Mostrando postagens com marcador Demografia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Demografia. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 3 de dezembro de 2024

VELHA SIM, MAS A IDENTIDADE É NOVA

Por Márcia Alcântara Holanda (*)

Indo com Rita assistir ao filme A Substância, logo percebemos que a razão de estarmos ali, era por causa da mídia que enfocou o filme sobre a velhice e a ditadura da eterna juventude para mulheres mais velhas. Rita advertiu: "o Brasil está envelhecendo". De um País jovem, cuja idade média dos brasileiros era de 29 anos há 15 anos, hoje temos uma média de 35 anos (Fonte: IBGE). Então o Brasil já é um país adulto! E de certa forma, envelhecido.

Concordei, pois sem se importar com a maturidade e a velhice, que se achega de forma ininterrupta, o País ainda não se estruturou para esse envelhecimento. "Precisa de uma nova identidade, "eu disse e Rita concordou: "Sim, se essa nova identidade para o País e para os idosos não for estabelecida e universalmente reconhecida, essa leva de idosos que em 1940 tinha expectativa de vida de 45 anos, e em 2020 subiu para 76,8 (Fonte: IBGE) continuará invisibilizada. Muitos ainda vêm essa geração apenas como os quem têm prioridade nas filas e que atrasam a vida social e familiar dos outros"

Esse preconceito contra os idosos, o etarismo, está enraizado e urge que comecemos a construir uma identidade sólida para a velhice brasileira.

Falei: "Rita, percebi a chegada da velhice como uma pancada: uma apresentação abrupta à finitude. Não tão clara nem de horizonte tão definido como o da cor esmeralda do nosso mar."

Rita respondeu: "Para mim, não está claro também, mas já sinto dificuldades para atividades antes normais" Falei: "Sua hora chegará". Eu decodifiquei para mim boa parte da vida que desaguou nessa nova identidade: declarei-me livre, dona do meu nariz, portadora de doenças crônicas, câncer e vícios nocivos à vida, mas controlados.

Ainda estou saudável, andarilha assumida, apaixonada por leitura e escrita, fascinada por palavras em si, namoradeira, apreciadora de uma culinária que não vi em nenhum programa de MasterChef: sem condimentos, mas bem nutritiva e saborosa. Praticante assídua do autocuidado. "Fui moldada para ser velha! Portanto, estou com identidade nova, dear Rita!"

Ela perguntou: "Mas nada sobrou do passado?"

Falei: "Sim! Carrego a formação de uma vida e sua essência: de criança aventureira à adolescente confusa sobre sexualidade. De adulta com maternidade e trabalho árduos, enfrentando perdas e conquistas. Escalando muitas pedras no caminho - das de Drummond. Acima de tudo, fui médica, cuidando bem de vidas com grande
empenho e emoção"

Dia desses, ao reler Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa (1956), encontrei esta fala "bem atual" de Riobaldo: "Mais importante e bonito do que tudo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando." "E com identidade nova, né?"

Ela respondeu: "Êita, o filme vai começar!"

(*) Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro honorável da Academia Cearense de Medicina.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/11/2024. Ciência & Saúde. p. 2.

quinta-feira, 12 de outubro de 2023

CONGELE O SEU FUTURO FÉRTIL

Por Evangelista Torquato (*)

Com tantas campanhas ao longo do ano, ainda encontramos aqueles que consideram a dificuldade de ter filhos um problema menor, que não merece espaço nas políticas de assistência e nos meios de comunicação. Na contramão desse pensamento, os dados mostram que olhar a saúde reprodutiva é urgente e inevitável.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou no último mês de abril um estudo que comprova um fato com o qual nos deparamos todos os dias no consultório: a infertilidade está aumentando. O relatório da OMS alerta que 1 em cada 6 pessoas será afetada pela infertilidade ao longo da vida. Trata-se de um importante problema de saúde pública, que atinge homens e mulheres em todo o mundo, sem distinção de classes sociais. O acesso aos tratamentos, por outro lado, continua desigual.

Aliado a isso, temos, no Brasil, uma diminuição da taxa de fecundidade, que é a medida de quantos filhos as mulheres têm ao longo da sua vida reprodutiva. Segundo dados do IBGE, em 1960, as brasileiras tinham em média 6,28 filhos. Em 2010, essa média caiu para 1,87. A estimativa é que a taxa de fecundidade atinja o patamar de 1,5 em 2030.

O número médio de filhos por mulher vem se reduzindo no Brasil por importantes mudanças culturais, com o aumento da escolaridade, a ampliação do acesso aos métodos contraceptivos e, principalmente, o protagonismo das mulheres no mercado de trabalho. Esses mesmos fatores as levaram a adiar a maternidade. No entanto, as mulheres têm uma reserva ovariana limitada, que vai caindo ao longo da vida reprodutiva.

Engravidar mais tarde impacta negativamente nas chances de gestação natural e no sucesso dos tratamentos de reprodução assistida. A única forma de preservar a fertilidade feminina, diante do tempo ou de um câncer, é o congelamento de óvulos.

Não há silêncio que não termine. Falaremos sobre a infertilidade. Alertaremos as mulheres que sua capacidade reprodutiva é finita e que há alternativas para preservá-la. E, sobretudo, buscaremos tornar a reprodução assistida mais democrática para todos (as). 

(*) Ginecologista com atuação em reprodução humana.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 4/09/2023. Opinião. p. 18.

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

Como falta de mulheres está formando legião de homens frustrados no Vietnã

Por Rodion Ebbighausen

A educação dele é suficiente? Ele ganha o suficiente? Ele sabe se comportar? São algumas das perguntas que os pais se fazem. Se as respostas forem negativas, a perspectiva de que o filho encontre uma esposa diminui.

