quarta-feira, 31 de maio de 2023

PERFIL DO PACIENTE ATENDIDO NO IJF

Por Daniel de Holanda Araújo (*)

Plantão de fim de semana no Instituto Dr. José Frota (IJF). Ambulâncias chegam aos montes e às pressas vindas de todo o Ceará - às vezes de outros estados - transportando vidas. Vidas que precisam ser salvas. Pessoas com histórias, famílias e planos a se realizarem. Muitas nem sabem que o IJF é um hospital da Prefeitura de Fortaleza. Tampouco os socorristas param e pensam sobre a origem do financiamento da saúde antes de embarcarem o paciente numa viatura rumo à capital. Nem deveriam. Não há tempo e essa é uma questão humanitária, de respeito ao direito básico à saúde. Direito à vida.

O IJF funciona 24 horas por dia com equipes multiprofissionais e estrutura para diagnóstico por imagem, laboratórios, centros cirúrgicos, enfermarias, consultórios e áreas de observação. São mais de vinte especialidades médicas ou odontológicas em atuação na unidade.

Para se ter uma ideia, a média de atendimento na emergência do IJF ultrapassa os 6.000 pacientes ao mês, o que corresponde a mais de 200 por dia, portanto. São vítimas de quedas, acidentes de trânsito, queimaduras e armas de fogo. Historicamente, os pacientes provenientes de fora de Fortaleza representam metade das internações. Nosso hospital é de referência. Recebemos todos, indistintamente. Somos servidores públicos e trabalhamos para salvar vidas. É essa a nossa missão.

E isso não é somente com pacientes de traumatologia. Somos referência também no tratamento de queimaduras e na assistência toxicológica, acolhendo e acompanhando. O IJF dispõe do Centro de Tratamento de Queimados (CTQ), que realiza mais de 200 atendimentos iniciais por mês, além do acompanhamento destes pacientes, atingindo mais de 800 atendimentos. O Centro de Informação e Assistência Toxicológica (CIATox) provê suporte aos pacientes com intoxicações por produtos químicos usuais, medicamentos, envenenamentos, além de picadas de animais e contato com plantas.

Diante da inestimável contribuição desse hospital em prol da nossa gente, registro toda gratidão aos meus colegas profissionais de saúde, de todas as categorias, do maqueiro ao médico, que se dedicam diuturnamente a salvar vidas e realizar um atendimento de excelência e humanizado.

(*) Médico. Superintendente do IJF.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 29/04/2023. Opinião. p. 17.

terça-feira, 30 de maio de 2023

NEUROCIRURGIA PARA PARKINSON

Por Rafael Maia (*)

Receber diagnóstico de doença de Parkinson pode ser muito impactante. Ainda não há cura, porém, felizmente, existem tratamentos eficientes, tanto farmacológicos como não-farmacológicos, que podem melhorar sobremaneira a qualidade de vida da pessoa com Parkinson. Dentre essas terapêuticas, está a neurocirurgia.

Existem dois tipos de cirurgia para tratar a doença de Parkinson: palidotomia e estimulação cerebral profunda (mais conhecida como DBS, do inglês Deep Brain Stimulation). A primeira técnica consiste em lesionar a estrutura neuroanatômica Globo Pálido: é um procedimento irreversível e com indicações que ficaram mais restritas após o advento da técnica do DBS - essa sim, a alternativa operatória para tratamento cirúrgico que deve ser vista como preferencial.

A técnica do DBS consiste em implantar eletrodos intracerebrais conectados a um gerador de pulsos elétricos, similar a um marcapasso cardíaco (motivo pelo qual pode ser popularmente chamado de "marcapasso cerebral"), que ficará na altura do peitoral debaixo da pele. A cirurgia deve ser executada por neurocirurgião com formação específica, e a pessoa com Parkinson deverá ser submetida, ambulatorialmente, a diversas sessões de programação do gerador, a fim de encontrar a combinação de parâmetros que poderá melhor lhe beneficiar. Essas sessões, que devem ser feitas por médico neurologista ou neurocirurgião, é que permitirão que a técnica alcance todo potencial.

É muito importante frisar que nem todos os parkinsonianos terão benefícios com a cirurgia. A boa indicação, a correta seleção do candidato, é parte inerente ao sucesso do tratamento. Também é imprescindível que o neurocirurgião esteja sempre disponível, não deixando nenhuma dúvida sobre o que será feito... por exemplo: quais os sintomas podem melhorar? Quais são os riscos envolvidos? Quanto tempo dura a cirurgia?

A correta informação é a melhor arma para pessoas com Parkinson e seus familiares. Conhecer suas alternativas, e ter plena confiança no que é proposto, é o melhor caminho para cuidar da saúde e buscar uma melhor qualidade de vida.

(*) Neurocirurgião.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/04/2023. Opinião. p. 18.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

UMA HISTÓRIA COMUM, QUE DIZ MUITO!

