domingo, 18 de outubro de 2026

AMADURECEMOS E ESTAMOS CRESCENDO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Ontem, foi um dia diferente.

Não, não foi apenas diferente. Foi supimpa.

Tivemos a visita de Hipócrates, que nos veio saudar. E, no tempo presente, revivemos o passado recente de nossa juventude, ao encontro de nossos anseios e de nossos sonhos.

Foi, de fato, uma noite maravilhosa.

O auditório do Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará-CREMEC proporcionou à Turma JK/1976 uma saudosa e eterna memória, saudosa dos que estavam presentes e eterna dos que já nos haviam precedido, na última e inexorável viagem.

Ao adentrar o recinto, pareceu-me que uma nuvem nevada descera do alto e pairava sobre nossas cabeças, contrastando com a cor de nossos paletós e a beleza das colegas que envergavam seus adornos pujantes.

A presidente do CREMEC, Dra. Inês Tavares, abrilhantou a abertura da sessão, com sua imponente vestimenta e com seu discurso, que calou, profundamente, em nossos corações.

O silêncio era tamanho, que não se perdia uma só palavra de seu discurso. E aumentou ainda mais, quando o nosso querido e nobre colega, Dr. Odorico, brindou-nos com uma excelente oratória, apresentando-nos a história recente de nossa caminhada. Fez-nos navegar no Danúbio Azul, curtindo as belezas e as agruras de nossos passos e, outras vezes, voar no tapete de Aladim, revisitando lugares aprazíveis e situações tão diversas quanto díspares, onde rimos e dançamos, cantamos e choramos aos ritmos que nos embalaram, na meninice de nossos sonhos e na juventude de nossas realizações.

Crescemos e amadurecemos.

Cinquenta anos. Tão perto e tão distante. Tantas coisas para contar. Tantas surpresas inesquecíveis. Tantas corridas, que nos atiraram em rápidas mudanças, as quais nos ativaram a determinação de aperfeiçoar, sempre mais, o nosso ‘modus vivendi’ a arte hipocrática.

Somos médicos. Há cinquenta anos, vemo-nos, agora, num átimo de tempo, jovens cheios da audácia de discípulos de Hipócrates: nossa juventude exalava a energia de guerreiros, marchando para a luta, em defesa da vida, em busca da homeostase perdida e do equilíbrio da economia vital.

Somos médicos. Somos humanos. A humanidade nunca nos visitou, porque nós éramos e somos humanidade. Desistir seria inominável, seria a perda da essência de ser, seria a profanação de nosso mister de cuidar. Como expressou Odorico, com a sabedoria que refletiam suas cãs, iguais às nossas, “os livros nos ensinaram doenças, [os mestres nos mostraram sinais e sintomas], porém, foram os pacientes que nos ensinaram medicina”. Sim, os pacientes trouxeram-nos o viço, o vigor e as fragilidades criaturais da humanidade, que vive em cada um de nós. Isto, disse-nos Odorico, para aprendermos que, mesmo quando não for possível curar, ainda assim, jamais poderemos deixar de cuidar.

Somos médicos. Somos humanos. Somos nossa espiritualidade, pensando, sentindo, agindo, em cada decisão e atitude tomadas. E não há espiritualidade consistente sem uma humanidade, conscientemente, sólida. Deus nos preside, quer queiramos ou não.

O médico é Seu assistente, junto ao irmão que sofre e cujo olhar suplicante mistura-se à humanidade untada, indefectível, da espiritualidade latente do esculápio.

É esta espiritualidade, que jamais nos deixará capitular ao relativismo, nem substituir o sentido essencial da nossa humanidade pelos avanços científicos e tecnológicos. Aliás, nós somos seus criadores e, seremos humanos, enquanto continuarmos a ser seus curadores. Sem espiritualidade, perde-se a humanidade e sem os dois, não haverá medicina.

Cinquenta anos, que nos forjaram o amor no serviço do bem-estar do ser humano, nós os vivenciamos, em poucos momentos horários. Encurtou-se o espaço, recuou o tempo indomável e recalcitrante, montanhas se planificaram. Eis-nos todos no início da jornada, em 1976, cabelos negros, ânimos decididos, com propósitos firmes, mas sem conhecer o que haveria de vir. Sem ainda sentir o grito de dores e sem ouvir os pedidos de socorro. Todavia, com a vontade de prosseguir e nunca desistir. Eis-nos, novamente, em 2026, com alguns colegas já transmudados para o reino do infinito, aos pés do Criador, lavados com o sangue do Cordeiro, a receberem os louros da vitória.

Foi uma bela festa.

Magnânima.

Plena de profundas reflexões e eternas gratidões.

E o anfitrião foram nossos pacientes.

Obrigado à presidente do CREMEC, a todos os colegas e funcionários, que o constituem, pelo reconhecimento de nossas lutas, pela humanidade que nos habita, pelo espírito que nos conduz, pelo estado (e não profissão) que desposamos, pela vida que nos irmana.

Uma saudação agradecida e orante aos que já nos deixaram.

Um abraço fraterno e cordial a todos e, privativamente, a cada colega.

Segue também minha saudação, em forma de canção

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/10/26.


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