terça-feira, 31 de março de 2026

"Felizardo é quem te conheceu"

Por Dirce Fernandes (*)

Meu conhecimento do Dr. Felizardo de Pinho Pessoa Filho data de 2021 e me fez pensar no filme "Nunca te vi, sempre te amei", onde uma escritora americana mantinha correspondência com o gerente de uma livraria, em Londres, que abrigava edições raras e esgotadas. A partir do interesse comum nasceu uma amizade entre eles.

No meu caso, foi sua trajetória no desenvolvimento do trabalho de pesquisa. Em 18 de agosto de 2021, Dr. Pinho foi personagem das Páginas Azuis do Jornal "O POVO", onde relatou, com 103 anos, uma trajetória de vida inimaginável. Era filho e neto de farmacêuticos, de família tradicional em Viçosa/CE, concluindo o Curso de Farmácia, em 1944, pela Faculdade de Farmácia e Odontologia do Ceará.

Pesquisador nato, descobriu a doença calazar ou leishmaniose visceral, transmitida pelo mosquito flebótomo, infectado com o parasita Leishmania. A primeira vez que tomou conhecimento de "Kala Azar" foi através de uma revista francesa com 14 anos de idade. Em 1948, conduziu uma pesquisa em Viçosa, com recursos próprios, montando um hospital de campanha para tratar doentes de cidades vizinhas.

Apesar de desacreditado, não desistiu e procurava um remédio para evitar a morte dos doentes, até chegar ao glucantime. Em 1953, enviou lâminas de microscópio de órgãos contaminados para Dr. Samuel Pessoa, sanitarista da Universidade de São Paulo, recebendo, logo após, a visita de um casal de cientistas que levou suas anotações de anos de pesquisa. Tal ignóbil fato agride sobretudo aqueles dedicados à pesquisa, vez que podem avaliar a sórdida conduta dos que se apossam de seus dados.

Mandei mensagens para Dr. Pinho em 2021 e tive o prazer de receber resposta. Vivíamos ainda uma pandemia e marcamos um encontro futuro para tomarmos um café, que lamentavelmente não aconteceu. Ele era edição rara e esgotada na livraria da vida, um exemplar único. em 27 de fevereiro do ano passado compareci à sua missa de 7º dia e nosso café foi apenas adiado!

A sua história é exemplo de determinação e deve continuar viva em nossa memória.

(*) Professor titular emérita do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular  da UFC.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/02/2026. Opinião. p.17.

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