Por Carlos Roberto Martins Rodrigues Sobrinho (Doutor Cabeto) (*)

Comecei o dia cedo, atento a vida, conversando com um tio querido. Como costuma dizer minha esposa, resolvendo os problemas do mundo.

É-me um hábito antigo, pois, em geral, os papos são suaves. Aconteciam com meu tio homônimo, que agora já distante nos escuta, somente em espírito, quiçá cada vez mais próximo.

Ao chegar na Faculdade de Medicina da UFC, lá no Porangabussu, dirigi-me a enfermaria lentamente, como se cada passo eternizasse uma memória.

Já no Hospital, introduzi uma conversa com os alunos, o que traz sempre a sensação de saudade, e de estar preparando o futuro. Falamos de vida, de cultura e, principalmente, de respeito ao sofrimento.

Foi assim que iniciamos a aula prática na enfermaria de cardiologia, onde estavam quatro pacientes. Pedi autorização a um deles, ao que me parecia mais confortável para conversarmos um pouco, eu e minha turma. Sugeri a um dos alunos que conduzisse a entrevista. Esse apresentou-se: sou fulano, aluno de medicina . E perguntou ao paciente, timidamente: por que ou como o senhor chegou no Hospital?

O paciente respondeu, prontamente: “Doutor, eu fui para o posto, fiz todos os exames particulares. Eles não explicam nada, mas era só para pegar o encaminhamento.

Depois fui para a Messejana, mas lá não tinha vaga. Disseram que meus exames não valiam, porque fiz no particular. Mandaram eu voltar para o posto. Eu voltei, só que dessa vez deu certo, um amigo conseguiu o encaminhamento para o Hospital das Clínicas.

Ah, antes de tudo, fui lá na UPA para ver se ajudavam, a glicose estava 600, aplicaram insulina e disseram que meu problema não era para lá”.

A anamnese continuou, com a mesma hesitação de um principiante, daqueles que estão a realizando pelas primeiras vezes. Assim, foi o paciente quem conduziu a conversa. Relatou-lhe com detalhes a sua doença, sobre sua família que sofria das mesmas aflições, e, então, nos falou que aguardava para submeter-se a uma cirurgia cardíaca.

O aluno prosseguiu com o exame físico, esforçando-se para suprir a insegurança de quem ainda está em processo de aprendizagem, e aparentemente alheio às realidades ali expostas. Com as mãos indecisas e algo trêmulas o examinou, parte por parte. E, analisando cada movimento no leito, palpou os pulsos arteriais e o abdome, auscultou o tórax, e concluiu em poucos minutos: “pronto professor, terminou”.

Veio a nós uma percepção de algo inacabado, pois uma boa entrevista clínica não termina como se não tivesse ocorrido, e sim, estabelece uma relação de confiança. Assim, nos apressamos em demonstrar o quanto estávamos interessados no seu problema e na nossa experiência em solucioná-lo.

Uma abordagem eficiente pressupõe a capacidade de sedar as angústias do adoecimento, atribuindo ao paciente habilidades em lidar com esse processo.

Logo em seguida, permanecemos alguns minutos em silêncio, talvez desconcertados com essa realidade.

Foi quando, de uma maneira bem simples e inesperada, antes que prosseguisse-mos, o paciente, já ansioso, concluiu:

“Doutor, agora estou com medo, homem é carne, mesmo que eu seja servo de Deus”.

(*) Médico. Professor da UFC. Ex-Secretário Estadual de Saúde do Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 23/04/2023. Opinião. p.19.

domingo, 28 de maio de 2023

A SEMANA DA ASA EM FORTALEZA (1961)

O impossível acontece (1961).  Semana da Asa em Fortaleza. A FAB expôs na Praça do Ferreira um avião de caça a jato.

Tendo observado a enorme curiosidade do povo que ali se aglomerava, um espertalhão correu à tipografia mais próxima e mandou imprimir talões de rifa do avião. E pôs-se a vendê-los a Cr$ 100 cada, dizendo aos basbaques que a rifa correria na época do Natal.

Enquanto o vivaldino se enchia de dinheiro, um dos que lhe compraram bilhete dirigiu-se ao soldado da polícia que ali prestava serviço e perguntou-lhe:

- "Seu guarda, quando é mesmo que corre esse avião?"

O policial pensou que era piada, e que o homem o estava desacatando. Deu-lhe voz de prisão, e foram ao encontro do sargento, para que este conduzisse o impertinente cidadão ao xadrez.

Aí então ele lembrou de mostrar-lhes o talão da rifa, e os guardas, surpreendidos, passaram a dar caça ao vendedor dos bilhetes.

Este não demorou a ser preso.

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). Sem autoria explícita.

O CABARÉ DA MARGÔ

Nas proximidades do atual Hospital do Exército, situado à Avenida Desembargador Moreira, também estava localizado o mui famoso Cabaré da Margô. Margô era uma moça alta, esguia e charmosa que veio à Fortaleza para gerenciar o Night Club, estabelecimento que funcionou na Rua Dragão do Mar no tempo da 2ª. Guerra.