Atualmente, há 1,2 milhão de rapazes a mais do que meninas vietnamitas na faixa entre 0 e 19 anos, de acordo com o censo de 2019. Assim, o Vietnã se equipara à China e Índia em relação à desproporção populacional entre os sexos. Há poucos países do mundo com tanta disparidade demográfica do tipo.

As consequências sociais deste desenvolvimento são dramáticas, tanto para os homens, que não conseguem encontrar uma parceira, quanto para as mulheres, que estão sujeitas a uma grande pressão por serem vistas como "uma mercadoria disputada".

Preferências tradicionais

Em 2018, o estudo Desequilíbrio de Gênero no Vietnã: Problemas e Soluções identificou diversos motivos que levaram ao atual cenário. A disparidade é em parte explicada pela preferência social por meninos, num país onde tradicionalmente as meninas são menos valorizadas. O confucionismo, que tem forte influência na sociedade vietnamita, defende a separação dos papeis de gênero e a subordinação das mulheres aos homens.

Após o casamento, as mulheres se juntam às famílias do marido. Assim, suas famílias acabando "perdendo" as filhas. Como o Estado vietnamita não oferece uma rede de proteção social suficiente e a aposentadoria é incerta, os pais dependem dos filhos para sustentá-los na velhice.

A popularização do pré-natal, com a realização de ultrassonografia, tornou possível identificar o sexo do bebê antes do nascimento. Apesar de o governo ter proibido esse tipo de ultrassom em 2003, atualmente 83% das grávidas vietnamitas sabem o sexo do bebê antes do nascimento, segundo um relatório da ONU de 2021.

A ultrassonografia, juntamente com políticas para conter o crescimento populacional, influenciaram negativamente a proporção entre os sexos no país. Em 1988, o Vietnã adotou a política de dois filhos - apesar de não ser aplicada rigorosamente. Como todas as famílias querem um filho, para dar continuidade a sua linhagem, houve um aumento do aborto de fetos femininos, especialmente na segunda ou terceira gravidez.

"As vietnamitas estão sob pressão extrema para dar à luz a um filho. Se não conseguirem, seus maridos e familiares provavelmente a tratarão mal, principalmente em regiões rurais", afirma Khuat Thu Hong, diretora do Instituto de Estudos de Desenvolvimento Social em Hanói.

Tráfico humano e instabilidade social

Ao contrário do que se poderia esperar, a desproporção populacional não levou à melhoria do status ou posição social da mulher no Vietnã. De acordo com o estudo de 2018, houve um aumento dos casamentos forçados, do tráfico humano e da violência contra mulheres e meninas.

Foi registrado ainda um aumento da prostituição e de outras formas de exploração sexual. Ao mesmo tempo, cresce o risco de agitação social com um número cada vez maior de homens frustrados social e sexualmente.

Esses problemas devem continuar a se agravar e a disparidade populacional deve aumentar ainda mais, se o governo não conseguir reverter essa tendência. De acordo com a ONU, a lacuna populacional entre homens e mulheres entre 20 e 39 anos deve passar dos atuais 3,5% para 10% em 2059. Isso significa, em termos puramente matemáticos, que um em cada dez homens nesta faixa etária não conseguirá encontrar uma esposa.

Estado de bem-estar social fraco

Uma série de medidas é necessária para diminuir essa lacuna, avalia Khuat Thu Hong, destacando que o maior desafio é mudar uma norma cultural secular. A especialista ressalta que, além de leis, é preciso investir em educação e bem-estar social.

Em 2006, o Parlamento vietnamita aprovou uma lei de igualdade. Em 2013, a Constituição proibiu a discriminação de gênero. Atualmente, o governo está implementando um plano de dez anos para promover a igualdade de gênero até 2030.

"Há um forte desejo político do governo vietnamita para promover a igualdade de gênero", destaca Khuat. Segundo a especialista, a sensibilização para o problema também aumentou significativamente. "Hoje em dia, os vietnamitas sabem que a igualdade de gênero é uma coisa boa, mas a cultura e a tradição ainda são muito fortes."

Khuat acrescenta que somente leis e sensibilização não são suficientes. "Se não melhorarmos o sistema social, a rede de segurança social, a mudança não vai longe", pontua, afirmando que os filhos precisam ser libertados dos encargos materiais e financeiros no cuidado dos pais na velhice.

Isso demanda a inclusão de um número maior de vietnamitas no sistema previdenciário. Atualmente, de acordo com a Organização Internacional do Trabalho (OIT), apenas um terço da população do país está inserida nesse sistema.

Fonte: UOL Notícias. Em 7/09/2023 uol/com.br.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

QUALIDADE DE VIDA E CIDADES INTELIGENTES

Por Lauro Chaves Neto (*)

Cada vez mais o futuro da humanidade está nas cidades, no espaço urbano. A política e a democracia tiveram origem na convivência nesses territórios. É aí que se localizam os centros de decisão político e econômico, a própria geração de riquezas.

Isso só tem crescido à medida que os serviços e a tecnologia aumentam suas participações no PIB. Mais que concentrar as pessoas, elas as centralizam. Atualmente, segundo a ONU, 55% da população mundial é urbana e tende a chegar a 70% em 2050. No Brasil, mais de 80% dos seus habitantes vivem nas cidades.

Quando a sociedade civil passa a pensar a futuro, cada vez mais cidades planejam o seu desenvolvimento com metas de longo prazo. Instrumentos legais como o Estatuto das Cidades e o do uso de figuras de planejamento como o Masterplan, o Plano Diretor e o Plano Plurianual passam a ajudar o processo de mudança cultural.

O futuro das cidades está na sustentabilidade. Nesse caso, espaços de moradia, trabalho, educação, saúde, lazer e cultura, entre outros, terão que interagir e evoluir a fim de melhorar a qualidade de vida da população e a sua relação com o meio ambiente, além de promover a inclusão social e a governança democrática.

