segunda-feira, 25 de maio de 2026

A EDUCAÇÃO SEM ESCOLA POLÍTICA

Por Raimundo Padilha (*)

No ensino superior quando foi quebrado o sistema seriado, substituído pela oferta por disciplina, se deu uma ruptura na educação política. No sistema seriado as turmas fechadas com seus 40 ou 50 alunos, facilmente eram identificados os seus líderes e com eles formados os seus Centros Acadêmicos, uma excelente escola de formação política. As suas lideranças se revelavam e eram facilmente identificadas.

Desta estrutura foram forjados líderes, que posteriormente foram atraídos para a militância político partidária levando valores que passaram a ocupar os parlamentos municipais, estaduais e federais. O nível médio dos parlamentares era bem mais elevado do que os atuais, tendo como consequência um debate de conteúdo e um maior e melhor nível de projetos.

O pensamento deles era voltado para a sociedade, ao contrário do que predomina hoje, que são voltados para os interesses pessoais dos próprios políticos, tendo como exemplo o absurdo de emendas parlamentares. A maioria dos eleitores não sabe em quem votou e a comunicação dos parlamentares com o eleitorado se dá predominantemente no período eleitoral à caça de votos para suas eleições e/ou reeleições. As casas legislativas não são avaliadas pelos seus eleitores, tendo como consequência mandatos sucessivos, quase que se transformando num emprego vitalício. E ainda há, o chamado "baixo clero", que vegeta e dorme em todo o seu mandato. É muito triste e pobre, o nosso parlamento, respeitadas as raríssimas exceções. Precisamos de muitas reformas e quem tem coragem de propor, se a nossa política é da conveniência pessoal? Está cômodo para eles e o povão que se lasque.

Foi apagado o processo de formação de líderes e ninguém contesta o fechamento da antiga escola política, nem alunos, nem professores. É como se estivéssemos no estado da arte, embora, com um parlamento fraco e sem visão de futuro. E onde está o MEC, que não enxerga o mal causado pelo período militar e que ainda persiste? Por conveniência, miopia ou frouxidão, nesta área, nada ou quase nada se faz no nosso país, a superficialidade é o que predomina.

Quando estudante do curso ginasial, hoje ensino fundamental participei ativamente dos Grêmios Literários. Eram verdadeiras escolas de formação política, havendo inclusive eleições bastante disputadas. Nos grêmios se praticava o exercício da oratória, de artes cênicas, dentre outras manifestações culturais. Isto era a base da formação de um caldo de cultura que tinha prosseguimento no período universitário, para aqueles vocacionados, sendo um caminho aberto para as atividades político partidárias. Daí o contraste entre os políticos de ontem e de hoje.

(*) Economista, professor aposentado da UFC e membro da Academia Cearense de Economia.

Fonte: O Povo, de 15/04/26. Opinião. p.21.


domingo, 24 de maio de 2026

Causo Médico: MEDO DE CUCARACHA

Uma professora de uma escola médica foi fazer um curso na área de Saúde Pública, em um país insular, no começo da década de setenta do século passado, com duração de apenas dois meses. Quando retornou ao Brasil, ela, dizendo-se acostumada ao castelhano, só queria hablar, tendo “esquecido” o idioma pátrio.

Esse comportamento atípico perdurou, por algumas semanas, quando, um dia, ela se encontrava sozinha em seu gabinete de trabalho, e apareceu uma barata voadora, traçando um voo rasante. Foi aí que ela passou a gritar:

Una cucaracha! Una cucaracha!

Como não viesse ninguém em seu socorro, ela gritou ainda mais alto, quase urrando:

Una cucaracha!!! “Una cucaracha!!!

De novo, nenhuma viv’alma veio a acudi-la.

Já no desespero, pelando-se de medo do inseto, coevo dos dinossauros, ela lembrou-se do nome vulgar da Periplaneta americana em nosso vernáculo:

– Uma barata! Uma barata!

De pronto, entrou um servente que, sem pena nem dó, pegou um chinelo e liquidou a intrusa, no caso, a barata, tão sensível aos jatos de “superflit”, da época.

Depois desse choque, a tal professora esqueceu o castelhano e reaprendeu o português, sua língua materna.

De vez em quando, entretanto, só de ver uma barata, ela dava os seus pulinhos, querendo passar um atestado de feminilidade, com base no que, no popular, se diz: “Mulher de verdade é a que tem medo de barata”.

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sobrames/CE e da Academia Cearense de Médicos Escritores

Fonte: SILVA, Marcelo Gurgel Carlos da. Medicina, meu humor! Contando causos médicos. 2.ed. Fortaleza: Edição do Autor, 2022. 144p. p.76.

SILVA, M.G.C. da. Causo médico: medo de cucaracha. Revista AMC (Associação Médica Cearense). Setembro de 2024 - Edição n.37. p. 18 (online). (Doc. Nº 8.2.740).


UMA SINGELA REFLEXÃO

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Os pais, geralmente, intentam propiciar aos seus filhos todo conforto possível, mesmo os mais humildes e conforme suas possibilidades.

O filhote humano, ao nascer, é, dentre todas as criaturas, o mais desprotegido e, portanto, necessitado de mais cuidados.

O carinho e o afeto são laços, que nunca se devem romper, nem se confundir com o respeito, a gratidão, o amparo e, sobretudo, a autodeterminação. Filhos não são pajens, nem reféns da família. Devem ser educados para a realidade da vida, nos seus contraditórios, nas suas avenidas, como nas suas picadas.

O ninho familiar, por mais aconchegante que seja, não pode esconder os espinhos da jornada, que deverá encetar, sob a justificativa de proteção. O conforto eterno paralisa o dinamismo mental e o aconchego excessivo acomoda e congela a definição de rumos, a inserção social e a busca de sonhos: assim, os filhos nunca partirão para construir sua autonomia.

Lembro-me aqui do que fazem as águias. Aos seus filhotes nada falta, mas, quando ‘adolescem’, o ninho é desfeito e eles são impelidos a iniciarem seus voos. É o desconforto que os impulsiona a assumirem o poder de suas asas, que os obriga a crescer e a buscar seus sonhos.