Tão bem se saiu nesse ofício, que não lhe faltou quem financiasse a montagem de uma casa particular, exclusivamente sua, que se notabilizou pela excepcional categoria dos hóspedes.

Naquele tempo a Aldeota praticamente não tinha moradores, o lugar era conhecido como mata da Aldeota. Margô, estrategicamente, montou sua casa nas proximidades do atual Hospital do Exército – que já existia – mas que tinha um acesso bastante complicado.

O cabaré da Margô era frequentado pelos homens da elite: empresários, coronéis, políticos, grandes fazendeiros; muitas personalidades de destaque em Fortaleza eram vistas por lá. Até um respeitável deputado que, ocasionalmente, assumia o governo do Estado.

Aconteceu que um dia, um jovem e entusiasmado delegado de polícia, flagrou a presença de menores no cabaré da Margô. Fez o que mandava a lei: prendeu a cafetina, fechou o cabaré, deu uma batida no local em busca de outras irregularidades, mandou abrir inquérito.

O resultado disso foi uma grande confusão: por trás das grades, Margô fez valer o seu prestígio político. O Deputado amigo, cliente assíduo do estabelecimento, estava à frente do governo e adotou medidas radicais, de modo a que ficasse claro seu apreço pela amiga “ofendida”: demitiu sumariamente o delegado.

No dia seguinte, o jornal Gazeta de Notícias – que fazia oposição ao governo – abriu manchete com estardalhaço: "Cafetina Margô demite delegado". Escândalo sem tamanho, que o governo teve de correr para se explicar através dos seus assessores e aliados políticos.

Ao reassumir o cargo, o governador titular recolocou as coisas em seus devidos lugares, ou seja, desfez o ato de demissão do delegado. Mas o cabaré da Margô continuou em funcionamento, de vento em popa, com ou sem a presença de menores.

Extraído do livro de Blanchard Girão "Sessão das Quatro" cenas e atores de um tempo mais feliz


sábado, 27 de maio de 2023

MODESTIA JUAZEIRENSE!

Estava num passeio em Roma quando, ao visitar a Catedral de São Pedro fiquei abismado ao ver uma coluna de mármore com um telefone de ouro em cima.

Vendo um jovem padre que passava pelo local perguntei a razão daquela ostentação.

O padre então me disse que aquele telefone estava ligado a uma linha direta com o paraíso e que se eu quisesse fazer uma ligação eu teria de pagar US$ 100.

Fiquei tentado, porém declinei da oferta.

Continuando a viagem pela Itália encontrei outras igrejas com o mesmo telefone de ouro na coluna de mármore. Em cada uma das ocasiões perguntei a razão da existência e a resposta era sempre a mesma:

Linha direta com o paraíso ao custo de US$ 100 a ligação.

Depois da Itália, chegando ao Brasil, fui direto para o Cariri Cearense. Ao visitar a nossa Basílica Menor de Nossa Senhora das Dores, no centro da cidade de Juazeiro do Norte, fiquei surpreso ao ver novamente a mesma cena: uma coluna de mármore com um telefone de ouro.

Sob o telefone um cartaz que dizia: LINHA DIRETA COM O PARAÍSO - PREÇO POR LIGAÇÃO = R$ 0,25 (vinte e cinco centavos).

Não me aguentei, e perguntei....

Padre, eu disse, viajei por toda a Itália e em todas as catedrais que visitei vi telefones exatamente iguais a este, mas o preço da chamada era US$ 100 dólares. Por que aqui é somente R$ 0,25 centavos?

O Padre sorriu e disse. Meu amigo, você está em Juazeiro do Norte, terra de *Nossa Senhora das Dores e do Padre Cícero*. Aqui a ligação é local.

O PARAÍSO É AQUI !!!!!!!!!!!!!!

Fonte: Internet (circulando por e-mail e i-phones). (Autor desconhecido).

CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Maio/2023

A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de Maio/2023, que será realizada HOJE (27/05/2023), às 18h30min, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas

sexta-feira, 26 de maio de 2023

Crônica: “Poeta vendedor de bacia” ... e outros causos

Poeta vendedor de bacia

É já praxe Jair Moraes me acionar pelo zap pra saudável bodejado às quintas-feiras. Dessa vez, contudo, foi enfezado: tava virado numa sabaó ("virado na gota serena, virado no cão, virado num bode, virado numa saraça, virado num tiú, virado num traque -inzamboado"). Por causa de que? De notícia falsa envolvendo um suposto nebuloso passado dele, conforme boato cabuloso que circula a mais de mil no bairro. Com a palavra, o poeta dos cachorros:

- Macho, logo comigo, que "odío" mentira!

- Fake News é coisa de fí duma égua!

- Fico afobado, brabo todo! Vontade de comer areia grossa!

- Mas, qual informação abusenta sobre o amigo papocou?