O empoderamento da sociedade é a principal estratégia para assegurar a continuidade e a implantação dos planos de longo prazo. Para que isso ocorra é imprescindível o uso de plataformas inteligentes e conectadas em rede, para que os cidadãos participem de todo o processo de planejamento, além do monitoramento e avaliação dos resultados.

O conceito de Cidades Inteligentes pressupõe a adesão às inovações, com o uso de soluções e sistemas interconectados de gestão. Cidades inteligentes usam a tecnologia em serviços, plataformas de comunicação e informação para planejar espaços, detectar problemas e solucioná-los com agilidade. Sensores podem monitorar o trânsito, coleta de lixo, fornecimento de água e energia, entre outros.

Toda essa inteligência será suportada por uma infraestrutura de cabos, fibra ótica, internet e rede de celulares. Esse conjunto de fatores será o grande diferencial competitivo dos territórios nos próximos anos e décadas. 

(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.

Fonte: O Povo, de 3/4/23. Opinião. p.20.

quarta-feira, 5 de abril de 2023

O ENVELHE(SER) NO BRASIL CONTINENTAL

Por Jonas Loiola Gonçalves (*)

O envelhecimento e cuidado ao idoso no Brasil continental são fragilizados pelas desigualdades, principalmente "pós-pandemia". Em aula, um professor universitário, idoso, branco, olhos azuis e sobrevivente da Covid-19, deixou a me perguntar: quantos idosos sem essas características foram afetados pela Covid-19 e não sobreviveram, principalmente os idosos das favelas do Brasil?

Sou um jovem pesquisador, filho de uma mulher idosa agricultora e serei uma pessoa idosa também, pois o biológico e o cronológico é para todos e todas. Em face a uma certa preocupação, reflito sobre pesquisadores que atribuem ao envelhecimento um certo ar de desinteresse e sobre a juventude dos dias atuais que encara a pessoa idosa como uma sobrecarga. Percebo a falta, sobretudo, de sensibilidade, de educação e de amorosidade com os mais sábios, pois a pessoa idosa está no curso da vida, mas o jovem também está.

Isto posto, o cenário de envelhe(ser) nas diversas regiões brasileiras é destoante e escancaram, a meu ver, a complexidade do envelhecimento no PaísAs desigualdades sociais e de acesso à saúde são visíveis nessa população, porém uma sociedade insensível e com propostas incipientes para colaborar com as pessoas idosas.

A população idosa negra, periférica, ribeirinha, rural e LGBTQIAPN está cada vez mais a deriva de problemáticas que impactam negativamente a vida. Além de tudo, a dignidade humana foi corrompida cada dia mais pela ausência de aposentadoria digna, falta das 3 refeições diárias, jovens e famílias insensíveis às suas condições humanas e sociais e principalmente pelo negacionismo e desmonte das políticas públicas dos últimos tempos.

A meu ver, o envelhe(ser) que escrevo aqui é fruto de uma compreensão que temos que ser, fortalecer o SER: ser idoso, ser protagonista, ser digno, ser revolucionário de toda a sociedade, para diminuir desigualdades sociais e por consequência, chegarmos ao envelhecimento ativo e saudável como forma de cuidado. Portanto, o envelhe(ser) no Brasil que seja com afeto e esperança, "esperança do verbo esperançar. Esperançar é se levantar, é ir atrás, é construir, é não desistir!".

(*) Fisioterapeuta. Doutorando em Saúde Coletiva da Uece.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 22/02/2026. Opinião. p.10.

terça-feira, 4 de abril de 2023

UM PROBLEMA POPULACIONAL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

Li recentemente um artigo do Dr. Wang Feng, sociólogo e especialista em demografia chinesa, publicado no Jornal New York Times, em 30 de janeiro deste ano. O artigo do Dr. Feng se reporta à informação de que a taxa de natalidade, na China, em 2022 caiu de 7,52 em 2021, para 6,77. Estes são dados publicados pelo Escritório Nacional de Estatísticas da China.

Isto significa que a população da China caiu pela primeira vez em 60 anos, com a taxa de natalidade nacional atingindo recorde de queda — 6,77 nascimentos por mil pessoas. Ou seja, a população do país em 2022, mesmo atingindo 1,4118 bilhão, caiu 850 mil habitantes em relação a 2021.

Em verdade, a taxa de natalidade vem caindo há anos e, ao que tudo indica, a China entrou em uma "era de crescimento negativo da população".

De acordo com as projeções da ONU, é que no fim deste século, a população daquele País esteja em torno de 700 milhões de habitantes, contra os 1,4 bilhão atual.

Mas, de acordo com o Dr. Feng, outros países estão passando por esta mesma problemática, como seria o caso do Japão, Coréia do Sul, Rússia, Itália e Alemanha.

É interessante observar que a queda na taxa de natalidade do ser humano se deve, no dizer do Dr. Feng, ao maior empoderamento da mulher.

Esta situação é boa ou é ruim para o nosso planeta? No que diz respeito à capacidade da terra em sustentar sua população, há o parâmetro chamado "biocapacidade".

biocapacidade avalia o montante de terra e água, biologicamente produtivo, para prover bens e serviços do ecossistema à demanda humana, sendo equivalente à capacidade regenerativa da natureza.

Mas, para medir a relação entre o consumo, exploração e utilização dos recursos naturais e a capacidade do planeta em repor tais elementos naturalmente, os estudiosos da área criaram outro conceito: A "pegada ecológica".

Os cálculos realizados apontam que a "pegada ecológica" do planeta estava em torno de 2,77 (dados de 2017), enquanto sua biocapacidade era de 1,60. Isto significava que precisaríamos de um planeta maior que a terra em 73% Dados do "2021 Edition National Footprint and Biocapacity Accounts".

Desta forma, o decrescimento da taxa de natalidade da humanidade é uma notícia alvissareira.

