quinta-feira, 26 de março de 2026

PERDER PARA GUARDAR

Por Patrícia Soares de Sá Cavalcante (*)

"Melhor se guarda um voo de um pássaro do que um pássaro sem voos" - Antônio Cícero

É tão difícil ver um passarinho de perto. Quase todas as manhãs, tento me aproximar dos bem-te-vis. Vou em busca do canto deles, solfejo um sol-mi-dó bem baixinho, mas, quando me aproximo, eles voam. Parecem brincar. Fico com a sensação de que estão chamando um ao outro. É muito comum vê-los em dupla. Sobem rápido, se deslocam e se escondem na árvore; o amarelo desaparece entre as folhas, e o que fica é aquele traço no ar - o desenho de um movimento que já não está mais lá.

E é assim que eu o guardo: admirando o seu voo. A gente não guarda segurando, trancando, impedindo que voe. Guarda deixando ir. Nisso há uma grande beleza, porque, para guardar, é preciso arriscar-se a perder.

Perder é inevitável. Há perdas pequenas, quase imperceptíveis – um compromisso que esquecemos, uma tarde inteira perdida. Outras são maiores: lugares que foram casa, a sensação de pertencer. E há aquelas que beiram o intolerável: as que levam quem a gente já foi um dia.

Há poucos dias, reencontrei, após muitos anos, uma amiga querida de infância que acabara de perder a mãe. E, de repente, senti muitas saudades daquela família em que os amigos dos filhos eram sempre bem-vindos, a conversa era sem censura, e a varanda, cheia. O clima da casa era festivo.

Lembrei-me, com riqueza de detalhes, do seu quarto: havia duas camas de madeira com colchas de retalhos e a janela que se abria para o quintal. Ela costumava guardar escritos de frases e poemas em papel amadeirado.

Ao chegar em casa, fui buscar um deles que está comigo há mais de trinta anos, guardado numa caixa que vez ou outra eu remexo. Mas não está trancado, porque, se fecho os olhos, vem, num cordão fluido de memórias que se misturam, flutuam e se ligam, a lembrança da cor do papel e da letra dela.

Aquilo que já não podemos tocar mantém-se vivo, seguindo inúmeros caminhos possíveis, como a memória do voo dos bem-te-vis. Ele vai, mas seu voo e seu canto ficam guardados em nós.

(*) Médica psiquiatra.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/02/2026. Opinião. p.14.

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