- Que eu comecei a andar com 18 anos. Pode isso?

- Eita!

- Que eu aprendi a falar com 19 anos. Acredita?

- Eita, eita!

- Pior:que eu decorei o soneto "As Pombas" de Raimundo Correia aos 20 anos...

- Eita, eita, eita, mil vezes eita!

Que de mentiroso há nas assertivas acerca de Jair que correm na Vila, à moda fogo em monturo? "Tudim!" Daí vir o amigo a público botar os pingos nos is:

- De uma vez por todas, eu comecei a andar aos 17 anos e falar, aos 18!

- E As Pombas?

- Hômi, Raimundo Correia é nome de galego!

Identificando o sujeito

De tudo eu já vi no mundo, mas essa!... Numa localidade conhecida por "Caroço de Jerimum", georreferenciar é como denominam o natural exercício obrativo dos bichos intestinais. Por outras, georreferenciar é defecar. A cagada, por sua vez, um georreferenciamento caprichado. Fui procurar o motivo de terminologia tão rebuscada para o solene ato de despejar excremento sentina afora. Descobri, pra felicidade do planeta.

Raimundo de Mazinha, sujeito gabola, que pra tudo tendo uma resposta, tipo metido a intelectual, evacuava solene detrás de casa - entre duas bananeiras, tendo em mão uma revista especializada no processo que define a forma, a dimensão e a localização de um imóvel rural, por intermédio de métodos de levantamento topográfico. Fazia força no "esfinco" e lia artigo em alto e bom tom:

- O georreferenciamento é essencial para a resolução de questões jurídicas e burocráticas que envolvam legislações ou regulamentações, como desmembramento, parcelamento ou remembramento de imóveis rurais.

Nesse exato instante, quando se espremia pra mais desbastar, passa a sogra Rivalda, à busca de madeira pro fogo. Vê a arrumação (havia já uma ruma no local) e grita horrorizada, tapando o nariz:

- Pelamor de Deus, Raimundo! Que é isso?

- Georreferenciamento! Taqui na revista! A padronização é muito importante para eliminar as falhas de levantamentos topográficos antigos...

- Cagando, é?

Criança não se governa

Conversa animada das duas senhoras enquanto chega o Uber, sentadas no batente.

- Pois o Valdenir dessa vez enlocou de vez! Peitica que volta! Causa e efeito puro!

- Também, brincou com coisa séria até dizer chega, se fazendo de doido pra aposentarem ele com 'michurucos' 40 anos de idade. Meninice dele...

- É vero. É que nem diz mãe: 'se fazer de doido endoida'!

Fonte: O POVO, de 6/05/2023. Coluna “Crônicas”, de Tarcísio Matos. p.2.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

CAMINHOS DO CEARÁ RETRATOS BRINCANTES: Viva Mestre Tarcísio

Por Izabel Gurgel (*)

O único retrato do meu pai jovem tem a beleza de nascença que nele vibrou até a morte. Um moço tão à vontade no paletó com gravata quanto no olhar melancólico que vai bem em quase todas as artes, pode doer de mansinho uma vida inteira e não deixar rastro em qualquer suporte material. Dilaceração que se realiza no silêncio, entre lonjuras e lentidão. Ele tem entre dezoito e vinte e poucos anos. Os anos variavam no relato que se repetia sobre a feitura do retrato: a Fortaleza, no começo da década de 1940, já distante daquela que se aformoseara na virada dos anos de 1800, 1900, mas talvez ainda não anunciava o que Caetano tão bem diz cantando: parece construção, mas já é ruina.

O fotógrafo, cinco anos mais velho, é o mesmo que daria à cidade um de seus retratos mais comovedores, o das rotinas de vidas invisíveis em um Mucuripe em preto & branco, tão solar, tão real, que só sendo ficção. Comovedor, com as alegrias do cotidiano de meninos e meninas, homens e mulheres à beira do mar, com tempos que o tempo devorou. Seus "mesmos tristes" ecoando nos nossos, como na música de Tom Jobim. Ô, Seu Chico Albuquerque, receba nossos agradecimentos. O Mucuripe se realiza na gente, quando evocado pela memória, com a poesia da coletânea de fotos que o senhor fez. Revejo agora, em livro, foto sua de uma labirinteira, fazendo a renda bordada ou o bordado rendado de nome labirinto.

Um pedaço da vívida, vivida geografia de Fortaleza refulge no papel sensibilizado pela luz com a qual Seu Chico inscreveu paisagens na gente, fez retratos. O retrato de Rosalvo Gurgel Oliveira é uma escola, uma escolha. Talvez não sejamos mais do que uma tentativa de existir em um brevíssimo espaço de tempo. Por isso, para isso, a nós humanos o ofício e a bendição de urdir ficções. Como homens ao mar, pescando. Mulheres fazendo renda, a sustentar cotidianos. Fisgar a vida. Deixar-se fisgar.