Mas, em economia, sempre há a contrapartida.

Diminuir esta sobretaxa tem implicações sobre o emprego e a capacidade de produção da humanidade.

Quanto ao emprego, o uso de tecnologias mais avançadas permitirá que menos pessoas sejam precisas para realizar tarefas intensivas de mão de obra.

Por outro lado, com menos gente para consumir, a produção não necessitará aumentar, principalmente de produtos agropecuários. E a tecnologia também muito contribuirá para diminuir a pressão neste campo.

Assim, há uma luz no fim do túnel!

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 12/02/23. Opinião. p.18.


quarta-feira, 15 de março de 2023

O CENSO POPULACIONAL E OS EFEITOS SOBRE O FPM

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

Em 11 de janeiro de 2023, já, publicamos aqui no O POVO um artigo intitulado: O IBGE, o censo populacional e a cidadania (https://bityli.com/A0RCZ), em que descrevíamos a importância do Censo Populacional de 2022 para subsidiar os processos de planejamento públicos e privados. Alertamos que os resultados do Censo proporcionarão a necessidade de revisão do sistema de transferências redistributivo, compensatório e incondicional, aqui representado pelo Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Nas transferências incondicionais (o governo receptor tem total liberdade para decidir a alocação dos recursos), obrigatórias (o governo doador é obrigado a fazer a transferência, por determinação constitucional ou legal) e sem contrapartida (o governo receptor não é obrigado a complementar os recursos recebidos). Esta é uma classificação que tem o DNA do professor Richard Bird, emérito da Universidade de Ontario.

Há 25 anos já alertávamos os problemas dos modelos do FPM e FPE. O modelo de transferência se exauriu. A população migrante foi se aglomerando em cidades que dispunham de maior dinamismo econômico. Enquanto os municípios com até 20 mil moradores assinalaram um adicional de apenas de 19,7% em sua população, naqueles com mais de 100 mil habitantes esse indicador quase quadruplicou ( 283%) nesses 50 anos. Em 1970, pouco mais de um terço (33,8%) da população residia em municípios com mais de 100 mil habitantes, percentual que saltou para 57% em 2021. Já o grupo que vivia em cidade com menos de 20 mil residentes representava 28,5% da população nacional e, em 2021, compunha apenas 15%. O modelo criou uma distorção a favor dos pequenos municípios.

Na média, o conjunto dos municípios recebeu R$ 688 a título de FPM por habitante em 2021, valor que varia de acordo com o tamanho populacional da cidade, sendo que, quanto menor a faixa populacional, maior é o montante per capita. O menor estrato, aquele que agrega os municípios com até 10.188 habitantes, recebeu R$ 2.231 per capita, ou seja, 3,2 vezes acima da média do país. Em relação ao grupo dos maiores municípios, aqueles com mais de 500 mil habitantes, onde o FPM per capita é de R$ 234, a diferença salta para 9,5 vezes. Tal fato demonstra que o problema é estrutural e não reside apenas na fórmula, mas na concepção do modelo de transferências.

Em tempo. Há exatos 25 anos escrevi minha primeira dissertação de mestrado, com o título: Os Fundos de Participação no Contexto do Federalismo Fiscal Brasileiro (https://bityli.com/DF75z), trabalho que tive o privilégio da orientação do Prof. Pedro Jorge Ramos Vianna e como componentes da banca Jair do Amaral Filho e Luiz Abreu Dantas, todos professores da Universidade Federal do Ceará. Posteriormente, em 1999, outro grande privilégio e honra foi ter sido aluno do Prof. Richard Bird, numa especialização em Políticas Fiscais, na CEPAL, em Santiago do Chile. Este artigo foi uma enorme oportunidade concedida pelo O POVO para, além da informação, agradecer aos mestres que me ensinaram a despertar o prazer da pesquisa no campo das finanças públicas. 

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 26/1/23. Opinião. p.20.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

SOMOS OITO BILHÕES EM ENVELHECIMENTO

Por Andréa Silva Gondim (*)

De acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), o mundo chegou a 8 bilhões de habitantes, em 15 de novembro de 2022, em decorrência do crescimento da expectativa de vida, sendo esta data declarada o "Dia dos Oito Bilhões". Segundo a ONU, esse número é o resultado do rápido aumento populacional no último século: a população mundial atingiu 1 bilhão de habitantes até 1800 e há 100 anos não havia atingido 2 bilhões, sendo necessários somente 12 anos para a população aumentar de 7 bilhões para 8 bilhões.

Em países de todo o globo, os seres humanos estão vivendo mais, em decorrência de melhor nutrição e assistência à saúde, bem como de melhorias no saneamento e no tratamento da água, que reduziram significativamente as taxas de mortalidade e prolongaram a expectativa de vida. Para que alcancemos o próximo bilhão, a ONU estima que serão necessários pelo menos mais quinze anos, de forma que a expectativa é de que o mundo alcance 9,7 bilhões de pessoas até 2050 e chegue ao seu auge, de 10,4 bilhões, até 2080.

Os idosos irão compor uma parcela cada vez maior da sociedade. A expectativa de vida no mundo atingiu 72,8 anos em 2019, caiu para 71 anos em 2021, por reflexo da pandemia por Covid-19, e a projeção é de que a longevidade média global chegue a 77,2 anos em 2050. As Nações Unidas esperam que, até a metade do século, o número de pessoas com mais de 65 anos seja maior do que o dobro do número de crianças com menos de 5 anos de idade, resultado também da redução das taxas de fecundidade.

