Chico Pinto e a riqueza que vinha dos 'vazios'
Amiga
Claudinha me mandou essa, contada pelo Nonato, ex-lateral direito do Quixadá
dos tempos de Xavante e Jacaré na zaga. Jura pela "Cruz de Deus" como
é verdade. Pretensão! Lá pelas bandas de Ibaretama, precisamente na localidade
de Macacos, bem na extrema, explica, morava um cidadão conhecido por Chico Pinto.
Chico
tomava conta de uma fazendinha pertencente a um senhor residente no Conjunto
José Walter, aqui em Fortaleza. Era homem trabalhador, e tinha duas grandes
habilidades: gostava duma cachaça (amuada) e era muito animado para fazer
menino (reprodutor).
—
E não era de meia que eu fazia menino, não, viu?
Naquele
tempo, existia um benefício que garantia um dinheiro quando a mulher tinha
filho. E Chico Pinto, que já era pai duma ruma, descobriu que aquilo também
podia virar patrimônio, investimento, meio de vida. Toda vez que a mulher
paria, Chico recebia o dinheiro e comprava uma novilha.
E
assim foi: menino pra cá, novilha pra lá, novilha pra cá, menino pra lá... até
que conseguiu juntar quatro vacas e uma novilha - esta última comprada depois
do nascimento do filho mais recente, um tal Júnior Filho. Certo dia, no meio
duma bebedeira, Chico na mesa de bar se gabando de sua riqueza...
—
Eu já tenho é quatro vacas e uma novilha! Tá pôde?
No
mesmo estabelecimento encontrava-se Manuel Vieira, o famoso Mané Mago. Que
tinha um jeito peculiar de beber cachaça - não ficava rico, nem valente. Perdia
era o medo de dizer a verdade na cara dos outros. Ao ouvir Chico se pabulando
de novo...
—
Eu estou ficando é rico, homem!
...
Mané Mago olhou bem no fucim do outro, deu mais um gole e soltou essa:
—
Rico coisa nenhuma, macho! Tu não tem é nada! Tudo que tu tem vem é dos vazios
da tua mulher!
Para
quem conhece a linguagem dos antigos, "os vazios" não precisavam de
explicação: era por onde os filhos chegavam ao mundo. Naquele caso, também por
onde o dinheiro das crias acabava virando vaca. Chico Pinto, porém, não achou
graça nenhuma. Ficou enfurecido, puxou uma faca e partiu para cima de Mané
Mago.
O
problema é que Mané Mago era tão magro que, segundo a tradição oral da região,
se tivesse corrido de frente para o vento, chegava do outro lado da estrada
antes do próprio corpo. A discussão virou briga, e Mané Mago acabou levando a
pior. Depois da confusão, Chico Pinto deixou a região. Vendeu as vacas que
havia conseguido juntar e foi embora.
O
resultado de toda aquela história: Chico Pinto ficou sem as vacas, Mané Mago
deixou a história por contar e seu Pedro, lá do José Walter, ficou sem morador
na fazenda.
Desde
então, quando alguém em Macacos começa a se gabar de patrimônio, sempre existe
o risco de aparecer um Mané Mago da vida e perguntar:
—
Mas esse patrimônio veio de onde mesmo, macho?
Naquela
época, em Ibaretama, gente fazia menino por amor, por gosto... Chico Pinto
fazia pensando na cotação da novilha.
Pra inglês ouvir!
Mundico
trabalhou por 10 anos na casa de seu Jorge e dona Candinha, que
"traçavam" um inglesinho até mais ou menos. Um dia, interessado em
Michael Jackson, perguntou a seu Jorge como era "começar" em inglês e
o patrão respondeu: "Begin!" E recomeçar, seu Jorge? "Rebegin".
Parar? "Stop".
-
E reparar?
-
Restop!!!
Fonte: O POVO, de 25/09/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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