Por
Izabel Gurgel (*)
Em visita ao Museu Indígena Kanindé, no
sítio Fernandes, em Aratuba, observei o tanto de pessoas chamadas Francisca,
Francisco. Quis saber sobre devoção a São Francisco, se costumavam ir para a
festa em Canindé, se havia gente que descia a pé. Ouvi como resposta:
"Sim, todo ano". São cerca de 40km de distância.
Em abril, de chuvas mil, a estrada Canindé
- Aratuba é uma louvação. Nossa abundância de céu com margens que esplendem os
verdes, viço, alegria de várzea com a passarada, jardins de terreiro só
querendo saber de viver. Fartura, para fartar-se, festejar. Poucas casas no
caminho. Muita, muita vida ao redor.
Nos meses de setembro e outubro, quando tem
mais gente a caminho de Canindé, é outra paisagem. Imagino o reverso de quando
subimos de carro na Semana Santa. Descer a pé, ao ritmo do corpo, do grupo que
se desloca, e ir vislumbrando a cidade sertaneja que é maior do que seu desenho
físico, uma vez que se irradia e se move e se amplia em cada criatura
peregrina, que vai e vem pelos caminhos e modos possíveis. Canindé, sabemos, é,
depois de Assis, na Itália, a maior fonte franciscana. A cidade uma flor da fé
a atrair abelha, o que incide tanto na polinização quanto na feitura do mel.
Fiz uma vez a pé, no começo dos anos 2000.
Digo fui a pé para Canindé e quem escuta pode achar que a criatura sai de casa
com o ímpeto de quem corre para tirar a roupa do varal porque bateu uma chuva e
só para na Basílica, um estirão entre 110-120km. Claro que não. Uma romaria tem
rumo. E prumo.
É uma alegria viajar a pé, por escolha, e
com o serviço de bastidor feito por gente dedicada. Você com a mais leve das
bolsas carregando escova e pasta de dente, prato, talher e copo, água, uma
toalhinha, uma merenda... E, talvez, percebendo pela primeira vez o peso do
mínimo, do básico, do incontornável do cotidiano.
Saímos da igreja de Jesus, Maria e José, no
bairro Antônio Bezerra, umas cinco da tarde. Caminhamos diariamente depois das
quatro da tarde e até umas nove, na madrugada por volta das quatro e até umas
sete da manhã. Noite funda e o dia todo, pausa para a maioria, no pouso já
combinado por quem cuida da romaria. Quatro noites em alpendres, ao ar livre
sob pés de algaroba, com redário à beira da estrada ou guardado em casas de
morar ou de comércio há tempos ajustadas para acolher romarias.
Nosso grupo de mais de duzentas pessoas
contava com caminhão-baú para bagagem (a rede de dormir é o móvel principal),
ônibus-cozinha, carros de apoio com água, a ir e vir também para deixar menos
inseguro o caminho, a maior parte sem via para caminhantes. A estrada é bem
parecida com a cidade que a gente tem. Desaconselhável para pedestre.
A Caravana Maria Salgado começou em 1935.
Maria Salgado e Liberato Salgado, com três filhos crianças, saem de Fortaleza
para Canindé, com um jumento de apoio para levar a bagagem. A viagem se
realizava como ex-voto, feita pela graça alcançada junto a São Francisco, a
saúde de Dona Maria. Em 2026, sai dia 9 de outubro.
Raimunda Gomes Braga e José Alves Braga,
Seu Braguinha e Dona Mundinha, também para pagar promessa, fizeram o caminho em
1958. A romaria Dom Joaquim (o nome da rua onde moravam) sai dia 7. O neto
Lucas disse que são 226 pessoas.
O grupo com o qual caminhei faz 30 anos em
2026. E se desdobra em seis romarias. Naquele ano, ouvi o coordenador Paulo
Helmut nos saudar à saída dizendo: "A nossa romaria não é de penitência. É
de alegria".
P.S.: Que São Francisco nos guie na votação
do dia 4. É melhor ser alegre que ser triste.
(*) Jornalista de O Povo.
Fonte: Publicado In: O Povo,
de 13/09/26. Vida & Arte, p.2.
