A única alegria
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Depois que minha véa 'subiu' - direto pro Céu se foi Eneida, quedê ventura na
vida? Os meninos (Zé e Manel) casados, morando em São Paulo. Beber, não provo
mais uma gota; raparigar, vixe! Samba, forró, futebol, Praça da Matriz e
pescaria no Açude Novo, passou vontade! Até pra missa perdi a vontade de ir, e
padre Raimundinho é gente boa.
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Mas o senhor ainda tá novão, seu Sisnando!
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89 anos, novão?
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Anda com as próprias pernas, vai ao mercado, faz a comida, barre o terreiro de
casa, tem a companhia de sua irmã Neuminha.
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Tem jeito não, Adrovaldo! Com Eneida, foi também meu coração.
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Na minha mente o senhor tá é deprimido, e depressão é coisa que, cuidando, o
caba melhora uma coisinha.
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Nada disso! É saudade, mesmo! Tá ruim!
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Alegria, nenhuma mais?
A
pergunta pôs o velho Sisnando a meditar profundo. Com pouco ele retoma a
conversa.
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É... Tem um pormenor! Mas tu vai dizer que eu sou doido...
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Vou não! Impossível o cristão viver sem uma alegriazinha ao menos! Qual?
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Obrar!
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No sentido de... arrear o barro?!?
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Sim. Seguro a vontade até!... Quanto mais apertado, melhor. Aí eu corro e
descarrego. Pense num alívio! Enviesado, mas é a minha alegria! Única alegria!
É osso, meu amigo, é osso!
Médico
pegou fama e logo é endeusado, especialmente no interior, não importando se
ainda estuda Medicina. Por conta da tarimba em consertar de um tudo que
quebrasse em todos, um jovem aluno do 10º semestre, de férias na comunidade,
foi procurado na segunda-feira bem cedo pra "obrar verdadeiro
milagre". O(a) paciente? Ninguém conhecido como eleitor. A alcunha nós
sabíamos - "Fifilzinha", cinco anos de serviços prestados à família
de Marleudo, humilde agricultor.
A
vítima fraturara o pé direito ao saltar do poleiro; talvez o vento forte lhe
tenha arremessado ao chão. Pisou em falso e... crec! Ligamentos do membro
inferior em cacarecos. Coronel foi o primeiro a chegar ao local do sinistro. Lá
estava "Fifilzinha" - galinha caipira poedeira, contorcendo-se de
dor. O galo, nem aí pros gemidos da premiada ave - dois ovos postos por dia
desde o ano passado.
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Dr. Abel ainda tá na casa do pai? - indaga Marleudo, compadecido.
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Sim, as aulas só recomeçam mês que entra, eu soube! - responde a mulher.
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Pois vamos levar Fifizinha pra consultar esse pé agora. Olha só como está?
Dismintido!
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Marleudo, o rapaz estuda medicina de gente! Ainda se prepara pra ser doutor de
osso!
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Quem sabe de osso dum cristão, saberá dum bicho de pena!
Pra
encurtar história, o quintanista de Medicina imobilizou o pé da galinha com
palitos de picolé, sobre emplastro de pano velho embebido em mastruz, e ave,
uma semana depois, corria como uma atleta. E deu em ciscar pra frente, mas esse
era só um detalhe!
As enroladas de "Dona
Menina"
Conhecida
pela criatividade com que saía das dificuldades, mamãe se superou quando nos
serviu o primeiro grappete. Nosso particular de uva nada mais era que
"quissuco" de groselha com laranja espremida. A tampa das garrafas
postas à mesa, pedaços generosos de sabugo. E ainda fazia na boca aquela
zoadinha de tampa de cerveja liberada por abridor. Se alguém reclamasse do
excesso de açúcar mascavo no fundo da garrafa, dizia afobada:
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E é pra ser feliz!!!
Fonte: O POVO, de 27/02/2026. Coluna
“Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

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