O dever é carregá-los na sua pequenez, todavia, mais tarde, é fazê-los sentir a firmeza de seus pés e a pujança de seus sonhos, bem como ajudá-los a descobrir que podem e devem administrar sua vida: seu crescer não pode ser apenas físico, mas conjuntural, no holismo, que a vida abrange: social, econômico, ético, moral, espiritual.

Conforto demais é prisão e não amor. Mantém eternos bebês, quando o mundo precisa de homens e mulheres de escol e de fé.

O bem viver atrela-se, prioritariamente, a escolhas do querer e à determinação da mente, que jamais serão substabelecidas.

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 12/04/26.

sábado, 23 de maio de 2026

Tradição Cristã ou Tradicionalismo Católico?

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

Em se tratando da Igreja Católica, assiste-se a uma avassaladora onda de liberalismo progressista, e, diante desses ‘neologismos pragmáticos’, é necessário um ponto de reflexão para não sairmos da estrada, definida por Jesus.

Trago aqui minha singela opinião, sem pretensões de maiores aprofundamentos, tampouco de convencer ninguém.

A tradição é a transmissão de valores, princípios e costumes de geração em geração, de tal maneira a manter a identidade cultural e a essência dos valores e princípios de um povo, de uma nação, de uma instituição. O tradicionalismo, por sua vez, está mais atento ao como, valoriza mais o rito do que a essência.

A Igreja Católica tem como suporte a Sagrada Escritura, a Sagrada Tradição e o Sagrado Magistério.

O Cristianismo não existiria sem a historicidade dos Apóstolos e de Jesus Cristo, cujo ensinamento foi preservado e transmitido pelos Apóstolos, a partir da Igreja primitiva, sem a qual a Bíblia seria apenas um livro sem contexto.

Há registros, tanto na cultura grega, quanto na cultura romana, de baluartes que nos legaram a Bíblia. Assim, temos Clemente de Roma e Policarpo de Esmirna, no século I, Irineu de Lião, no século II, Agostinho de Hipona, no século V, Tomás de Aquino, no século XIII e os gregos Orígenes, Atanásio de Alexandria, entre tantos outros. Romper, portanto, com a Sagrada Tradição, é desvincular-se da história, rompendo com os próprios Apóstolos e, enfim, com a Palavra que é o Cristo Jesus.

A liturgia, com seus gestos, atitudes, músicas e símbolos propicia um ambiente de espiritualidade e de adoração, não deve ser adaptada à vaidade e transitoriedade do mundo, aliás o fermento é a Palavra e jamais o mundo.

Dando um olhar pragmático, é possível perceber-se que a atitude de adoração à Eucaristia parece ter-se encolhido, o Santíssimo circula pelo meio das pessoas como algo vulgar, não há sinalização de que Jesus está passando; a atitude de alguns sacerdotes e alguns ministros, diante da Eucaristia, não chega a ser nem mesmo uma vênia e a distribuição da Santíssima Eucaristia é mais semelhante a uma feira do que ao Santíssimo Sacramento, o Filho de Deus encarnado, presente no pão eucarístico.

Como católico, há vezes, que eu não me sinto num templo católico, sendo mais convidativo à oração e ao encontro com Deus o interior de minha moradia. Muitos ritmos musicais, nas celebrações, espantam e afastam mais do que despertam o espírito e não convidam à adoração, ‘data venia’, parece-me mais um show de calouros; muitas proclamações da Palavra são péssimas e incompreensíveis leituras sem qualquer preparo, nem compreensão do próprio leitor, constituindo, na minha visão, um desrespeito para com a Palavra.

O objetivo da substituição da língua oficial, o latim, pelo vernáculo, parece-me que vulgarizou, mas não espiritualizou, como se pranteava.

E o Presidente da celebração não é o sacerdote, é o próprio Cristo, tanto que a consagração é feita ‘in persona Christi’. O sacerdote é o intercessor, junto a Jesus Cristo, de quantos participam da liturgia e extensivo a todos.

A Igreja não é estática, nem o sacrifício da cruz e a ressurreição, riqueza museológica. Mas, a sua dinâmica não coincide com a dinâmica do mundo. É o Espírito que a vivifica, e não o mundo. Sempre foi, é e sempre será!!!

O Bispo auxiliar de Hertogenbosch, Robert Mutsaerts, afirmou que o colapso da prática religiosa, na Holanda, deveu-se à tentativa de tornar a Igreja mais atraente, ao modernizar suas práticas e diluir a identidade católica, resultando em esvaziamento, ao invés de renovação. (https://www.instagram.com/p/DWbWzLXDolJ/?img_index=1).

A Palavra nunca envelhece e jamais precisará de alterações, mesmo semânticas: evangelizar implica, sim, contextualização dentro do modal cultural, mas nunca o inverso, nem tampouco alteração e/ou adaptação de quaisquer citações da Palavra. À catequese cabe a explicação compreensível do Texto Sagrado.

Domine, auge fidem meam’!!!

Uma boa sexta-feira, as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 10/04/26.


CONVITE: Celebração Eucarística da SMSL - Maio/2026

A Diretoria da SOCIEDADE MÉDICA SÃO LUCAS (SMSL) convida a todos para participarem da Celebração Eucarística do mês de maio/2026, que será realizada HOJE (23/05/2026), às 19h, na Igreja de N. Sra. das Graças, do Hospital Geral do Exército, situado na Av. Des. Moreira, 1.500 – Aldeota, Fortaleza-CE.

CONTAMOS COM A PRESENÇA DE TODOS!

MUITO OBRIGADO!

Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Da Sociedade Médica São Lucas


sexta-feira, 22 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 867

Abro a coluna com uma historinha de Tancredo Neves, que mostra a índole matreira do grande político das Minas Gerais.