Em países desenvolvidos, a imigração é responsável por uma parcela maior do aumento populacional do que os nascimentos. Os países com populações mais velhas precisarão tomar medidas de adaptação ao maior número de idosos, melhorando e ampliando o acesso à saúde e desenvolvendo sistemas de cuidados de longo prazo, bem como melhorando a sustentabilidade da segurança social e dos regimes de aposentadoria; a própria ONU faz um alerta aos países a esse respeito. O envelhecimento populacional deverá nos estimular a desenvolver uma cultura de cuidado aos mais idosos, com responsabilidades compartilhadas entre família e Estado.

(*) Médica geriatra. Diretora Científica da SBGG.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 21/01/2023. Opinião. p.14.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023

O IBGE, o censo populacional e a cidadania

Por Alexandre Sobreira Cialdini (*)

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foi criado em 1936 e tem como missão "retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento de sua realidade e ao exercício da cidadania". Conforme pesquisa realizada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID (https://bityli.com/sRUrC).

O nosso IBGE é um dos principais institutos de pesquisa das Américas, com capacidade estatística para gerar, de maneira sustentada, dados estatísticos relevantes e de qualidade. O conceito de capacidade estatística desenvolvido por Luís Beccaria definiu a importância de aferir, de forma quantitativa, a capacidade dos sistemas estatísticos dos países. Trata-se de uma medição composta com metodologia e práticas institucionais científicas. (https://bityli.com/2KI5z).

No dia 28 de dezembro de 2022 o IBGE divulgou a prévia da população dos municípios, com base nos dados coletados pelo Censo Demográfico 2022, até o dia 25 de dezembro. A prévia mostrou que o Brasil chegou a 207.750.291 milhões de habitantes. A divulgação vem ao encontro da lei 8.443, de 16 de julho de 1992 (Lei Orgânica do Tribunal de Contas da União-TCU), que determina ao IBGE fornecer, anualmente, o cálculo da população de cada um dos 5.570 municípios do país para o TCU basilar o cálculo do FPM. Seguindo um modelo estatístico, o IBGE entregou um resultado prévio do ano de 2022 a partir dos 83,9% da população recenseada, que representou 87,7 milhões de domicílios particulares e mais de 178 milhões de pessoas.

Censo 2022 ainda está em campo realizando coletas desde 1º de agosto de 2022 e continuará durante o mês de janeiro de 2023. Os moradores de domicílios onde ainda ninguém respondeu ao Censo 2022 devem ligar para o Disque-Censo 137, que atende a todos os estados do país. Importa salientar que, se não fosse a direção do IBGE, em conjunto com seus servidores públicos e a pressão da comunidade científica e acadêmica, o Governo Bolsonaro não teria realizado o Censo de 2022.

A cada dez anos, o Brasil se redescobre por meio da pesquisa censitária realizada pelo IBGE. O censo traz ao país a sua realidade, nos permite o exercício da cidadania, vai até aos domicílios e diz para o cidadão: você existe, precisamos de você. As estatísticas e a geoinformação propiciam a integração entre território e cidadãos, em cortes geográficos muito detalhados. Assim, ao permitir que o Brasil se conheça e, ao gerar um retrato muito fiel da realidade, o censo cumpre diversas funções, inclusive a demonstração da falência de nosso modelo de transferências compensatórias, representado pelo FPM. O modelo exauriu há muito tempo e não é o IBGE o culpado. O Censo de 2022 demonstrou a necessidade de mudança sobre os Fundos de Participação, principalmente o FPM.

O conhecimento da informação é poder. "Scientia potentia est" (Thomas Hobbes-1688). As sociedades hiperconectadas na nova economia digital se baseiam na exploração e usabilidade dos dados e informações, que vão subsidiar os processos de planejamento públicos e privados, demonstrando a relevância e insubstituibilidade do censo demográfico no Brasil.

(*) Mestre em Economia e doutor em Administração Pública e Secretário de Finanças e Planejamento do Eusébio-Ceará.

Fonte: O Povo, de 12/1/23. Opinião. p.21.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

REFUGIADOS INTERNOS: perguntar será pecado?

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Perguntar não é pecado: como surgiu esse novo categoria de deslocado, o refugiado interno?

O que atinam? Será que tenho razão quanto à existência dessa nova categoria de refugiado?

Refugiados são criaturas que fogem de um país para outro por motivos de guerra ou de perseguição política, entre outros. Diferente dos imigrantes, as pessoas que saem de seus países por vontade própria, visando melhor condição de vida. Com a guerra na Ucrânia voltou-se aos tempos dos deslocados (refugiados) de guerra ou como dizem em inglês “displaced person” (ter sido forçado a deixar sua casa, por uma invasão). Lembro que, “displaced” é sinônimo de inconveniente, impróprio, inadequado, inoportuno para a região que o acolhe.

Desconheço situação mais vexatória para um ser humano que se tornar refugiado, desprovido de segurança psico-bio-econômico-social. O refugiado perde os direitos a qualquer proteção, seja ela social, jurídica, econômica, alimentar, de moradia ou de existência. Em suma, a questão do refugiado no mundo contrai contornos dramáticos, pois, além dos problemas severos que afligem suas diferenças áreas de origem, ainda se associam outras dificuldades.

Entre essas dificuldades destacam-se as diferenças culturais, enigmas com idiomas, busca por emprego e, especialmente, a xenofobia (aversão a estrangeiros) que sofrem.

Ademais, existem várias categorias de refugiados, definidas pelas causas: por perseguição política, conflito armado, fome, discriminação racial, social, religiosa e até os alijados por razões ecológicas.

Com a invasão da Ucrânia pela Rússia, são agora mais de 4 milhões de pessoas que se refugiaram em países vizinhos. Em sua maior parte crianças, velhos e mulheres.

O mais triste/curioso é que muitos refugiados desta guerra foram se abrigar em sua própria nação, invadida. O enigma é que mais de 7,1 milhões de pessoas estão deslocadas internamente, conforme o relatório da Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Será essa “fuga interna” causada por preconceito quanto a pequenas diferenças (‘ver’ Sigmund Freud)? O que fazer? Como classificá-los?

