Por Dirce Fernandes (*)
Meu conhecimento do Dr. Felizardo de Pinho
Pessoa Filho data de 2021 e me fez pensar no filme "Nunca te vi, sempre te
amei", onde uma escritora americana mantinha correspondência com o gerente
de uma livraria, em Londres, que abrigava edições raras e esgotadas. A partir
do interesse comum nasceu uma amizade entre eles.
No meu caso, foi sua trajetória no
desenvolvimento do trabalho de pesquisa. Em 18 de agosto de 2021, Dr. Pinho foi
personagem das Páginas Azuis do Jornal "O POVO", onde relatou, com
103 anos, uma trajetória de vida inimaginável. Era filho e neto de
farmacêuticos, de família tradicional em Viçosa/CE, concluindo o Curso de
Farmácia, em 1944, pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará.
Pesquisador nato, descobriu a doença
calazar ou leishmaniose visceral, transmitida pelo mosquito flebótomo,
infectado com o parasita Leishmania. A primeira vez que tomou conhecimento de
"Kala Azar" foi através de uma revista francesa com 14 anos de idade.
Em 1948, conduziu uma pesquisa em Viçosa, com recursos próprios, montando um
hospital de campanha para tratar doentes de cidades vizinhas.
Apesar de desacreditado, não desistiu e
procurava um remédio para evitar a morte dos doentes, até chegar ao glucantime.
Em 1953, enviou lâminas de microscópio de órgãos contaminados para Dr. Samuel
Pessoa, sanitarista da Universidade de São Paulo, recebendo, logo após, a
visita de um casal de cientistas que levou suas anotações de anos de pesquisa.
Tal ignóbil fato agride sobretudo aqueles dedicados à pesquisa, vez que podem
avaliar a sórdida conduta dos que se apossam de seus dados.
Mandei mensagens para Dr. Pinho em 2021 e
tive o prazer de receber resposta. Vivíamos ainda uma pandemia e marcamos um
encontro futuro para tomarmos um café, que lamentavelmente não aconteceu. Ele
era edição rara e esgotada na livraria da vida, um exemplar único. em 27 de
fevereiro do ano passado compareci à sua missa de 7º dia e nosso café foi apenas
adiado!
A sua história é exemplo de determinação e
deve continuar viva em nossa memória.
(*) Professor titular emérita do
Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular
da UFC.
Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/02/2026. Opinião. p.17.

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