Um disfarçado sorriso

No segundo semestre de 1984, como chefe do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, coordenei um debate com os presidenciáveis Tancredo Neves e Paulo Maluf. Eram candidatos à presidência em eleição indireta, que ocorreria em 15 de janeiro de 1985, quando Tancredo venceu Maluf com 480 contra 180 votos e 26 abstenções. Salão nobre do Teatro Gazeta, enorme, lotado. Tancredo veio primeiro. Aplaudido de pé após um debate que terminou por volta de 23h. Por sugestão do banqueiro e ex-prefeito de São Paulo, Olavo Setúbal, fomos (pequeno grupo de professores) jantar com ele no elegante restaurante-pub de Geraldo Alonso, o famoso publicitário, o Santo Colomba, na rua Padre João Manoel. Sentei-me ao lado dele. Puxei conversa. Falamos de política. "Gaudêncio, de onde você é?", indagou. Observara o sotaque. Respondi: "Sou do RN". A conversa girou então sobre Dinarte Mariz, Aluízio Alves, Djalma Marinho, os Rosados etc. O vinho bom descia suave. De repente, no meio de animado papo, Tancredo fecha os olhos e abre um leve bocejo. Nem houve aviso prévio. Fiquei preocupado. Será que a conversa está chata? Setúbal, sentado na nossa frente, com sua voz de barítono, pisca o olho e avisa, sabendo que ele iria ouvir:

- Professor, não se incomode. É assim mesmo. Quando ele quer ir embora, não fala. Simplesmente, inventa que está dormindo.

Mas era visível seu cansaço. Olhei de leve para nosso ex-primeiro-ministro e confesso ter observado um disfarçado sorriso nos lábios. Setúbal pagou a conta e saímos. Felizes por termos participado de um histórico encontro com a matreirice mineira.

Mais uma de Tancredo.

Conchavo

Premido pelos casuísmos, Tancredo Neves foi obrigado a fundir o seu PP com o MDB de Itamar. Alguns pepistas pularam do barco e protestaram alegando conchavo. Tancredo foi curto e seco: "Conchavo é a identificação de ideias divergentes formando ideias convergentes." Tinha razão. Muitas curvas desembocam em retas.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/419809/porandubas-n-867


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Meus 53 anos nos 300 de Fortaleza

Por Vladimir Spinelli Chagas (*)

Como funcionário do BNB em Itabuna (BA), estive em Fortaleza nos anos de 1970 e 1971 para participar de treinamentos próprios das funções então exercidas - uma prática seguida, à época, por essa exemplar instituição.

Em junho de 1973, após processo seletivo, vim participar de mais um curso do BNB, em que a aprovação significaria transferência definitiva para esta cidade. Confiei e já vim com a família.

Fortaleza contava com 950 mil habitantes, uma pequena metrópole, com raros prédios com mais de três pavimentos e comércio e serviços incipientes. As opções de lazer concentravam-se no Centro, especialmente na Cidade das Crianças, Praça do Ferreira e cines São Luiz e Diogo.

A orla contemplava os principais clubes sociais, o Náutico, o Ideal e o Líbano. A Praia do Futuro era uma esperança no próprio nome, mas o elevado índice de maresia não possibilitou a ocupação imobiliária prevista.

O BNB, como motor de desenvolvimento, contribuía para o crescimento das atividades econômicas e, pela visão de formação de pessoas, colaborava com técnicos de elevado padrão, a ocuparem postos de destaque, especialmente em instituições públicas nos três níveis de governo.

O sonho da Uece viria a se concretizar em 1975, com a visão de interiorização do ensino e formação de professores, mas já demonstrando aptidão para outras áreas. Hoje, o curso de nível internacional de Ciências Veterinárias, o elevado nível de pesquisa e a excelência em inovação são conquistas que a colocam em destaque no Brasil e no mundo.

A nova Fortaleza, dos edifícios de mais de 150 metros e 2,6 milhões de habitantes, tem hoje uma orla revitalizada e posição de destaque nacional na economia. O Estádio do Castelão de 1973, transformado na Arena Castelão (padrão Fifa), e uma cidade policêntrica com hubs de inovação e parques urbanos trazem-nos uma certa saudade daqueles tempos.

Contudo, esse saudosismo não imobiliza o presente; antes, permite-nos valorizar a fênix urbana em que Fortaleza se tornou ao completar três séculos. O crescimento acelerado, iniciado na década de 1970, não empana o seu carisma de "Loura Desposada do Sol".

Parabéns, Fortaleza!

(*) Professor aposentado da Uece, membro da Academia Cearense de Administração (Acad) e conselheiro do CRA-CE. Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Fortaleza.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.


AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA EM RISCO

Por Sofia Lerche Vieira (*)

A origem da universidade remonta à Idade Média. Concebida sob o princípio da "busca da verdade sem constrangimentos", sua autonomia é condição para a liberdade de ensinar, pesquisar e produzir conhecimento. Tal princípio, assegurado pela Constituição Federal de 1988 (Art. 207), é um componente essencial das democracias modernas.

Esse elemento fundamental da universidade, porém, enfrenta pressões crescentes. Nos Estados Unidos, por exemplo, intensificaram-se críticas às universidades, utilizadas para justificar restrições orçamentárias, vigilância sobre conteúdos e limitações à presença de estudantes e pesquisadores estrangeiros, afetando diretamente a diversidade e a produção acadêmica.

O cenário atinge tanto universidades de reputação internacional, como Harvard, Columbia e Princeton, quanto outras instituições do sistema de ensino superior norte-americano, antes livres de ameaças à autonomia. O movimento "No Kings" ("Sem Reis"), que tem levado milhares de cidadãos a protestos de rua naquele país, expressa, em alguma medida, a resistência da sociedade às perseguições em curso, incluindo aquelas dirigidas às universidades.

Esse contexto dialoga com riscos já conhecidos no Brasil. Em cenários de avanço de agendas autoritárias, universidades frequentemente se tornam alvo por sua natureza crítica e questionadora. A história brasileira demonstra que perseguição a professores e estudantes, controle de conteúdos e restrições à liberdade acadêmica já comprometeram o papel das instituições de ensino superior.

A situação nos Estados Unidos permite vislumbrar possíveis desdobramentos sob governos de extrema direita: maior controle político na escolha de dirigentes, enfraquecimento da liberdade intelectual e cortes de financiamento. Trata-se de um padrão em que o pensamento crítico passa a ser visto como ameaça.