Jorge Luis Borges, escritor argentino com rosto moldado para o retrato, um certo ar de haver sido tocado pelo eterno, ele dizia que, ao morrer, morre com a criatura uma série de circunstâncias. Aquele rosto jamais se realizará outra vez. Cito e me perco na vastidão que seu dito abre para contar do mapa escrito|inscrito na pele. Do que se tornou o rosto, um rosto. E jamais se realiza outra vez do mesmo modo. Talvez seja a fonte de onde jorram os retratos.

Ao longo da história da humanidade, sabemos, o retrato é uma série de práticas distintas abrigadas sob o mesmo nome.

Amanhã, primeiro de maio, é um dia bom para um retrato do Mestre Tarcísio. Faz-se Renovação na casa-sede do Reisado São Miguel, em Juazeiro do Norte. Ano após ano, renova-se a tradição inventada de colocar nos lares o Sagrado Coração. Tarcísio Mendes da Silva faz do modo bonito que inventou de viver: na rua, brincando. Antes da reza, e já é reza, a banda cabaçal São Bento. Depois, o guerreiro N. Sra. Aparecida. Bendita seja sua oração ao tempo.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 30/04/23. Vida & Arte, p.2.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

ESCOLAS AMEAÇADAS

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A Constituição Federal (CF) de 1988 afirma a educação como um direito social (Art. 5), cuja finalidade é "o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho" (Art. 205). A escola é a instituição onde tais processos são desenvolvidos, mediante o acolhimento de crianças, jovens adultos para o cotidiano ato de ensinar e aprender. Este espaço de proteção social hoje se vê ameaçado. Em uma sequência de atos criminosos, que culminaram em assassinatos de estudantes e professores, a exemplo de uma escola estadual em São Paulo e uma creche em Santa Catarina, as escolas brasileiras passaram a ser lamentável alvo de tentativa de novas agressões e objeto de fake news.

O significado social e político de tais ataques merece uma reflexão. A escola é parte de um contexto mais amplo e nela se refletem os problemas mais gerais de uma sociedade. Esses atos brutais ocorrem no cenário de um país adoecido pelo ódio, exacerbado por divisões ideológicas antes menos visíveis no país. Culpa-se a pandemia pelo crescimento sem precedentes dos problemas de saúde mental. De fato, pode haver uma associação nefasta entre a vivência desse período tão difícil e a violência física e simbólica expressa nesses atos que aterrorizam e enchem de medo as famílias e a comunidade escolar. Mas há algo mais a ser compreendido nos gestos bárbaros cometidos por essas mentes doentias. Há que se compreender esse movimento no quadro mais amplo de um mundo em processo de radicalização potencializada pelas redes sociais, onde circulam conteúdos que incitam ao crime e geram inverdades.

Governos estaduais e municipais elegeram como prioridade o desenvolvimento de protocolos de proteção e segurança da comunidade escolar. O governo federal procura fazer a sua parte com aporte de 3,2 bilhões para ações diversas de prevenção a tais crimes. Ainda assim, a insegurança persiste. O debate sobre essas questões é inadiável. A ameaça às escolas, inaceitável. Que novas políticas públicas integrem esse movimento e a sociedade se dê as mãos em uma cultura de paz!

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/04/23. Opinião, p.18.

terça-feira, 23 de maio de 2023

A SANTA CASA E O DEVER DE CASA

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

O problema financeiro que infecta as instituições filantrópicas hospitalares como a Santa Casa, precisa de soluções vindas de muitos eixos, dentre os quais a atualização da Tabela SUS e a conscientização dos entes municipais para reduzirem a defasagem com que repassam os recursos são apenas dois exemplos mais visíveis.

Mesmo as doações, emendas parlamentares e outras formas de ingresso de recursos de forma pontual, tão bem-vindos para minorar os ingentes problemas, não podem ser tidos como solução definitiva e ideal.

Conscientes disso, os que fazem a Santa Casa de Fortaleza optaram por proceder a reflexões estratégicas, baseadas nas grandes riquezas que a Santa Casa detém em termos de conhecimento e experiências, em múltiplas áreas. Aliás, sua atuação a classifica como unidade hospitalar com vocação e atuação para o ensino e a pesquisa.

Uma das bases para aproveitar esse tesouro será o inter-relacionamento cada vez mais estreito com as instituições de ensino superior, com troca de saberes e de oportunidades, como cursos de formação e especialização, estágios e outras maneiras de interação, além da criação de um periódico científico que sirva de base para a disseminação das pesquisas nela realizadas.

Em termos de inovação e tecnologia, a recém-criada Diretoria de Inovação em Saúde já está agindo no sentido de também instituir redes de trocas, visitando hubs de inovação e mantendo contatos com instituições que detém expertise no segmento. A ideia central é a troca de experiências, porquanto, embora neófita na área é a Santa Casa um campo fértil de interesse para pesquisadores de ponta, inclusive por já desenvolver tecnologias leves em saúde.