Perguntar não é pecado: como surgiu esse novo categoria de deslocado, o refugiado interno?

O que atinam? Será que tenho razão quanto à existência dessa nova categoria de refugiado?

Repito: Perguntar não é pecado!

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).


terça-feira, 25 de maio de 2021

QUEDA DA ESPERANÇA DE VIDA NO CEARÁ POR COVID-19

O jornal O POVO, em sua edição de 20/4/2021 (Cidades. p.15), publicou a matéria com a manchete "Expectativa de vida no Ceará pode reduzir 2 anos por conta da pandemia", que certamente causou a apreensão em muitos leitores desse importante veículo da mídia cearense.

A matéria em epígrafe foi fruto de um artigo "pre-print" intitulado "Reduction in the 2020 Life Expectancy in Brasil after Covid-19" ou (Redução da expectativa de vida 2020 no Brasil após a Covid-19), cuja primeira autora é a prestigiada pesquisadora Márcia Castro, portadora dos diplomas de Mestrado em Demografia pelo Cedeplar e doutorado (PhD) em Demografia pela Universidade de Princeton.

A brasileira Márcia Castro é professora de Demografia e Chefe do Departamento de Saúde Global e População da Escola de Saúde Pública da Universidade Harvard.

A vida média dos brasileiros poderá sofrer queda por conta da pandemia de Covid-19. O estudo estimou um declínio na expectativa de vida do brasileiro da ordem de 1,94 anos, resultando em regressão da mortalidade no Brasil aos níveis de 2009, pondo fim um ciclo de décadas de constante crescimento da esperança de vida ao nascer.

Especificamente para o Ceará, segundo Castro et al., a estimativa é de um declínio de 2,09 anos, passando a expectativa de vida de 74,68 anos para 72,59 anos, em decorrência da presente pandemia; para o estado de São Paulo a retração ficaria em 2,17 anos.

No mesmo dia 20/04/2021, o UOL, de São Paulo, publicou postagem dando conta de que a expectativa de vida ao nascer no estado paulista diminuiu um ano em 2020, caindo de 76,4 anos em 1979 para 75,4 anos em 2000, de acordo com um estudo divulgado pela Fundação Seade (Sistema Estadual de Análise de Dados), retrocedendo ao nível observado há sete anos, entre os anos de 2012 e 2013.

Considerando que o estado de São Paulo, até 2019, experimentava a cada ano um aumento de mais ou menos dois meses em sua esperança de vida ao nascer, a diferença de 1,17 verificada nos valores dos dois estudos é de grande monta.

Ambas as fontes são consideradas confiáveis e cientificamente respeitadas, mas os achados tão díspares podem ser resultantes de diferenças metodológicas ou nos dados originais levantados em cada trabalho.

Passada a pandemia, convém quantificar o quanto se perdeu em anos de vida dos brasileiros em geral e dos cearenses em particular. 

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Professor titular de Saúde Pública-Uece

Fonte: Publicado In: O Povo, de 2/04/2020. Opinião. p. 21.

quarta-feira, 6 de maio de 2020

O “PIBINHO” DENTRO DO ESPERADO


Lauro Chaves Neto (*)
O desempenho do PIB de 1,1% em 2019, na mesma faixa dos de 2018 e 2017, não trouxe nenhuma novidade em relação às expectativas existentes desde o final do ano passado. No quarto trimestre, houve um avanço de 0,5% em relação ao trimestre anterior e de 1,7% sobre o mesmo período de 2018. O PIB per capita ficou em R$ 34.533, com elevação anual de apenas 0,3%.
A desaceleração na taxa de crescimento pode ser explicada pelo menor crescimento do consumo das famílias e dos investimentos, aliado à perda nas exportações e à queda no consumo do governo. Turbulências externas como a guerra comercial entre China e EUA, além da crise na Argentina, e fatores internos como a instabilidade política e o ritmo das privatizações e das reformas, foram fatores determinantes.
Uma economia que cresce lentamente, sustentada por um crescente e caro endividamento das famílias, sem uma retomada consistente do nível de investimentos, públicos e privados, terá um ritmo lento e estará fragilizada diante de qualquer choque interno ou externo.
Responsável por aproximadamente 65% do PIB, o consumo das famílias foi impulsionado pelo aumento do crédito, enquanto os rendimentos e a produtividade do trabalho ficavam estagnados, dificultando um maior ritmo de recuperação da economia que, para se tornar realidade, precisaria se sustentar em um maior nível de investimentos das empresas industriais e comerciais, uma vez que o Governo deve permanecer restringindo o gasto público em sua política fiscal.
Acrescente-se que o Brasil não soube aproveitar o bônus demográfico, quando o crescimento da população ativa (15 a 64 anos) é maior que o aumento populacional, fenômeno que terminou em 2018. Sem ele, o Brasil terá menos condições de elevar a sua produtividade.
As expectativas para 2020 viraram uma incógnita em tempos de coronavírus e a indefinição sobre o seu impacto na economia, a questão é saber se o incremento do consumo financiado por crédito e, consequentemente, mais endividamento, resultará em demanda suficiente para reduzir a capacidade ociosa e motivar novos investimentos na indústria e no comércio. 
(*) Consultor, professor doutor da Uece e conselheiro do Conselho Federal de Economia.
Fonte: O Povo, de 16/3/20. Opinião. p.20.

