Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)
"Melhor se guarda um voo de um pássaro
do que um pássaro sem voos" - Antônio Cícero
É tão difícil ver um passarinho de perto.
Quase todas as manhãs, tento me aproximar dos bem-te-vis. Vou em busca do canto
deles, solfejo um sol-mi-dó bem baixinho, mas, quando me aproximo, eles voam.
Parecem brincar. Fico com a sensação de que estão chamando um ao outro. É muito
comum vê-los em dupla. Sobem rápido, se deslocam e se escondem na árvore; o
amarelo desaparece entre as folhas, e o que fica é aquele traço no ar - o
desenho de um movimento que já não está mais lá.
E é assim que eu o guardo: admirando o seu
voo. A gente não guarda segurando, trancando, impedindo que voe. Guarda
deixando ir. Nisso há uma grande beleza, porque, para guardar, é preciso
arriscar-se a perder.
Perder é inevitável. Há perdas pequenas,
quase imperceptíveis – um compromisso que esquecemos, uma tarde inteira
perdida. Outras são maiores: lugares que foram casa, a sensação de pertencer. E
há aquelas que beiram o intolerável: as que levam quem a gente já foi um dia.
Há poucos dias, reencontrei, após muitos
anos, uma amiga querida de infância que acabara de perder a mãe. E, de repente,
senti muitas saudades daquela família em que os amigos dos filhos eram sempre
bem-vindos, a conversa era sem censura, e a varanda, cheia. O clima da casa era
festivo.
Lembrei-me, com riqueza de detalhes, do seu
quarto: havia duas camas de madeira com colchas de retalhos e a janela que se
abria para o quintal. Ela costumava guardar escritos de frases e poemas em
papel amadeirado.
Ao chegar em casa, fui buscar um deles que
está comigo há mais de trinta anos, guardado numa caixa que vez ou outra eu
remexo. Mas não está trancado, porque, se fecho os olhos, vem, num cordão
fluido de memórias que se misturam, flutuam e se ligam, a lembrança da cor do
papel e da letra dela.
Aquilo que já não podemos tocar mantém-se
vivo, seguindo inúmeros caminhos possíveis, como a memória do voo dos
bem-te-vis. Ele vai, mas seu voo e seu canto ficam guardados em nós.
(*) Médica
psiquiatra.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/2026. Opinião. p.14.

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