertencente a um senhor residente no Conjunto José Walter, aqui em Fortaleza. Era homem trabalhador, e tinha duas grandes habilidades: gostava duma cachaça (amuada) e era muito animado para fazer menino (reprodutor).

— E não era de meia que eu fazia menino, não, viu?

Naquele tempo, existia um benefício que garantia um dinheiro quando a mulher tinha filho. E Chico Pinto, que já era pai duma ruma, descobriu que aquilo também podia virar patrimônio, investimento, meio de vida. Toda vez que a mulher paria, Chico recebia o dinheiro e comprava uma novilha.

E assim foi: menino pra cá, novilha pra lá, novilha pra cá, menino pra lá... até que conseguiu juntar quatro vacas e uma novilha - esta última comprada depois do nascimento do filho mais recente, um tal Júnior Filho. Certo dia, no meio duma bebedeira, Chico na mesa de bar se gabando de sua riqueza...

— Eu já tenho é quatro vacas e uma novilha! Tá pôde?

No mesmo estabelecimento encontrava-se Manuel Vieira, o famoso Mané Mago. Que tinha um jeito peculiar de beber cachaça - não ficava rico, nem valente. Perdia era o medo de dizer a verdade na cara dos outros. Ao ouvir Chico se pabulando de novo...

— Eu estou ficando é rico, homem!

... Mané Mago olhou bem no fucim do outro, deu mais um gole e soltou essa:

— Rico coisa nenhuma, macho! Tu não tem é nada! Tudo que tu tem vem é dos vazios da tua mulher!

Para quem conhece a linguagem dos antigos, "os vazios" não precisavam de explicação: era por onde os filhos chegavam ao mundo. Naquele caso, também por onde o dinheiro das crias acabava virando vaca. Chico Pinto, porém, não achou graça nenhuma. Ficou enfurecido, puxou uma faca e partiu para cima de Mané Mago.

O problema é que Mané Mago era tão magro que, segundo a tradição oral da região, se tivesse corrido de frente para o vento, chegava do outro lado da estrada antes do próprio corpo. A discussão virou briga, e Mané Mago acabou levando a pior. Depois da confusão, Chico Pinto deixou a região. Vendeu as vacas que havia conseguido juntar e foi embora.

O resultado de toda aquela história: Chico Pinto ficou sem as vacas, Mané Mago deixou a história por contar e seu Pedro, lá do José Walter, ficou sem morador na fazenda.

Desde então, quando alguém em Macacos começa a se gabar de patrimônio, sempre existe o risco de aparecer um Mané Mago da vida e perguntar:

— Mas esse patrimônio veio de onde mesmo, macho?

Naquela época, em Ibaretama, gente fazia menino por amor, por gosto... Chico Pinto fazia pensando na cotação da novilha.

Pra inglês ouvir!

Mundico trabalhou por 10 anos na casa de seu Jorge e dona Candinha, que "traçavam" um inglesinho até mais ou menos. Um dia, interessado em Michael Jackson, perguntou a seu Jorge como era "começar" em inglês e o patrão respondeu: "Begin!" E recomeçar, seu Jorge? "Rebegin". Parar? "Stop".

- E reparar?

- Restop!!!

Fonte: O POVO, de 25/09/2026. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.


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