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

EXPLOSÃO DEMOGRÁFICA E LIBERAÇÃO FEMININA


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Explosão demográfica é o súbito crescimento da população do mundo ou de um determinado território ou região. O crescimento da população causa preocupação quanto à disponibilidade de recursos ao aumento da violência. Atualmente, a população mundial está estimada em 7,2 bilhões de pessoas.
Há dois mil anos, avalia-se que o número de habitantes na Terra fosse inferior a 250 milhões de pessoas. Em 1650, o número alcançou 500 milhões. Em 1850, o planeta atingiu a casa de 1 bilhão de pessoas; em 1950, 2,5 bilhões; em 1987, 5 bilhões e, em 2010, quase 7 bilhões de pessoas.
Diversos fatores são mencionados como causadores desse efeito, sendo que o marco explicativo mais importante para o aumento do número de habitantes na Terra é atribuído à Primeira Revolução Industrial. A partir do século XVIII e da urbanização acelerada ocorrida nos países desenvolvidos e, mais recentemente, nos subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.
Quando as mulheres tiveram direito à alfabetização e acesso ao controle da natalidade o número de nascimentos amorteceu. Quando passaram a ter direito a ocupar cargos e profissões reservadas ao sexo masculino, a taxa de natalidade atingiu números bem menores. Até mesmo nos países subdesenvolvidos mulheres das classes sociais menos afluentes têm duas vezes mais filhos que as pertencentes à classe média...
O que mais chama a atenção é que a correlação entre a emancipação feminina e o controle da natalidade é um dos fatores menos mencionados, frente à emancipação feminina, aliada ou não aos contraceptivos, à escolaridade, à liberdade social, ao nível de desigualdade sexual, etc.
Na Espanha, em 1975, era raríssimo encontrarem-se mulheres nas universidades e a taxa de natalidade por mulher era em torno de 2,9 crianças. No ano 2000, 60% dos universitários eram do sexo feminino a taxa de natalidade caiu para 1,12. Sem desejar entrar no mérito da questão, onde foram aplicadas regras compulsórias de controle da natalidade, como na China, a taxa de natalidade por mulher foi maior do que as verificadas no ocidente (é de 1,8 agora).
Em países democráticos, observam-se taxas espontâneas que são baixas, como na Suíça (1,46), na Itália (1,2), Grécia, Rússia, Alemanha (1,35).
Nos países em desenvolvimento a mídia tem sido uma grande arma para o controle da natalidade através de informação, educação e alguma melhoria do contexto sócio-educacional, o que tem diminuído as taxas de nascimento.
A população do Ocidente vai declinar na segunda metade do século XXI e não podemos fazer muita coisa contra a fome e violência causada pela hiperpopulação do restante do planeta. O fato é que podemos controlar a natalidade pela emancipação feminina (direito à integridade do seu corpo, direito ao aborto e direitos reprodutivos, incluindo o acesso à contracepção e a cuidados pré-natais de qualidade), pela proteção de mulheres contra a violência doméstica e o assédio sexual. Será que as feministas e os machistas sabem disso?
O Feminismo é um movimento político, filosófico e social que defende a igualdade de direitos entre mulheres e homens. Ou partimos para ações positivas ou continuaremos para sempre na época das ideologias.
É sempre bom relembrar: uma das maneiras de combater a devastação do planeta pela superpopulação dos denominados Homo sapiens é a emancipação da mulher, não especificamente ou exclusivamente através da eliminação do assédio que está virilizando na mídia social e profissional, que na realidade ocorre em ambos os sentidos. Um relato honesto desenrola-se melhor se feito, escrito, falado, sem rodeios. “Sempre que liberamos uma mulher, libertamos um homem” (Margaret Mead - 1901-1978).
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PSICOSSOMÁTICA E DATILOGRAFIA


