Mostrando postagens com marcador reli. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador reli. Mostrar todas as postagens

domingo, 25 de outubro de 2026

Júbilo. Ir a pé para Canindé

Por Izabel Gurgel (*)

Em visita ao Museu Indígena Kanindé, no sítio Fernandes, em Aratuba, observei o tanto de pessoas chamadas Francisca, Francisco. Quis saber sobre devoção a São Francisco, se costumavam ir para a festa em Canindé, se havia gente que descia a pé. Ouvi como resposta: "Sim, todo ano". São cerca de 40km de distância.

Em abril, de chuvas mil, a estrada Canindé - Aratuba é uma louvação. Nossa abundância de céu com margens que esplendem os verdes, viço, alegria de várzea com a passarada, jardins de terreiro só querendo saber de viver. Fartura, para fartar-se, festejar. Poucas casas no caminho. Muita, muita vida ao redor.

Nos meses de setembro e outubro, quando tem mais gente a caminho de Canindé, é outra paisagem. Imagino o reverso de quando subimos de carro na Semana Santa. Descer a pé, ao ritmo do corpo, do grupo que se desloca, e ir vislumbrando a cidade sertaneja que é maior do que seu desenho físico, uma vez que se irradia e se move e se amplia em cada criatura peregrina, que vai e vem pelos caminhos e modos possíveis. Canindé, sabemos, é, depois de Assis, na Itália, a maior fonte franciscana. A cidade uma flor da fé a atrair abelha, o que incide tanto na polinização quanto na feitura do mel.

Fiz uma vez a pé, no começo dos anos 2000. Digo fui a pé para Canindé e quem escuta pode achar que a criatura sai de casa com o ímpeto de quem corre para tirar a roupa do varal porque bateu uma chuva e só para na Basílica, um estirão entre 110-120km. Claro que não. Uma romaria tem rumo. E prumo.

É uma alegria viajar a pé, por escolha, e com o serviço de bastidor feito por gente dedicada. Você com a mais leve das bolsas carregando escova e pasta de dente, prato, talher e copo, água, uma toalhinha, uma merenda... E, talvez, percebendo pela primeira vez o peso do mínimo, do básico, do incontornável do cotidiano.

Saímos da igreja de Jesus, Maria e José, no bairro Antônio Bezerra, umas cinco da tarde. Caminhamos diariamente depois das quatro da tarde e até umas nove, na madrugada por volta das quatro e até umas sete da manhã. Noite funda e o dia todo, pausa para a maioria, no pouso já combinado por quem cuida da romaria. Quatro noites em alpendres, ao ar livre sob pés de algaroba, com redário à beira da estrada ou guardado em casas de morar ou de comércio há tempos ajustadas para acolher romarias.

Nosso grupo de mais de duzentas pessoas contava com caminhão-baú para bagagem (a rede de dormir é o móvel principal), ônibus-cozinha, carros de apoio com água, a ir e vir também para deixar menos inseguro o caminho, a maior parte sem via para caminhantes. A estrada é bem parecida com a cidade que a gente tem. Desaconselhável para pedestre.

A Caravana Maria Salgado começou em 1935. Maria Salgado e Liberato Salgado, com três filhos crianças, saem de Fortaleza para Canindé, com um jumento de apoio para levar a bagagem. A viagem se realizava como ex-voto, feita pela graça alcançada junto a São Francisco, a saúde de Dona Maria. Em 2026, sai dia 9 de outubro.

Raimunda Gomes Braga e José Alves Braga, Seu Braguinha e Dona Mundinha, também para pagar promessa, fizeram o caminho em 1958. A romaria Dom Joaquim (o nome da rua onde moravam) sai dia 7. O neto Lucas disse que são 226 pessoas.

O grupo com o qual caminhei faz 30 anos em 2026. E se desdobra em seis romarias. Naquele ano, ouvi o coordenador Paulo Helmut nos saudar à saída dizendo: "A nossa romaria não é de penitência. É de alegria".

P.S.: Que São Francisco nos guie na votação do dia 4. É melhor ser alegre que ser triste.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/09/26. Vida & Arte, p.2.


 

Free Blog Counter
Poker Blog