A fragilização da autonomia universitária impacta não apenas a educação, mas também a capacidade da sociedade de refletir, inovar e sustentar suas instituições democráticas. Trata-se, portanto, de um alerta global: defender a universidade livre é defender a democracia.

(*) Professora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Uece e consultora da FGV-RJ.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 20/04/26. Opinião. p.18.


quarta-feira, 20 de maio de 2026

Homenagem aos Ex-Coordenadores do Curso de Medicina da Universidade Federal do Ceará

Hoje, 12 de maio de 2026, a querida Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Ceará celebra 78 anos de fundação. Entre os eventos comemorativos, destaca-se a inauguração da galeria de fotografias dos ex-coordenadores do Curso de Medicina — justa homenagem aos professores que, no exercício desse importante cargo, dedicaram-se ao acompanhamento e à formação dos alunos. A iniciativa foi liderada pela atual coordenadora, Profª. Mônica Façanha, com o apoio do Diretor da Faculdade, Prof. João Macedo, e do Magnífico Reitor, Prof. Custódio Almeida, ambos presentes à solenidade.

Por ter exercido a função de coordenador do curso de graduação em Medicina, sei o quanto esse cargo é relevante para o corpo discente, pois envolve o desempenho de múltiplas atribuições. Assumi essa responsabilidade no tempo do Centro de Ciências da Saúde, o qual era dirigido pelo Prof. Afonso Bruno. Recebi o convite com certo receio de não corresponder plenamente às exigências da função. Felizmente, tudo transcorreu bem, graças à colaboração de dois extraordinários servidores: Dona Natércia Esmeraldo e João Carlos Pordeus Freire, com os quais compartilho esta homenagem.

Foi uma fase de grande aprendizado para mim, ocasião em que ampliei minha visão acerca do vasto universo da Universidade Federal do Ceará. No Campus do Pici, realizavam-se reuniões mensais na Pró-Reitoria de Graduação, conduzidas pelo Pró-Reitor, Prof. Gil de Aquino Farias, com a presença de todos os coordenadores dos cursos de graduação da UFC. Eram encontros de grande relevância, nos quais cada coordenador expunha as peculiaridades e os desafios de seu respectivo curso.

Os coordenadores dos cursos do Centro de Ciências da Saúde — Perboyre Castelo (Odontologia), Ana Martins (Enfermagem), Carlos Couto (Farmácia) e Sebastião Diógenes (Medicina) — viajávamos para cidades do interior com o objetivo de acompanhar os alunos do estágio rural. Guardo especial lembrança de duas delas: Croatá e Tejuçuoca. Éramos sempre muito bem recebidos pelos prefeitos e secretários de saúde dos municípios. As viagens, realizadas em ônibus da UFC, tornavam-se momentos particularmente agradáveis de convivência e troca de experiências.

Recordo também que, naquele período, foi implantado o serviço de informatização da UFC, representando um grande avanço administrativo. João Carlos e eu participamos de treinamento na Pró-Reitoria de Graduação, no Pici. Sempre admirei sua inteligência voltada para a informática, assim como a dedicação exemplar ao serviço público demonstrada por Dona Natércia Esmeraldo e João Carlos Pordeus Freire.

Por fim, gostaria de recordar dois grandes professores que me visitaram logo após eu assumir a coordenação. O Prof. Aprígio Mendes Filho presenteou-me com o Regimento da UFC e recomendou que eu o seguisse fielmente, assegurando-me que assim não haveria erro. Já o Prof. Haroldo Juaçaba aconselhou-me a jamais abandonar o centro cirúrgico e o ambulatório, permanecendo na coordenação apenas o tempo necessário para resolver as pendências administrativas.

Tenho profunda gratidão a todos que me ajudaram nessa trajetória. Felicito a Faculdade de Medicina pelo transcurso de seu 78º aniversário de fundação.

Muito obrigado pela homenagem!

Sebastião Diógenes 12-05-2026


CANETAS EMAGRECEDORAS: do tratamento médico ao uso abusivo

Por Paulo Campelo (*)

Essas medicações representam um avanço importante da ciência no tratamento da obesidade, doença crônica, complexa e multifatorial. O problema começa quando o uso terapêutico dá lugar ao uso indiscriminado, sem prescrição médica, sem diagnóstico adequado e sem acompanhamento profissional.

Estes não são medicamentos inofensivos. Seu uso inadequado pode provocar complicações graves e, em situações extremas, fatais. No noticiário e nas redes sociais, sempre ouvimos casos que trazem uma situação extrema, até mesmo resultante de medicamentos contrabandeados, fracionados ou comprados no mercado ilegal. 

Infelizmente, não são casos isolados. No consultório, tornam-se cada vez mais comuns relatos de pessoas que adquirem essas substâncias em sites informais, com conhecidos, influenciadores digitais e, de forma alarmante, até em salões de beleza. Há ainda histórias de medicamentos manipulados sem controle, frascos sem identificação e produtos vendidos como "naturais", aplicados sem qualquer critério técnico ou segurança.

Isso ultrapassa a irresponsabilidade individual e configura um problema de saúde pública. É fundamental deixar claro: esses medicamentos não foram criados para perda de peso ocasional ou fins puramente estéticos. Eles são indicados para tratar doenças complexas, como obesidade e diabetes, e exigem rigor técnico. Atuam no sistema digestivo, interferem na glicemia e podem impactar a pressão arterial, tornando indispensáveis avaliação médica, exames e acompanhamento contínuo.

A influência das redes sociais tem papel central nessa distorção. Conteúdos superficiais criam uma falsa sensação de segurança e escondem riscos reais. Nenhum resultado estético justifica colocar a própria vida em risco. A banalização dessas medicações abre caminho para novas tragédias. É urgente resgatar o senso crítico e lembrar que obesidade é doença, e tratamento exige responsabilidade.

