Por Lauro Chaves Neto (*)
O cenário
econômico brasileiro volta a se deteriorar de forma evidente, frustrando a
expectativa, ainda recente, de um ciclo mais consistente de queda da taxa Selec
ao longo de 2026. O que se desenhava
como um processo gradual de afrouxamento monetário deu lugar a um ambiente de
maior incerteza.
Parte dessa mudança
vem do cenário externo. As tensões no Oriente Médio mantêm o petróleo em
patamares elevados, pressionando custos logísticos e produtivos. Ao mesmo
tempo, o El Niño já projeta impactos sobre a produção agrícola,
com reflexos diretos sobre os preços dos alimentos.
Some-se a isso a
resiliência da economia americana, que reduz o espaço para cortes de juros pelo
Federal Reserve e pressiona o câmbio em países emergentes como o Brasil.
No plano
doméstico a política econômica contribui para esse quadro. A ampliação de
estímulos fiscais e creditícios, em um ambiente já pressionado, reforça
expectativas inflacionárias. Não por acaso, as projeções para o
IPCA seguem em trajetória ascendente, afastando-se do centro da meta e
exigindo cautela do Banco Central.
Nesse contexto, a
autoridade monetária se vê diante de um dilema clássico. Diante de uma inflação
de 4,72% nos últimos 12 meses, portanto acima do teto da meta, reduzir juros
prematuramente pode significar subestimar choques que se mostram persistentes.
Por outro lado, manter a Selic em patamares elevados prolonga o custo
financeiro para famílias, empresas e o próprio setor público.
Os sinais já são
visíveis. A inadimplência cresce, os pedidos de recuperação judicial se
multiplicam e o mercado financeiro reage com maior aversão ao risco. O otimismo
que marcou o início do ano dá lugar a uma maior volatilidade da bolsa e do
câmbio.
O risco não é
apenas inflacionário, é também de um esgotamento gradual da capacidade de
crescimento sustentado, caso a política econômica permaneça refém de estímulos
de curto prazo. Em um ambiente global mais adverso, disciplina fiscal e
previsibilidade deixam de ser opções e passam a ser condições necessárias para
restaurar a confiança e abrir espaço para a redução sustentável dos juros.
(*)
Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de
Economia.
Fonte: O Povo, de 22/06/26. Opinião. p.16.

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