quarta-feira, 28 de outubro de 2026

ETNOPSIQUIATRIA: novos desafios em saúde mental

Por Pe. Rino Bonvini (*)

O Movimento Saúde Mental (MSM) celebra este ano 3 décadas de sua missão socioterapêutica de múltiplo impacto. Desde 1996 acolhe, escuta e cuida de pessoas que buscam transformar o sofrimento psíquico em oportunidade de evolução biopsicossocioespiritual. A Abordagem Sistêmica Comunitária é a metodologia que integra as Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS) a diversas atividades terapêuticas.

Desde 2007, o MSM estende suas atividades à aldeia indígena Pitaguary, em Maracanaú. Essa experiência intercultural será apresentada na XLVIII Jornada Cearense de Psiquiatria, de 16 a 19 de setembro, com o tema "Estratégias para Fortalecimento da Rede de Atenção Psicossocial".

Na abertura, a apresentação das crianças Pitaguary, dançando o Toré e cantando em Tupi, evocou a beleza e a potência da cultura indígena. A presença de lideranças indígenas na mesa "Desafios para a Saúde Mental dos Povos Originários e das Periferias Existenciais", no dia 18, ofereceu um lugar de fala para partilhar experiências, sonhos e a potência da IA - Inteligência Ancestral -, tão necessária à sobrevivência do planeta.

O desafio de uma psiquiatria que supera o modelo biomédico e hospitalocêntrico, atualizando a reforma psiquiátrica na rede pública de saúde, inclui acolher os povos originários com uma abordagem etnopsiquiátrica. O respeito e a valorização da cosmologia e da espiritualidade indígenas favorecem a integração do saber acadêmico com a sabedoria ancestral, que traz elementos terapêuticos peculiares, potencializa a cura dos transtornos mentais e favorece a prevenção do suicídio.

Sintomas intensos são ressignificados dentro do universo cosmológico, e percepções extrassensoriais não são vistas simplesmente como sintomas clínicos, mas compreendidas como experiências de evolução biopsicossocioespiritual.

Os pajés acolhem a etnopsiquiatria como coadjuvante nos processos de cura, entendendo que, quando necessário, os remédios psicotrópicos podem salvar a vida da pessoa. Por sua vez, o etnopsiquiatra entende que acolher rituais, orações, cantos, danças, tambores e as interpretações transcendentes dos sintomas, com liberdade para usar a medicina popular tradicional e suas ervas junto aos remédios prescritos, proporciona uma cura integral dos transtornos psiquiátricos. As duas visões dialogam e se integram.

(*) Médico psiquiatra e padre missionário comboniano.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/09/2026. Opinião. p.16.


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