(*) Médico. Presidente da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica - Capítulo Ceará.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 6/04/2026. Opinião. p.22.


terça-feira, 19 de maio de 2026

Hospitais de ensino para fortalecer o SUS

Por Josenília Gomes (*)

Desde que foi vinculado à HU Brasil, antes chamada Ebserh, o Complexo Hospitalar da UFC teve sua capacidade de resposta à rede de saúde fortalecida por um modelo de gestão que garante previsibilidade, qualificação de processos e melhores condições para o cuidado em saúde. No último ano, essa parceria institucional se traduziu em resultados que evidenciam isso.

A Maternidade-Escola Assis Chateaubriand seguiu referência para a gestação de alto risco com emergência obstétrica e cuidados a recém-nascidos prematuros extremos, oferecendo cirurgia fetal como correção intrauterina de meningomielocele e fetoscopia a laser para síndrome de transfusão feto-fetal. Também acolheu mulheres vítimas de violência, em tratamento de endometriose e para neovagina com pele de tilápia. Foram realizados quase 490 mil procedimentos com foco no cuidado da mulher durante a gestação e fora dela.

No Hospital Universitário Walter Cantídio, foram registrados quase 400 mil atendimentos ambulatoriais, cinco mil cirurgias, mais de um milhão de exames diagnósticos, 13 mil procedimentos oncológicos e 254 transplantes. Destaque para a primeira infusão da medicação Spinraza para o tratamento de crianças com atrofia muscular espinhal.

Em 2025, o CH-UFC avançou ainda na qualificação do ensino em saúde, com o fortalecimento da formação de preceptores, a ampliação dos programas de residência e a diversificação dos campos de estágio. O período também foi marcado pela conquista do Prêmio PIT HU Brasil/MEC 2025, que reconheceu iniciativas tecnológicas.

A gerência da HU Brasil no CH-UFC trouxe avanços em infraestrutura, como ampliação de consultórios, modernização da unidade de pesquisa clínica e laboratório de simulação para treinamento prático simulado, além da reorganização de unidades administrativas. Foram mais de R$ 11 milhões investidos em obras e aquisição de equipamentos.

Em 2026, será necessário consolidar políticas permanentes de formação, continuar investindo em inovação pedagógica, fortalecer indicadores de qualidade e integrar ainda mais gestão, ensino, assistência e pesquisa. É o caminho para o Complexo Hospitalar da UFC, para a HU Brasil, para o SUS e, sobretudo, para a população que dele depende.

(*) Médica. Superintendente do Complexo Hospitalar da UFC/HU Brasil.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 3/04/2026. Opinião. p.20.

segunda-feira, 18 de maio de 2026

PARABÉNS À TRICENTENÁRIA

Por Romeu Duarte Junior (*)

Acordou ainda bêbado na calçada da Rufino de Alencar, ao lado da Catedral. "Égua, tornei logo no espaço entre o Pajeú e a fortaleza, marcos da construção desta Cidade". O sol começava a dar timidamente as caras, furando as nuvens então grávidas de chuva. Centro vazio por causa do feriado, ele então se deu conta da efeméride: "Macho, tu é doido, 13 de abril de 2026, Fortaleza faz 300 anos hoje!". Levantou-se do imundo chão e foi dar início ao dia. O silêncio nos seus ouvidos foi dando lugar a um alarido cada vez mais alto à medida que se aproximava da Travessa Crato. Vislumbrou uma porção de gente aboletada nas mesas do Raimundo do Queijo. Apressou o passo, atravessou a Conde D'Eu na carreira, quase sendo atropelado por um táxi, e foi se juntar à barulhenta patota.

Para seu espanto, numa mesa o capitão-mor Manuel Francês, o padre João de Mattos Serra e Dom João V discutiam asperamente com Pero Coelho, Martim Soares Moreno e Raimundo Girão sobre a data correta da criação da Cidade. Noutra távola, Liberal de Castro, Fausto Nilo, Delberg Ponce de Leon e um certo arquiteto ligado ao patrimônio mais discordavam do que concordavam quanto ao futuro da semente que nasceu à sombra dos muros do forte. Outro grupo, formado por Juarez Leitão e Virgílio Maia pela Academia Cearense de Letras e Nirez e Clélia Lustosa pelo Instituto do Ceará debatiam sobre o melhor lugar para se comemorar o aniversário de Fort City, sendo apartados a todo instante por Abelardo Montenegro, que foi integrante das duas vetustas instituições culturais.

"Lai vai, doido, que diabo é isso?! Os mortos abandonaram seus túmulos para vir para cá bater boca com os vivos?! Arrocha, macho!", disse de si para consigo, incrédulo. Outra roda, formada por Lúcio Brasileiro, Gerard de Sangerie e Adília de Albuquerque, comentavam sobre o traje mais adequado para ser usado no evento festivo. Sentados no batente, Belchior, Ednardo e Fagner brigavam pelo título de artista que melhor cantou Fortaleza, sendo aparteados a todo momento por Marcelo Renegado e Tarcísio Sardinha. Enquanto Lira Neto, Paulo Linhares e Otacílio Colares riam da confusão, Lúcio Alcântara, Juraci Magalhães, Roberto Claudio e Álvaro Weyne disputavam o mérito de melhor alcaide local. A turma do Seu Raimundo, Erasmo Pitombeira à testa, tomava seu lauto café da manhã.

De repente, estoura um sururu dos diabos. Torcedores do Ceará, abraçados com Gildo, Tiquinho e Vina, trocavam sopapos com seus rivais leoninos que traziam Croinha, Amilton Melo e Brítez nas cacundas. A escaramuça só terminou quando alguém propôs que todos cantassem os parabéns para a feliz aniversariante e dividissem o bolo de 300 quilos que Burra Preta e Zé Tatá carregavam. Acordou aos gritos, desta vez de verdade. "Fortaleza, Loura desposada do sol, cidade insubmissa (mas que vota em político ressentido e que joga lixo na porta da prefeitura), dádiva do vento, filha do algodão, desigual, injusta, violenta, retrato fiel da Belíndia, capital da gambiarra e do improviso, mesmo assim eu te amo pois me aceitaste como filho teu", gemeu alegre e triste. "Grato por mais um dia".