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
A psicossomática é uma ciência interdisciplinar que gera diversas especialidades da Medicina e da Psicologia, para estudar os efeitos de fatores sociais e psicológicos sobre processos orgânicos do corpo e sobre o bem-estar das pessoas. O termo também pode ser compreendido, tal como descreve Júlio de Mello Filho, como "uma ideologia sobre a saúde, o adoecer e sobre as práticas de saúde... é um campo de pesquisas sobre estes fatos e, ao mesmo tempo, uma prática, a prática de uma medicina integral”. Essa foi o que entendia no meu tempo sobre o que era psicossomática em que as modificações eram bem mais lentas e agora no curto espaço de tempo, quem nasceu no ano 1960, nem sexagenário é, pois falta apenas 2 anos para entrar nos sessenta.
As modificações corporais (somáticas) e psíquicas no contemporâneo, pós-moderno, mundo líquido como deseja, com razão, o sociólogo Zigmunt Bauman (1925-2017) e entre nós o filósofo Luiz Felipe Pondé escreve:
(“homem aparentando 60 anos, mas com corpo e disposição de 40 corre no Ibirapuera ao lado de uma gostosa de 25“, e onde o aborto será “banal como tomar vitaminas e vacinas”) na sua crônica 28/01/18(Folha de São Paulo) intitulada: O relojoeiro cego. Podem ler se desejar acessando: (http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2013/02/1225208-relojoeiro-cego.shtml).
Quando estudava no curso primário aprendi que o Brasil é um país predominantemente agrícola e agora (2018) o Google me diz que 85% da população brasileira vive nas cidades.
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2017), indica que o Brasil tem 207,7 milhões de habitantes. E por aí vai e vão as mudanças líquidas, gasosas ou sólidas...
Agora a expectativa de vida é de 80 anos. Beneficiários de uma medicina por fim eficaz no que diz aos medicamentos antálgicos (que protege contra dor; que age no combate da dor), os analgésicos e anestésicos, sofremos menos que nossos antepassados ainda nominados e muitos ainda vivos: avós e bisavós.
Não possuímos mais o mesmo corpo. Somos malhados nas academias. Tivemos os nascimentos nossos ou dos nossos filhos programados. A alimentação mudou. As doenças infecciosas passaram a ser tão raras que a definição de epidemia modificou, passando de ser ou dizer respeito das doenças infecciosas, não exclusivamente. Atualmente falam de epidemia de depressão e pânico.
As pessoas são formatadas pela mídia e pouca ou nenhuma pelos colégios ou universidades. Desde criança ou jovens ficamos acostumados, antes, pela TV e mais recentemente pelos IPhone. Estamos esgotados de assistirmos às mortes, assassinatos, tragédias, que um velho ou velha da geração passada, mesmo nas acontecidas guerras, viram ou assistiram. Aliás no Ocidente nunca tivemos sessenta anos. Tanto tempo ser guerra.
Acostumados a um mudo virtual e tendo os neurônios ativados pelos dispositivos eletrônicos, não somos os mesmos que da geração dos nossos avós e como se tem filho, agora, muito mais tarde, os pais que foram educados nos livros e no quadro negro e não na telinha estão ultrapassados neuro-psiquicamente. E falam a linguagem da Internet com sotaque.
Seu aparelho psíquico nem sintetiza, não conhece, nem integraliza mais o raciocínio como alguns de nós sobreviventes das gerações anteriores ainda não morreram, agora estão incapazes de acompanhar. Digo 1960 antes, para não ofender, as senhoras quase sexagenárias que desejam competir com a filha e até parecem maquilar ou pintar e disfarçar a velhice.
É quando me volta a memória o tempo da minha infância que quando perguntava que idade a senhora tem? As educadas me respondiam:— Sou do tempo em que a boa educação não se permitia perguntar a idade de uma senhora. Mas, sem esta gracinha muita antiga o que que tem a Psicossomática com isto tudo?
O corpo mudou, a maneira de pensar também, o nascimento e a morte mudaram. Assim como o sofrimento e o processo de cura, mudaram. As profissões mudaram, o espaço, os hábitos, os habitats também, e como se está no mundo, também.  Passou a ser um problema técnico e a Medicina, também. O que vejo agora, é o que os astrônomos dizem: a luz de muitas estrelas que brilham no firmamento e nos encanta já morreram há muito tempo.
Perante tantas transformações tenho que pensar novidades inimagináveis por vir chegar, e aquelas que ainda moldam o nosso comportamento, nossas maneiras de ser nessa Sociedade do espetáculo, do consumo e do narcisismo vai recorrer mais aos algoritmos... novo “Moloch” do momento.
A frustração é ter pensado que a Psicossomática seria a Medicina do futuro. Ficou tão fora de moda como meu diploma de formado em datilografia? Será?????
Nossas dúvidas são traidoras/ E nos fazem perder o que com frequência podemos ganhar/Por simples medo de arriscar. Shakespeare (1564-1616).
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

BOLSA GESTAÇÃO


Meraldo Zisman (*)
Médico-Psicoterapeuta
Assisto com cautela geriátrica às campanhas públicas, como sempre, pirotécnicas, mormente se o assunto tratado for de tema sexual, violência e envolvendo os jovens. Viralizam. Aquelas notícias sobre benesses e malefícios da tal Bolsa família, também, desde que implantada, passou a ser imexível. Proferem os denominados cientistas políticos ser ela o mais potente cabo eleitoral brasileiro.
Varando da obstinação psicótica (não referente a indivíduos portadores de psicose e mais como ideia fixa), surge construída a cortina noticiosa da corrupção envolvendo as mais diferentes plataformas difusoras; arrisco-me, como solitário contributo de médico, a mencionar as consequências da gestação em adolescentes ou, dito de maneira distinta: uma criança desenvolvendo outra em seu interior.
Assim, se a corrupção passou a ser o bode expiatório das mazelas nacionais, e ela preexistia na formação da nação brasileira, acrescento mais esta:
Para mim a crise atual não passa de mais um episódio banal(?), corriqueiro que tomou rumos diversos das tradicionais revoluções latino-americanas. E espero que assim continue.
Advirto, pois o País se encontra dividido, e os grupos se digladiam em adjetivismos explosivos que nada de positivo podem trazer. Mexer agora com eleições precoces, soluções e medidas conjunturais é tornar muito pior o que acontece. Após escritos esses avisos introdutório-filosóficos, acudo-me no bardo inglês William Shakespeare (1564-1616) quando afirma: O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém.
E, no caso nosso, digo: “Poderosos que jamais foram trocados não vão dar certo, seja reforma trabalhista ou previdenciária, sem antes advir a reforma política”.
Peço, por favor, não me respondam com números a este incentivo ao aumento populacional para com o título deste artigo. O que temo ao abordar tais assuntos é envolver a Ciência da Estatística deficiente e erros de coletas, criando mais um diagnóstico de situação, apenas numérico, que serve exclusivamente como alavanca ao empoderamento político-ideológico, seguido dos belos discursos, retóricos e infinitos.
Os números, nunca esquecer, prestam-se à interpretação que convém ao poder. A minha pergunta direta é: - Com a complementação da ajuda (Programa Bolsa Família P.B.F.), aumentada para gestantes, e que se prolonga por seis ou mais meses, o tempo do incentivo à amamentação não estaria ajudando o avanço do número de gestações nas jovens? Jovens que, com a gravidez, passam a ter direito a candidatar-se ao P.B.F., acrescentando às suas ínfimas benesses mais um valor agregado à tal agora contaminada Bolsa Gestação?
Em termos de sociedade (de um país), a adição de um valor aos produtos se dá quando há remuneração de fatores de produção. Com o programa Bolsa família não se produz coisa alguma, é sim obra caridosa, que gera o aumento do número das gestações nas adolescentes indigentes (como era denominado o doente pobre que não podia pagar o ato médico e era socorrido pelas Santas Casas da Misericórdia). Isto acende a luzinha de meu acautelar geriátrico: Não estamos aumentando a população da Miséria? Cuidado com mais essa pseudoajuda. De nada vale ajudar os fracos e depois não ampará-los.
(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE) e da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES). Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

 

Free Blog Counter
Poker Blog