Passando a dedicar ainda mais esforços na otimização de seus processos internos e no desenvolvimento de projetos de inovação em saúde, a Santa Casa irá se habilitar como instituição de ciência e tecnologia, pronta a estabelecer parcerias para utilização das mais avançadas tecnologias no ramo.

É a Santa Casa que, salvando vidas desde 1861, continua um diferencial na vida do cearense, com serviços de saúde humanizados e de alta qualidade, voltados especialmente para os mais carentes.

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 24/04/23. Opinião, p.18.

segunda-feira, 22 de maio de 2023

ORTODOXIA E HETERODOXIA

Por Luiz Gonzaga Fonseca Mota (*)

Segundo o “Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa”, ortodoxia significa conformidade absoluta com certos padrões, normas ou dogmas. Por outro lado, o antônimo, heterodoxia, diz respeito ao inconformismo, a não anuência e também a aspectos que não são tradicionais. Existem na vida humana, por exemplo, manifestações, atitudes, diretrizes e políticas caracterizadas por sentimentos ortodoxos ou heterodoxos. Assim, acontece com a religião, a medicina, o amor, as ciências jurídicas, a educação familiar, o comportamento profissional, as ciências econômicas etc. É evidente que cada pessoa deveria, de acordo com a sua consciência, fazer sua opção levando-se em consideração os princípios éticos e morais. Não se pode admitir, de um lado, os donos da verdade e, de outro, as resistências às mudanças quando não são encontrados os caminhos que levem à desejada felicidade. Dessa forma, como disse Francis Bacon: “O homem deve criar as oportunidades e não somente encontrá-las”. Dentro deste quadro de referência, é possível fazer uma análise ressaltando-se os aspectos conjunturais da economia de um país, isto é, as características e estratégias, bem como a interdependência relacionada com a política e o social. Não confundir as intenções retóricas com as mudanças efetivas almejadas pelo povo. Parece claro que os grandes problemas relacionados com o desenvolvimento econômico de um país, além de conotações mais profundas de ordem cultural, estão associados a fatores como desigualdades entre regiões, entre áreas urbanas e rural, bem como distribuição de renda altamente perversa, do ponto de vista pessoal, funcional (renda do capital versus renda de salários) ou setorial (setores de produção versus setores sociais). Esses desequilíbrios distributivos são de natureza estrutural e conjugam-se com os seguintes desafios conjunturais: elevado grau de endividamento, preocupantes níveis de desemprego, elevadas taxas de juros, déficits, dentre outros. A perspectiva de inflação dos países emergentes, para a formação da qual os fatores externos são inegáveis, tem um alto componente psicológico, o qual, certamente, é afetado pela incerteza no futuro. Sem dúvida, o quadro nesses países, não é fácil e seria leviandade exigir soluções rápidas e imediatas, pois além dos objetivos conflitantes, existem variáveis aleatórias. Todavia, vale destacar que é preciso encontrar diretrizes não tradicionais, não se fixando apenas na ortodoxia, visando assim, promover o desenvolvimento num contexto democrático.

(*) Economista. Professor aposentado da UFC. Ex-governador do Ceará.

Fonte: Diário do Nordeste, 28/04/2023. Ideias.

domingo, 21 de maio de 2023

UMA ROMÂNTICA SESSÃO DE CINEMA!

Um casal de namorados foi ao cinema assistir a um ótimo filme de ação. Enquanto eles assistiam o filme, a menina começa a tocar a mão do noivo, e então ele pergunta:

— Meu amor, olhe para a direita... tem alguém?

— Não, meu amor, ninguém...

— Olhe para a esquerda, tem alguém desse lado?

E a garota animada diz:

— Não, meu amor, não tem ninguém!

— E atrás de nós..?

— Não, querido! ninguém....

— Ali na frente há alguém...?

— Não, meu querido, não tem ninguém...

— Então foi você que soltou aquele pum 5 minutos atrás?!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

LEMBRANDO DO PASSADO

Um casal de velhinhos está deitado na cama. A esposa, vendo a distância que há entre eles, lembra:

- Quando éramos jovens, você costumava segurar a minha mão na cama. Que bons tempos eram aqueles...

O marido hesita, mas depois de um breve momento estica o braço e segura a mão da esposa.

Mas ela não se dá por satisfeita:

- Quando éramos jovens, você costumava ficar bem pertinho de mim. Que bons tempos eram aqueles...

Uma hesitação mais prolongada por parte dele, que, resmungando, vira o corpo com dificuldade e aconchega-se junto dela da melhor maneira possível.

Ela, ainda insatisfeita, diz:

- Quando éramos jovens, você costumava morder minha orelha. Que bons tempos eram aqueles...

Ele dá um longo suspiro, joga a coberta de lado e sai da cama em direção ao banheiro.

Ela, sentindo-se ofendida, grita:

- Aonde você vai??

- Buscar a dentadura!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.

sábado, 20 de maio de 2023

TRÊS PIADAS CURTINHAS...

