Por Pe. Rino Bonvini (*)
O Movimento Saúde Mental (MSM) celebra este
ano 3 décadas de sua missão socioterapêutica de múltiplo impacto. Desde 1996
acolhe, escuta e cuida de pessoas que buscam transformar o sofrimento psíquico
em oportunidade de evolução biopsicossocioespiritual. A Abordagem Sistêmica
Comunitária é a metodologia que integra as Práticas Integrativas e
Complementares em Saúde (PICS) a diversas atividades terapêuticas.
Desde 2007, o MSM estende suas atividades à
aldeia indígena Pitaguary, em Maracanaú. Essa experiência intercultural será
apresentada na XLVIII Jornada Cearense de Psiquiatria, de 16 a 19 de setembro,
com o tema "Estratégias para Fortalecimento da Rede de Atenção
Psicossocial".
Na abertura, a apresentação das crianças
Pitaguary, dançando o Toré e cantando em Tupi, evocou a beleza e a potência da
cultura indígena. A presença de lideranças indígenas na mesa "Desafios
para a Saúde Mental dos Povos Originários e das Periferias Existenciais",
no dia 18, ofereceu um lugar de fala para partilhar experiências, sonhos e a
potência da IA - Inteligência Ancestral -, tão necessária à sobrevivência do
planeta.
O desafio de uma psiquiatria que supera o
modelo biomédico e hospitalocêntrico, atualizando a reforma psiquiátrica na
rede pública de saúde, inclui acolher os povos originários com uma abordagem
etnopsiquiátrica. O respeito e a valorização da cosmologia e da espiritualidade
indígenas favorecem a integração do saber acadêmico com a sabedoria ancestral,
que traz elementos terapêuticos peculiares, potencializa a cura dos transtornos
mentais e favorece a prevenção do suicídio.
Sintomas intensos são ressignificados
dentro do universo cosmológico, e percepções extrassensoriais não são vistas
simplesmente como sintomas clínicos, mas compreendidas como experiências de
evolução biopsicossocioespiritual.
Os pajés acolhem a etnopsiquiatria como
coadjuvante nos processos de cura, entendendo que, quando necessário, os
remédios psicotrópicos podem salvar a vida da pessoa. Por sua vez, o
etnopsiquiatra entende que acolher rituais, orações, cantos, danças, tambores e
as interpretações transcendentes dos sintomas, com liberdade para usar a
medicina popular tradicional e suas ervas junto aos remédios prescritos,
proporciona uma cura integral dos transtornos psiquiátricos. As duas visões
dialogam e se integram.
(*) Médico psiquiatra e padre missionário
comboniano.
Fonte:
Publicado In: O Povo, de 23/09/2026.
Opinião. p.16.

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