(*) Arquiteto e professor da UFC. Sócio do Instituto do Ceará. Colunista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 13/04/26. Vida & Arte. p.2.


A ASCENSÃO DIGNIFICA-NOS

Por Pedro Bezerra de Araújo – Pierre Nadie

A celebração da Ascensão do Senhor culmina o processo do resgate amoroso de Deus de suas criaturas e, em especial, de quem Ele fez com Suas próprias mãos e soprou-lhe Sua imagem e semelhança.

O Filho nasceu no seio de uma família, deu-Se a todos sem acepção de pessoas e sem opções privilegiadas, acolheu a fé dos que nEle creram, foi morto no patíbulo da cruz pelas garras do poder usurário, injusto e usurpador e ressuscitou, após três dias. Este, o mistério do amor incondicional de Deus por todos e por cada um de nós.

Temos o presente de Deus: “Filius datus est nobis”. (Um Filho nos foi dado).

Temos a missão do Filho: “Ecce Agnus Dei, qui tollit peccata mundi”. (Eis o Cordeiro de Deus, que tira os pecados do mundo)

Temos a prova do amor incondicional de Deus: “Ecce lignum crucis in quo pependit salus mundi”. (Eis o lenho da Cruz, do qual dependeu salvação do mundo).

Temos a consagração da garantia plena e total: “Christus ressurrexit, sicut dixit”. (Cristo ressuscitou, como disse).

Após a consumação do Plano de Deus “Consummatum est” (Tudo está realizado), em grego “Τετέλεσται”, o Filho Ressuscitado passa quarenta dias fortalecendo, enriquecendo e complementando o ensinamento divino “Quod Ego facio, tu nescis modo: scies autem postea”. (O que faço não compreendes agora; saberás mais tarde).

Restava agora o coroamento da dignidade humana, ante a infinita amorosidade de Deus: Jesus, o Filho Salvador, ascende aos céus e, com Sua humanidade, assenta-se à direita do Pai. Jesus, não só nos leva aos céus, Ele nos eleva a dignidade perdida; na Sua Ascensão, Ele nos incendeia’ o coração e acende e faz arder a fé: “Eius Ascensio restituit dignitatis nostrae plenitudinem”. (Sua Ascensão restituiu nossa plena dignidade).

Ao ascender aos céus, Jesus faz-nos uma ‘intimação’ tão precisa, tão transparente e tão rigorosa, quanto amigável:

Homens da Galileia, por que ficais parados, olhando para o céu?  Ele virá do mesmo modo que O vistes subir para o céu.” (cfe. At 1,11).

Recebereis o poder do Espírito Santo para serdes Minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria e até os confins da terra.” (At 1, 8).

Toda autoridade Me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, ide e fazei discípulos Meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei e estarei convosco até o fim do mundo.” (cfe. Mt 28, 19).

Para todos nós, cristãos, eis duas mensagens: não ficar parado, mas crescer na fé, na caridade, no amor, pois o céu não se conquista com olhares, senão com o testemunho vívido do Evangelho; a segunda é a certeza da Parusia, aliás, o lençol dobrado no túmulo já o anunciara.

Para a Igreja, Jesus define, claramente, sem rodeios nem ambiguidades, a sua missão.

Dominus vobiscum, (O Senhor esteja convosco) diz o sacerdote e o povo responde Et cum spiritu tuo (E com teu espírito). A mutualidade partilhada da oração irmana sacerdote e fiéis.

Um bom domingo, com as bênçãos de Deus!!!

(*) Pediatra e professor da Uece aposentado. Enviado por WhatsApp em 17/05/26.

domingo, 17 de maio de 2026

POSSE DA XXV DIRETORIA DA ACADEMIA CEARENSE DE MEDICINA

Mesa diretora da solenidade de posse da XXV Diretoria da ACM em 15/05/26. (Foto cedida pela Acada. Sara Lúcia F. Cavalcante).

A Academia Cearense de Medicina (ACM) efetuou na noite de 15/05/2026, no Auditório Reitor Martins Filho da Reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC), a solenidade de posse da sua nova diretoria, para o biênio 2026-28, que terá na sua Presidência o Acad. Ivan de Araújo Moura Fé, substituindo o Acad. José Henrique Leal Cardoso.

Comportou ao Acad. José Henrique Leal Cardoso empossar e passar o colar presidencial ao novo presidente, após o que o presidente recém-empossado nomeou e deu posse aos componentes da nova Diretoria Executiva e do respectivo Conselho Fiscal.

Na oportunidade, a ACM realizou a posse do seu membro honorário Hugo Santana de Figueiredo, ilustre e conceituado oftalmologista radicado no Cariri cearense, que foi recepcionado, em nome do sodalício, pelo Acad. Vladimir Távora Fontoura Cruz, seu colega de turma médica e proponente da concessão desse título acadêmico. Em seguida, cumprindo o ritual de posse, o Acad. Hugo Santana de Figueiredo pronunciou o seu discurso de agradecimento permeado de caras lembranças da sua trajetória de vida profissional.

O evento foi conduzido de forma exitosa pelo cerimonialista Acad. João Martins de Souza Torres, consoante protocolo cuidadosamente por ele elaborado.

Após o término dos trabalhos, a ACM e o Acad. Hugo Santana de Figueiredo proporcionaram aos acadêmicos e seus convidados um coquetel de congraçamento nos jardins da Reitoria da UFC.

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


O AMOR QUE VENCE A MORTE

Por Pe. Reginaldo Manzotti (*)

A Páscoa é o coração da fé cristã. Não é apenas uma data no calendário litúrgico nem a lembrança de um fato do passado. A Páscoa é um acontecimento vivo, permanente, que atravessa os séculos e alcança cada ser humano em suas dores, medos e esperanças. Celebrar a Páscoa é proclamar que a morte não tem a última palavra, que o sofrimento não é definitivo e que Deus permanece fiel até o fim.