1. Comigo acontecem muitas coincidências. Nasci no dia 5 de maio, às 5 horas. Quando fiz 55 anos, apostei no número 55.555 e ganhei R$ 5 milhões. Peguei tudo e apostei no cavalo 5, no 5º páreo.

– Legal! E quanto você ganhou?

– Nada.

– Nada?

– O maldito chegou em quinto.

2. Numa manhã tranquila de domingo, à mesa do café, eu disse à minha mulher:

– Quando eu morrer, quero que você venda todas as minhas coisas imediatamente.

– Ué, por que você quer que eu faça uma coisa dessas? – perguntou ela.

– Acho que você vai acabar se casando de novo, e não quero outro idiota usando minhas coisas.

Ela me olhou com atenção e disse:

– Por que você acha que vou me casar com outro idiota?

3. Um homem é parado na estrada por estar com o farol quebrado. O policial olha para dentro do carro e vê uma coleção de facas no banco de trás.

– Senhor, por que todas essas facas? – pergunta.

– São para o meu número de malabarismo – ele responde.

– Prove – diz o policial.

O homem sai do carro e faz malabarismo com as facas. Nisso, dois homens passam de carro.

– Puxa – diz um deles –, ainda bem que parei de beber. Esses novos testes de embriaguez são bem difíceis.

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


AQUECENDO OS PÉS

Um fazendeiro morava em uma casinha no interior do Rio Grande do Sul. Era inverno e fazia um frio danado, daqueles de chegar a zero graus, e por mais que ele colocasse muitos cobertores na cama, não conseguia dormir porque seus pés não esquentavam de jeito nenhum. Até que ele teve a ideia de ir até a farmácia e comprar e comprar uma bolsa térmica.

— É para aquecer os pés na cama!, explica ele para o farmacêutico.

— Olha, no momento este produto está em falta porque todo mundo teve a mesma ideia aqui na cidade, mas eu posso lhe dar uma sugestão: o senhor tem gato em casa?

— Tenho!

— Então! Lá em casa eu também tenho um gato, e coloco ele nos pés da cama... Não é a mesma coisa, mas ajuda bastante!

O senhor saiu todo empolgado com a ideia. No dia seguinte ele chega na farmácia furioso com arranhões espalhados por todo corpo.

— O que aconteceu? - perguntou o farmacêutico, aflito.

— Culpa dessa sua ideia maluca de colocar o gato pra aquecer meus pés!

— Por quê?, perguntou ele, sentindo-se culpado, — O gato era muito bravo?

E o senhor responde:

— Não, era mansinho. Bom, pelo menos até eu fazê-lo beber um litro de água quente!

Fonte: Disponível na home page “Tudoporemail”.


sexta-feira, 19 de maio de 2023

FOLCLORE POLÍTICO CII: Porandubas Políticas 592

Renovação da política

Nesses tempos de renovação partidária e, queira Deus, da purificação de alguns costumes, a coluna relembra essa história, como exemplo.

Robaina, vereador do MDB de Bagé/RS, ficou no PMDB depois da extinção da Arena e do MDB. Vivo, pôs a mulher no PDS. O senador Pedro Simon estranhou:

– Robaina, como é que você fica no MDB e sua mulher no PDS?

– Pois é, presidente. Ainda tenho três filhos para a reforma partidária.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

quinta-feira, 18 de maio de 2023

INSEGURANÇA ALIMENTAR E GESTAÇÃO

Meraldo Zisman (*)

Médico-Psicoterapeuta

Ponderações:

1 Comparada à média simples de 120 países, no Brasil a insegurança alimentar subiu 4,48 pontos percentuais. Um estudo observou crescente e marcada assimetria de insegurança alimentar entre homens e mulheres no Brasil. De 2019 a 2021, houve queda de 1 ponto percentual para homens (caiu de 27% para 26%) e aumento de 14 pontos percentuais entre as mulheres (subiu de 33% para 47%).

2 Como resultado, a diferença entre os sexos na insegurança alimentar em 2021 é 6 vezes maior no Brasil do que na média global. As mulheres, principalmente aquelas entre 30 e 49 anos, que tendem a estar mais próximas das crianças, acabam repassando a fome aos filhos. A subnutrição infantil deixa marcas permanentes, físicas e mentais, para toda vida.

3 Quando realizo qualquer trabalho ligado à insegurança alimentar, nova designação para a velha fome, e suas consequências sobre a infância das meninas (para não usar o antigo nome de classe social), e desconhecendo melhor critério de avaliação, levo em conta que a fome ancestral tem forte ligação com a profissão do avô materno. Se o avô teve condições de encaminhar o filho a uma situação econômica estável, o pai tem possibilidade de produzir um ambiente acolhedor: alimentação, moradia, saneamento básico, instrução; é isso que vai definir a qualidade da gestação de suas filhas, quando engravidam.

4 O número dos problemas sofridos pelas meninas, suas condições de saúde coletiva é o que irá determinar a higidez da gravidez. O cuidado que as meninas recebem desde criança garante aos seus conceptos uma melhor sobrevida.

