sábado, 13 de fevereiro de 2010

PRAÇA ROGÉRIO FRÓES: do abandono à recuperação

Para muitos, é gratificante morar nas vizinhanças de uma praça, um recinto público, aberto, arejado e acessível a qualquer cidadão. Na nossa situação particular, essa alegria era posta de lado, até pouco tempo, devido ao abandono em que se via mergulhada a Praça Rogério Fróes, vítima do desleixo do poder público municipal, sem nada fazer para reparar os danos provocados pela ação do tempo e também praticados pelo vandalismo humano.
A praça de que se fala foi concluída há cerca de dez anos, na gestão do Prefeito Juraci Magalhães, seguindo um cuidadoso projeto urbanístico, com o natural esmero de manter as frondosas árvores nela fincadas, muitas das quais frutíferas. O logradouro foi “contemplado” com passeios pavimentados em pedras portuguesas, uma polêmica marca de piso da administração anterior, sendo ainda provido de quadra de esportes e parque infantil, além de vários bancos de madeira, de diferentes tamanhos, com suporte em ferro forjado, distribuídos em pontos mais sombreados.
A degradação praticada pela mão humana, na Praça Rogério Fróes, nunca foi causada pelos residentes em suas imediações, mas por pessoas procedentes de outras zonas de Fortaleza, que não satisfeitas em pegar do chão os pomos maduros, ofertados pela mãe natureza, ficavam a sacar as pedras portuguesas, para arremessá-las nas copas das árvores, com o objetivo de derrubar os frutos ainda imaturos; e note-se que até traves e cercas de arame da quadra esportiva haviam sido surrupiados por larápios da pior espécie, deixando os furos imensos nos enferrujados alambrados. À luz do dia, “amigos do alheio” conseguiram carregar, para local ignorado, a maior parte dos bancos originais; os brinquedos do parque infantil, tão festejados pela meninada, foram também alcançados por esse espírito destruidor, deles sobrando apenas, boas lembranças.
A atuação do poder público, nesse espaço aberto aos munícipes, restringia-se a uma eventual e esporádica capinação, com efeitos dissipados ao curso de uma semana, tempo suficiente para que o mato e outras ervas daninhas voltassem a crescer, reassumindo os seus domínios, como que a demarcar a predominância dessa vegetação. As grandes árvores não recebiam o menor cuidado, exceto pela intervenção, de quando em vez, da Coelce, cujos agentes podavam os galhos pendidos na fiação elétrica. Aliás, foi por conta mesmo da ação do tempo, associada com a omissão pública, que algumas das maiores árvores tombaram, tendo a PMF, após notificação, comparecido ao local para completar o processo de derrubada de mangueiras, cajueiros e coqueiros, sem repor, posteriormente, o que fora perdido.
Para não dizer que o caos era definitivo, apenas subsistia, na parte central da praça, um Oratório da Mãe Rainha, erguido, há mais ou menos seis anos, pelos católicos do Setor V, da Paróquia de São Vicente de Paulo, destinado à feitura de orações comunitárias, dando a impressão de que ainda havia ali uma réstia de esperança, capaz de inibir assaltos e a tomada de posse do logradouro por marginais, já que o policiamento na área, de responsabilidade estadual, era inexistente, o mesmo acontecendo com a vigilância patrimonial, tutelada pelo município.
Com relação aos agravos a esse espaço tão bucólico, privilegiado pela própria natureza, com o milagre da vida vegetal, várias foram as tentativas dos moradores de suas cercanias, no intuito de sensibilizar as autoridades municipais, para os problemas que vinham se acumulando e que na verdade, dependiam só de uma decisão política para serem sanados.
As palavras não foram lançadas ao vento. As queixas foram escutadas, e o gestor Rogério Pinheiro, atento aos clamores dos suplicantes, envidou todos os esforços para garantir, mais do que uma mera recuperação, uma verdadeira reforma da praça, o que foi concretizada no correr de 2008, tornando-se ele o grande artífice da tão almejada obra. Já na fase de conclusão, os moradores se articularam em seguidas reuniões, culminando esse monumental trabalho de mobilização, na fundação da Associação dos Amigos e Moradores da Praça Rogério Fróes – a “Amoramigos” – cuja primeira diretoria foi empossada, após escrutínio, em dezembro de 2008. Esteio desde a primeira hora, o Dr. Monteiro, sócio-diretor do Hospital São Carlos, desdobrou-se em ofertar condições de infraestrutura para o funcionamento da dita associação. Dezenas de moradores, individualmente, concordaram em pagar taxas para manutenção da praça e os condomínios residenciais das proximidades, oficializaram uma taxa coletiva em suas despesas mensais, o que prova que os demandantes levam o mérito de não só terem exposto a ferida, mas de agirem no sentido de curá-la.
A praça, não é nenhuma novidade, é um bem público, disponível a qualquer cidadão, pouco importando se ele resida ou não nas suas vizinhanças; tanto é assim que ganhou notoriedade nos versos do poeta baiano Antônio de Castro Alves: “a praça é de todos, como o céu é do condor”. Hoje em dia, já não se fala desse modo, posto que o espaço azul perdeu o domínio para os aviões, grandes e pequenos.
É sempre bom rememorar, Senhora Prefeita, que a área verde, da cobertura vegetal da praça, encravada no bairro Dionísio Torres, gera externalidades positivas, como contenção de águas pluviais, diminuição da temperatura ambiente, emissão de ar mais respirável, responsáveis pelo ingresso de benefícios, em um alargado raio de ação, a todos os indivíduos que transitam pelos quatros grandes corredores de atividade econômica, expressos nas avenidas Pontes Vieira, Antônio Sales, Desembargador Moreira e Virgílio Távora, independentemente da procedência ou da residência das pessoas.
Nesses tempos de agora, quando tanto se fala de meio-ambiente, quando se discute em Copenhague os efeitos das mudanças no clima, em parte atreladas ao efeito estufa, só merece louvor o empenho de quantos se bateram e se batem pela preservação dos ambientes públicos, a exemplo da Praça Rogério Fróes, que ora está sendo cuidada pelos que se usufruem do vento que lá circula, livremente, do som melodioso dos pássaros que lá fazem morada, dos frutos que caem das árvores, com a maior naturalidade, do passeio sobre pedras portuguesas, todo recuperado, a permitir boas caminhadas, artérias oxigenadas e menores problemas para o coração.
Marcelo Gurgel Carlos da Silva
Médico e economista em Fortaleza

* Publicado In: Jornal O Povo. Fortaleza, 13 de fevereiro de 2010. Jornal do Leitor. p.3.

2 comentários:

Josias disse...

Caro Marcelo, o seu oportuno artigo nos faz relembrar momentos de beleza da praça Rogério Fróes. Lamentavelmente o crescimento moral da humanidade não se faz na mesma proporção do crescimento intelectual. Ainda bem que estamos criando a era da conscientização coletiva o que promove a maior participação das pessoas além fronteira do seu próprio lar. Parabéns pela iniciativa e obrigado pelo convite de ler neste artigo a beleza do seu sentimento de ser cidadão. abraço fraterno Josias (Cond. Morada)

Marcelo Gurgel disse...

Caro Josias,

Muito obrigado por seu lúcido e sensato comentário. Sobre a Praça Rogério Fróes, já publiquei três outros ensaios, nostálgicos e/ou de protestos contra a negligência pública.
Atenciosamente,

Marcelo Gurgel

 

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