Desde o Antigo Testamento, a Páscoa está ligada à passagem: passagem da escravidão para a liberdade, da opressão para a terra prometida. Em Jesus Cristo, essa passagem atinge sua plenitude. Ele atravessa a morte e abre para toda a humanidade um caminho novo. Como afirma São Paulo: "Se Cristo não ressuscitou, vazia é a nossa fé" (1Cor 15,14). Não se trata de um detalhe da fé, mas de seu fundamento.

A Páscoa nos revela quem é Deus: não um Deus distante ou indiferente, mas um Deus que entra na história, sofre conosco, morre por amor e ressuscita para nos devolver a vida. A ressurreição não apaga a cruz, mas dá sentido a ela. O Ressuscitado conserva as marcas dos cravos, mostrando que o amor vivido até o extremo não é destruído, mas transfigurado.

O túmulo vazio é um sinal aberto. Ele aponta para algo maior: Jesus não está mais entre os mortos porque Deus agiu. Como diz o anjo: "Por que procurais entre os mortos aquele que está vivo?" (Lc 24,5).

Quantos de nós carregamos sepulcros interiores - medos, culpas, desesperanças? O sepulcro vazio nos provoca a sair. Não é um lugar para permanecer, mas para partir em missão. A Páscoa nos tira das seguranças, das certezas fechadas, e nos envia a anunciar que a vida venceu.

A Igreja sempre afirmou com clareza: a ressurreição de Jesus não é metáfora nem símbolo psicológico nem simples continuidade da memória dos discípulos. Trata-se de um acontecimento real, histórico, mas que ultrapassa a história. O corpo de Jesus ressuscita, porém não volta à vida biológica como Lázaro. Ele entra numa condição nova, glorificada.

Celebrar a Páscoa não é apenas afirmar que Jesus ressuscitou, mas permitir que Ele ressuscite em nós. Cada vez que escolhemos a vida, o perdão, a reconciliação, a justiça, participamos da dinâmica pascal.

A ressurreição nos ensina que Deus age mesmo quando tudo parece perdido. Quando a pedra parece pesada demais, quando o túmulo parece definitivo, Deus já está trabalhando no silêncio da madrugada. A Páscoa nasce no escuro, antes do sol aparecer.

Como Igreja, somos chamados a ser sinais de ressurreição num mundo marcado por tantas mortes: físicas, emocionais, sociais e espirituais. Onde há exclusão, somos chamados à comunhão. Onde há desespero, à esperança. Onde há cruz, a anunciar que ela não é o fim.

A essência da Páscoa cabe numa simples proclamação: Ele vive. E porque Ele vive, a vida tem sentido, a dor não é absurda e o amor não é em vão. O túmulo vazio não é um ponto final, mas um começo.

Cristo ressuscitou. Verdadeiramente ressuscitou. Aleluia! Feliz e abençoada Páscoa!

(*) Fundador e presidente da Associação Evangelizar é Preciso e pároco reitor do Santuário Nossa Senhora de Guadalupe, em Curitiba (PR).

Fonte: O Povo, de 18/04/2026. Opinião. p.22.

sábado, 16 de maio de 2026

II Encontro Científico da Academia Cearense de Medicina

Em 13 de maio de 2026, no Auditório Central da Universidade Christus (Unichristus), aconteceu o II Encontro Científico da Academia Cearense de Medicina (ACM).

Após a composição da mesa de abertura dos trabalhos, que contou com a representação de importantes entidades médicas e de ensino, a programação foi iniciada com o discurso de saudação proferido pelo presidente da ACM José Henrique Leal Cardoso.

Em seguida, o Acad. Anastácio de Queiroz Sousa discursou em homenagem ao Presidente de Honra do evento, o Acad. Emérito Dr. Elias Giovane Boutala Salomão traçando esmiuçada e alentada biografia do homenageado. O Dr. Elias Boutala, bastante sensibilizado com a honraria concedida pela ACM, agradeceu com palavras tocantes, gerando emoção entre os presentes e produzindo calorosos aplausos de reconhecimento da audiência.

Desfeita a mesa de abertura, o programa científico começou com um ciclo de conferências, intitulado “Panorama Nacional e Estadual das Escolas Médicas”, sob a coordenação da Dra. Inês Tavares Melo, atual presidente do CREMEC, que teve como conferencista os Drs. Margareth Dalcolmo (Academia Nacional de Medicina), Estevam Rivello (Conselho Federal de Medicina), Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Academia Cearense de Medicina) e Edmar Fernandes (Sindicato dos Médicos do Ceará).

Após o intervalo, completando a programação da manhã, teve um ciclo de conferências, denominado “Experiência das Escolas com Nota Cinco no Enamed”, com a coordenação do Dr. Ivan de Araújo Moura Fé, atual vice-presidente da ACM, do qual participaram como expositores José Lima Rocha (Unichristus), João Macedo Coelho Filho (Universidade Federal do Ceará) e Sheila Maria Fontenele (Universidade Estadual do Ceará).

O turno da tarde constou, inicialmente, do ciclo de conferências “Novas Estratégias Metodologias de Ensino e Aprendizagem”, coordenado pela Acada. Sara Lúcia Ferreira Cavalcante, tendo por conferencistas os médicos e professores José Batista (Universidade Federal do Ceará), Luiz Gonzaga de Moura Jr. (Unichristus) e Verônica Freitas (Universidade de Fortaleza).

O II Encontro Científico da ACM foi encerrado com o “Simpósio Entre as Escolas Médicas do Ceará”, coordenado pelo Acad. Arruda Bastos, tendo por debatedores Marcelo Gurgel Carlos da Silva (Universidade Estadual do Ceará) e Edmar Fernandes (Sindicato dos Médicos do Ceará).

Acad. Marcelo Gurgel Carlos da Silva

Membro titular da ACM – Cadeira 18


O QUE ACONTECEU?

Por Rev. Munguba Jr. (*)

Normalmente não assisto TV aberta. Prefiro selecionar conteúdos sob demanda e, assim, construir um conjunto de informações mais equilibrado, contemplando visões diferentes e, muitas vezes, até discordantes entre si. No entanto, nas últimas semanas, percebi uma mudança de direção nos editoriais da grande mídia.

