Por
Vladimir Spinelli Chagas (*)
1983. Gonzaga Mota assumia o governo do
Ceará com uma herança de grandes dificuldades que o Estado atravessava, em
parte por conta da estiagem que assolou todo o território a partir de 1979, um
fenômeno considerado por alguns historiadores como a maior seca já vivida.
A inclemência climática encaminhava o Ceará
para um colapso social, sendo o batismo de fogo do novo governante, que
precisou de toda a sua experiência para buscar soluções urgentes e minorar o
sofrimento de tantos cearenses.
Episódios como a falta absoluta de água em
Senador Pompeu, a invasão dos armazéns da Cobal em Canindé, a invasão de
flagelados de Itapipoca a Fortaleza, a migração massiva em Quixeramobim e o
flagrante do calango abatido por Chico Marcolino para sua alimentação, em Apuiarés,
representavam o desespero de um povo. O sertão bateu às portas do Palácio da
Abolição.
Os bolsões de emergência não se mostravam
suficientes, mas o governador tinha vantagens a explorar. Como um renomado
economista, tinha a visão técnica do problema. Como um democrata, tinha a visão
política, embora ainda fosse neófito nessa área. Mas tinha uma outra força que
ele próprio talvez não tivesse percebido.
Falo de sua esposa, Miriam, que iniciou um
trabalho com um grupo de servidores e voluntários e, a partir dele, convenceu o
governador de que se precisaria de muito mais para estancar o sofrimento
daquele povo, surgindo daí o que se denominou Missão Asa Branca.
A primeira-dama coordenou as atividades da
Missão, contando com novos apoios, como a Defesa Civil, o Exército, a Polícia
Militar e a Cruz Vermelha, além de empresários e associações, de forma a levar
para o interior comboios com água, roupas e alimentos e propiciar ações de
saúde, documentação, dentre outras.
Ela foi considerada à época uma
primeira-dama gestora, capaz de enfrentar uma logística de guerra, vencer
tensões políticas e gerir de forma adequada os conflitos resultantes da
situação de tragédia então vivida, servindo ainda hoje como exemplo de dedicação
e solidariedade.
Das crises surgem pessoas com capacidade de
as transformar em oportunidades, como o fez Miriam Porto Mota.
(*) Professor aposentado
da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do
CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/02/26. Opinião. p.18.

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