5 Os nove meses que o feto passa no útero materno são mais importantes do que as décadas de anos que vivem fora dele.

Assim se perpetuam as doenças da pobreza, criadas basicamente pelas características da Fome Congênita, que se faz presente desde o nascimento, mas não é necessariamente hereditário.

(*) Professor Titular da Pediatria da Universidade de Pernambuco. Psicoterapeuta. Membro da Sobrames/PE, da União Brasileira de Escritores (UBE), da Academia Brasileira de Escritores Médicos (ABRAMES) e da Academia Recifense de Letras. Consultante Honorário da Universidade de Oxford (Grã-Bretanha).

quarta-feira, 17 de maio de 2023

Nota de falecimento: Solon Magalhães Vianna

Solon Magalhães Vianna durante o 5º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva da Abrasco | Foto: Acervo ENSP.

Faleceu ontem (14/5), em Brasília, Solon Magalhães Vianna, um dos fundadores e primeiro presidente da Associação Brasileira de Economia da Saúde (ABrES). Além de sua contribuição para a Economia da Saúde, participou de todos os passos da Reforma Sanitária Brasileira e criação do SUS.

Vianna era graduado em Odontologia pela UFRJ, pós-graduado em Saúde Pública pela USP e tinha especialização em Planejamento de Saúde pela Fiocruz. Trabalhou na Secretaria de Saúde e na Fundação Hospitalar do Distrito Federal (1961-1975), e no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e no Ministério do Planejamento (1975-1993).

A Associação Brasileira de Saúde Coletiva lamenta a sua partida, e se solidariza com colegas de trabalho, amigos e familiares. 

Postado na Home Page da Abrasco em 15/05/2023. 

A LADROAGEM COM COBERTURA OFICIAL

Por Pedro Jorge Ramos Vianna (*)

A ideia deste artigo me veio da leitura do texto "O Mau Ladrão", de Eduardo Bueno, publicado no livro História do Brasil para Ocupados, organizado por Luciano Figueiredo. LeYa Brasil. São Paulo, 2013.

Nesse texto lê-se um pouco da história de um tal Pero Borges. Este português, foi Corregedor de Justiça em Elvas, cidade do Alto Alentejo. Enquanto ocupava este cargo (1543) surrupiou 114.064 Reais da Coroa Portuguesa. Por isso, em 1547, foi julgado e condenado. A pena foi "... pagar à custa de sua fazenda o dinheiro extraviado", ficando suspenso por três anos de exercer cargos públicos.

Porém, em 1548, somente um ano depois da condenação, foi nomeado por D. João III, para Ouvidor-Geral (espécie de ministro da justiça) do Brasil.

Este fato mostra que a ladroagem por parte de altos dirigentes e a cobertura desses mesmos ladrões por parte do sistema judiciário, no Brasil, é uma herança de Portugal. O problema é que ainda hoje estórias parecidas se repetem.

O que levou D. João III a beneficiar um ladrão com um alto cargo no Brasil Colônia? Terá sido um "detalhe técnico"?. O sr. Pero Borges talvez tenha sido condenado a "não exercer cargo público em Portugal", não em suas colônias.

Não foi um detalhe "técnico" o que levou um magistrado do STF a considerar um "erro técnico" mais importante que o veredito de culpabilidade em segunda instância? Por acaso esse magistrado não sabia que havia tal "erro técnico" nos processos que estavam sendo julgados em Curitiba? Não poderia ele ter sustado tais julgamentos antes da promulgação de culpabilidade em primeira ou segunda instância?

Por outro lado, não é verdade que os processos contra os graduados demoram um tempo enorme para serem julgados e que sempre há mais uma possibilidade de apelação?

Não é verdade o fato de que no meio do cumprimento da pena sempre há a possibilidade de terminar o período prisional em casa, na chamada "prisão domiciliar"? Não é verdade que às vezes as penas são comutadas, pelos chamados indultos presidenciais anuais, e dadas como cumpridas?

Também não é verdade que os pequenos larápios, os "ladrões de galinha", não ficam mofando nas prisões, passando mais tempo preso do que o que foi previsto no julgamento? Ou até os casos de pessoas que são presas por tempo indeterminado, sem julgamento algum?

Ao que parece o "erro técnico" quando detectado é para favorecer os poderosos.

No que diz aos pequenos, o "erro técnico" é contra eles. Quantas pessoas já foram presas por causa de "erro técnico", como o uso de uma "prova" fotográfica (onde uma pessoa parecida com o verdadeiro culpado) é penalizada?

Que sistema judiciário é este?

Hoje, histórias como a de Pero Borges, no Brasil, são fichinhas. Verdadeiras histórias de trancoso.

(*) Economista e professor titular aposentado da UFC,

Fonte: O Povo, de 9/04/23. Opinião. p.18.

 

Free Blog Counter
Poker Blog