O que, até pouco tempo atrás, era tratado como ataque ao Judiciário e à democracia, passa agora a ser apresentado sob a antiga e apropriada perspectiva da liberdade de imprensa. Na realidade, nunca se tratou de ataque, mas de críticas, algo essencial em qualquer sociedade democrática.

Fico satisfeito em perceber o retorno de um jornalismo mais firme, combativo e investigativo, comprometido com a apresentação honesta dos fatos. Quando os diferentes lados de uma notícia são expostos com clareza, todos ganham.

Em momentos recentes, aplausos foram direcionados ao ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, mesmo diante de decisões controversas, como prisões e condenações severas, além de medidas monocráticas que atingiram jornalistas e cidadãos comuns por manifestações de pensamento divergente. Esse cenário levanta reflexões importantes sobre limites, equilíbrio e responsabilidade institucional.

Não se trata de direita ou esquerda. A polarização sempre existiu e continuará existindo. O ponto central é a defesa de uma imprensa livre, equilibrada e corajosa, não subserviente a qualquer poder.

A Bíblia afirma que a nossa palavra deve ser "sim, sim; não, não". Isso remete à clareza e à honestidade. É legítimo que o jornalista expresse sua opinião, desde que o faça de forma transparente, distinguindo claramente o que é fato, o que é interpretação e o que é posicionamento pessoal.

A recente cobertura de temas como o Banco Master e o INSS, sem poupar agentes de diferentes espectros políticos, traz um novo fôlego ao jornalismo.

O Brasil precisa, com urgência, de seus jornalistas plenamente ativos: livres, íntegros, investigativos e profundamente comprometidos com a verdade.

(*) Pastor Munguba Jr. Embaixador Cristão da Oração da Madrugada e Erradicação da Pobreza no Brasil e presidente da Igreja Batista Seven Church.

Fonte: O Povo, 11/04/2026. Opinião. p.20.


sexta-feira, 15 de maio de 2026

FOLCLORE POLÍTICO: Porandubas 866

Abro a coluna com um frio aperto de mão.

O frio aperto de mão

O deputado baiano mandou cartão de Natal para uma mulher que morrera há muito tempo. A família, irritada, retribuiu: "Prezado amigo, embora jamais o tenha conhecido durante os meus 78 anos de vida terrena, daqui de além-túmulo, onde me encontro, agradeço o seu gentil cartão de boas festas, esperando encontrá-lo muito em breve nestes páramos celestiais para um frio aperto de mão. Purgatório, Natal de 2005." O deputado recebeu a resposta. E espera, angustiado e insone, pelo aperto de mão.

Fonte: Gaudêncio Torquato (GT Marketing Comunicação).

https://www.migalhas.com.br/coluna/porandubas-politicas/419404/porandubas-n-866


quinta-feira, 14 de maio de 2026

Finim é um risco na imensidão do mar

Por Izabel Gurgel (*)

Por volta das cinco da tarde, Francisco Finim sai de casa, no Moura Brasil, no Centro de Fortaleza, apetrechado para pescar no mar à vista. Leva a tiracolo a balsa artesanal, feita por ele com pranchas de isopor, sacos de ráfia e pedaços de madeira. Um primor de desenho, de corte e costura manual, de reuso e aproveitamento de materiais. Fino designer, fino design.

O acervo de gestos, cultivados em uma vida de práticas de invenção, integra desde a feitura quanto o transporte da balsa e remos, o manejo nas águas e na terra, na descida do morro até o mar, na subida de volta à casa, com frutos do trabalho. Leva junto o galão, a rede sintética que é uma operação entre vazio e cheio, leveza e peso. A rede é adornada com chumbo para tanto submergir (a trama geométrica) quanto deixar a borda visível e firme para lançamento e arrasto. A balsa, a pesca, a vida cotidiana constituem uma rede quase invisível de agenciamentos para existir.

Dos altos do Moura Brasil, Finim faz o caminho-serpentina descendo para a praia, cruzando a avenida Leste-Oeste, cuja construção mudou os contornos de onde vive, desde a retirada de ruas e casas e moradores ao barulho de grande circulação de veículos, constituindo um outro espaço e um outro tempo.

Finim realiza o apelido incorporado quando, ele ao mar, nosso ponto de vista partindo da sede do Nupac, vemos o pescador como um risco na imensidão. O Nupac é o Núcleo de Patrimônio Cultural do Moura Brasil, conduzido por Ismael Gutemberg e Débora Soares, na casa da família, na 'rua de frente' do morro. Finim é um risco na imensidão. No alto, eu o vejo porque Ismael me ajuda a olhar.

Quando começa a remar, de costas para o mar, de frente para a praia e a Cidade, Finim é um músico solista em concerto sinfônico. Com seus instrumentos, e a orquestração para o encontro com o mar, Finim toca o que tem de melhor. Eu o vi partir um dia, depois de fazer com ele o caminho da casa à praia, Finim tão íntimo dos materiais de trabalho e do chão onde pisa quanto aberto ao que pode ser que pensamos em quando um bailarino dança.

Finim se lança ao mar dando as coordenadas para Ismael melhor se posicionar e fotografá-lo. Que Ismael fosse pelo pontão da marina do hotel de mesmo nome. Fazemos pelo pontão o percurso que Finim faz nas águas. Finim músico, orquestra, maestro e música. Na plateia, Ismael e eu nos deslocamos em paralelo até Finim nos ultrapassar, remando sem parar, indo, seguindo, avançando rumo ao "endereço" onde quer chegar.

Ao longo do pontão, conversa com a gente, da água para a terra, querendo me fazer ver como lhe é perfeita, na adequação ao corpo exíguo, a balsa várias vezes revestida de sacos de farinha de trigo, oriundos da padaria da família da Débora, nos altos do Moura. Com a proa feito noiva do vento, Finim se distancia e nos acena com os remos: "Dona Izabel, agora só oito horas". É o horário de retorno. À imagem de São Francisco e os pássaros, acrescentamos a movente paisagem Finim e os peixes.

(*) Jornalista de O Povo.

Fonte: Publicado In: O Povo, de 12/04/26. Vida & Arte, p.2.

 

Free Blog Counter
Poker Blog